23/03/2022 às 13h32min - Atualizada em 25/03/2022 às 15h14min

MPB: Machismo Popular Brasileiro – Músicas nacionais que reforçam o estereótipo da mulher submissa

Do clássico infantil “Minhoca” reproduzido por Patati e Patatá ao sucesso mais recente “Vidinha de Balada” de Henrique e Juliano, muitas músicas nacionais reproduzem o discurso machista e reafirma a violência contra mulher

Vitória Barbara - editado por Larissa Nunes
Foto do Banco de Imagens Pexels em preto e branco. (Foto: Reprodução / Pexels)

Nem a época de lançamento e muito menos o gênero musical importam quando se trata do machismo – músicas que carregam discursos machistas com apologia a violência doméstica, violência sexual, dominância psicológica e até mesmo pedofilia, fazem parte das inúmeras canções brasileiras que continuam sendo reproduzidas por diversas plataformas de streamings musicais.

Normalmente as músicas são usadas apenas como passatempo, algo para se divertir de forma inocente sem ter muito o que pensar, no entanto, o que poucos sabem é que as músicas podem influenciar o comportamento e humor dos ouvintes – sujeitos ativos na sociedade. Mas até que ponto uma canção pode movimentar a violência contra mulher?

Não é difícil encontrar pessoas que escutam e cantam estas músicas. Mulheres, crianças e adolescentes também fazem parte dos grupos de ouvintes que consomem composições de teor machistas, e que pouco se questionam a respeito dos conteúdos que estão sendo reproduzidos. A sexualização dos corpos femininos e a violência contra mulher ainda é muito comum de se encontrar nas mídias, isso, devido a naturalização da cultura patriarcal que foi herdada desde as construções das primeiras organizações sociais.

Encontramos o sexismo disfarçado de “amor” em diversas músicas antigas e atuais, o que mostra claramente a romantização da misoginia pela mídia de entretenimento que, por consequência, estimula o machismo na sociedade. Só o fato de reproduzir tais produções em que posiciona a mulher a submissão e a violência física ou verbal, faz com que o machismo tenha voz e espaço.

O machismo não é só encontrado no gênero funk, apesar de ser um estilo musical onde se tem uma vasta coletânea de músicas sexistas e que trás apologia a violência contra mulher. Gêneros do tipo MPB, sertanejo, forró e até clássicos infantis carregam em suas letras o machismo que tanto prejudica a nossa sociedade, mas ainda continua presente nas plataformas digitais.

Veja a lista de 10 músicas machistas para começar a pensar e a selecionar melhor as canções que deseja ouvir:

 

Henrique e Juliano: “Vidinha de balada”


"Tô a fim de você/ E se não tiver, você vai ter que ficar/ Eu vim acabar com essa sua vidinha de balada/ E dar outro gosto pra essa sua boca de ressaca/ Vai namorar comigo, sim! / Vai por mim, igual nós dois não tem/ Se reclamar, cê vai casar também"

A dupla tinha como intenção trazer uma música romântica na qual o personagem principal se apaixona pela mocinha através de um beijo e por conta disso, ela deveria ficar com ele e largar a sua vida antiga de balada. O problema já inicia com ele indo atrás da mulher em questão afirmando: “Tô afim de você e se não tiver ‘cê vai ter que ficar”. Pelo fato de querer estar tanto ao lado da pessoa pela qual se encontra apaixonado, a mulher não tem escolha a não ser ficar com ele. O que era para ser um exemplo de declaração, acabou se tornando algo agressivo e problemático.


Repertório de Patati e Patata: “Minhoca”


“Minhoca, minhoca/ Me dá uma beijoca/ Não dou, não dou/ Então eu vou roubar/ Minhoco, minhoco/ Você é mesmo louco/ Beijou do lado errado/
A boca é do outro lado”

O clássico infantil reproduzido pela dupla de palhaços Patati e Patata e que também já passou pelas cantoras e apresentadoras Eliana e Xuxa, pode ser classificado como a representação do assédio sexual apresentado ainda na infância. Apesar do pedido do beijo ser negado pela “Minhoca”, o personagem masculino não respeita a decisão dado pela parceira e força o beijo, configurando o assédio. A ação de beijar a personagem feminina sem o seu consentimento mostra a naturalização desse tipo de violência visto no cotidiano.
 

