29/07/2019 às 19h05min - Atualizada em 29/07/2019 às 19h05min

A política presente na música

Manoel Paulo

No Brasil atual e polarizado, a música acabou sendo mais um alvo para as pessoas que não gostam quando alguém defende uma posição política.

Quem não lembra quando o músico Roger Watters se manifestou, durante sua turnê pelo Brasil, contra o presidente Jair Bolsonaro, na época candidato à presidência?! Foi uma grande confusão! Pessoas revoltadas por terem gasto um bom dinheiro para ver um show e se deparar com um ato político. Mas quem conhece o artista que fez parte do Pink Floyd sabe que não é recente sua atuação política. Em sua longa história, o próprio Pink Floyd teve músicas políticas. Entre elas, a mais famosa: Another Brick in the Wall.

Um outro exemplo de grupo com letras políticas é o U2, uma banda irlandesa formada nos anos 70. O vocalista Bono Vox é bem ativo politicamente. Um dos maiores sucessos foi a música Sunday Bloody Sunday, na qual fala sobre o Domingo Sangrento, ocorrido na Irlanda do Norte, onde tropas britânicas atiraram contra manifestantes dos direitos civis.

O U2 é ativamente político desde o início da década de 1980. Eles sempre colaboraram com outros músicos, artistas e políticos na luta contra a pobreza, doenças e injustiça social. Um exemplo foi a participação de Bono Vox e Adam Clayton no Live Aid em 1984, um evento beneficente que reuniu músicos irlandeses e britânicos com o objetivo de arrecadar fundos para o combate a fome na Etiópia.

Uno às causas políticas, o punk rock surgiu na década de 1970 com o objetivo de falar ativamente dos problemas sociais. Um dos ícones no início do movimento, o Sex Pistols abalou as estruturas na terra da rainha Elizabeth.

No início da década de 70, a Inglaterra era um lugar deprimente com desemprego e lixo por toda a cidade. Esse foi o combustível para as letras ácidas do Sex Pistols, grupo formado pelo vocalista Johnny Rotten, o guitarrista Steve Jones, o baterista Paul Cook e o baixista Glen Matlock.

A letra de Anarchy in the UK já manda uma pedrada no primeiro verso:

I'm an anti-christ / I'm an anarchist / Don't know what I want, but I know how to get it / I wanna destroy passer by 

(Eu sou um anticristo / Eu sou um anarquista / Não sei o que eu quero, mas sei como conseguir / Eu quero destruir transeuntes)

Outro grupo que merece ser citado é o Dead Kennedys. Formado em 1978, na cidade de São Francisco, possuía um som peculiar em uma mistura de punk inglês e hardcore americano. Ganhou grande destaque no cenário na década de 1980.

Assim como o Sex Pistols, suas composições são sarcásticas e críticas. Letras como California Über Alles, que era uma crítica ao governador da Califórnia, ou a Nazi Punks Fuck Off, regravada pela banda Napalm Death, que é uma crítica aos punks que não levavam naquele momento a ideologia do gênero musical.

Recentemente, o Dead Kennedys se envolveu em uma polêmica que resultou no cancelamento da turnê pelo Brasil. O cartaz feito para promover os shows no país era uma crítica a atual situação política no Brasil, com referências a classe média vestida de palhaços, segurando armas. Isso gerou uma onda de comentários prós e contras ao cartaz. Muitos parabenizaram a banda pelo posicionamento punk, mas o desfecho foi negativo. Os integrantes da banda não tinham conhecimento do cartaz e cancelaram a turnê no Brasil temendo que os shows poderiam ser violentos por conta das divisões políticas. Essa atitude gerou comentários afirmando que a banda não era mais punk.

Outra banda a ser mencionada é o Rage Against the Machine. Formada em 1991, em Los Angeles (EUA), pelo rapper e vocalista Zack de la Rocha, o baixista e vocalista de apoio Tim Commerford, o guitarrista Tom Morello e o baterista Brad Wilk, a RATM trouxe a mistura do rock/metal e do hip-hop com letras fortes em todos os seus discos.

Os membros do RATM sempre foram conhecidos pelo ativismo e pelos ideais revolucionários de esquerda. Quase todas as letras tinham esses ideais como fundo e sempre produziam duras críticas ao governo americano. Para ter uma noção do engajamento político da banda, o avô do Zack de La Rocha lutou na Revolução Mexicana em 1910.

Algumas músicas da banda são verdadeiros hinos, como: Killing The Name, Bulls on Parade, Guerrilla Radio, entre outras. Recomendo muito ouvir o RATM.

O heavy metal também tem o seu lado político e um dos grupos, do qual eu sou suspeito ao falar, é o Sepultura. A banda brasileira surgiu no fim da ditadura militar e início da redemocratização.

As letras do Sepultura abordam temas sociais e políticos desde o disco Beneath the Remains, de 1989. Já no disco Chaos A.D., de 1993, as músicas abordam temas variados. Destaco a faixa Manifest, que fala sobre o massacre do Carandiru, ocorrido em 1992. Outra música importante é a instrumental Kaiowas, uma homenagem aos índios brasileiros que cometeram suicídio coletivo ao descobrirem que suas terras seriam tomadas. O disco ainda aborda assuntos relacionados ao oriente médio e suas guerras.

Essas bandas e suas músicas demonstram que a política está em tudo, principalmente na música. Cada uma expressa aquilo que viveu como uma forma de conscientizar as pessoas sobre um determinado assunto. Música não é somente um entretenimento, mas uma ferramenta de evolução e revolução. Depende apenas da sua perspectiva.

Eu sempre ouvia como um entretenimento, mas hoje busco aprender com a música. Abrir a mente e absorver conhecimento para sair desse mundo polarizado torna-se necessário.

Finalizo citando o trecho de Darkness Within, da banda Machine Head:

Music, my saviour!!!

(Música, minha salvadora!!!)

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