É o tchan: “Pau que nasce torto”



"Tudo que é perfeito a gente pega pelo braço / Joga ela no meio / Mete em cima / Mete em baixo / Depois de nove meses / Você vê o resultado"

Assédio e abuso sexual é o que compõe a música composta pela dupla É o tchan. A canção já inicia com o cantor dizendo sobre puxar pelo braço aquela que ele achar atraente, “perfeito”, mas não diz se houve o consentimento da mulher. A música também faz referência as relações sexuais sem proteção, já que na própria letra diz: “Depois de nove meses, você vê o resultado”, remetendo a gravidez.


Henrique e Diego: “Ciumento (Eu)”


“Tem uma câmera no canto do seu quarto/ Um gravador de som dentro do carro/ E não me leve a mal se eu destravar seu celular com sua digital/ Eu não sei dividir o doce/ Ninguém entende o meu descontrole/ Eu sou assim não é de hoje/ É tudo por amor”.

Perseguição, ciúmes, controle, obsessão são adjetivos para se referir a esta música. O relacionamento abusivo não ocorre somente pela violência física, mas também se dá pelo controle do parceiro em relação a mulher. A letra mostra um comportamento tóxico sendo justificado por excesso de “amor”, algo comum nos relatos de relacionamentos abusivos.

Sandy e Junior: “Maria Chiquinha”

"Então eu vou te cortar a cabeça, Maria Chiquinha / Então eu vou te cortar a cabeça / Que cocê vai fazer com o resto, Genaro, meu bem? / Que cocê vai fazer com o resto? / O resto? Pode deixar que eu aproveito"

Reproduzida ainda na infância pela dupla de irmãos Sandy e Junior, a música trás um diálogo entre um casal na qual o marido questiona sua esposa sobre sua saída suspeita ao mato e com quem ela estava. Na história, Genaro ameaça a Maria Chiquinha a cortar sua cabeça, incitando violência doméstica.

MC João: “Baile de Favela”

"Quer desafiar / Não tô entendendo / Mexeu com o R7 vai voltar com a x*** ardendo" e "E os menor preparado para f**** com a x*** dela".

A música claramente faz apologia ao estupro coletivo contra uma mulher. Na letra, podemos observar os plurais e os singulares de cada palavra. Ao dizer “os menor”, ele afirma haver mais de uma pessoa que está a “f**** com a x*** dela", remetendo a uma única mulher.

Sidney Magal: “Se te agarro com outro te mato”

“Se te agarro com outro te mato/ Te mando flores e depois escapo”

A letra carrega consigo uma ameaça comum as mulheres caso elas traiam os seus parceiros. Além disso, o cantor assegura que irá escapar após matar sua companheira, mostrando que ele está ciente do ato criminal.

Raimundos: “Me lambe”

“Me dê agora seu telefone, outro dia a gente se liga/ eu quero te levar pra onde dá um frio na barriga/ me fala a verdade…quantos anos você tem? / eu acho que com a sua idade já dá pra brincar de fazer neném…”

Uma música problemática que faz apologia a pedofilia. Ao dizer “eu acho que com a sua idade já dá pra brincar de fazer neném”, o cantor mostra interesse em ter relações sexuais com uma garota que aparenta ser muito mais nova do que ele e que tem vontade de sair com ela para algum lugar que os deixe com “frio na barriga”, frase muito utilizada para expressar animação e ansiedade.

Erasmo Carlos: “Mesmo que seja eu”



“Antes mal acompanhada do que só/ você precisa de um homem pra chamar de seu/ mesmo que esse homem seja eu”

Dependência emocional e submissão da mulher diante o homem é o que se refere a música. A nossa sociedade ainda vê como tabu a independência emocional feminina, logo julgando como incapaz e nada sedutora aquela mulher que não consegue conquistar um parceiro e que, por conta disso, ela deve ir atrás de alguém mesmo ele não sendo uma pessoa na qual ela não queira ficar.

Roberto Carlos: “Esse cara sou eu”

“O cara que pega você pelo braço/ esbarra em quem for que interrompa seus passos/ está do seu lado pro que der e vier/ o herói esperado por toda mulher”

A letra se refere a uma suposta dependência da mulher perante a figura masculina e reforça a ideia de que toda mulher espera um “herói”. Essa ideia é implantada dentro dos padrões normativos do nosso convívio social, onde o homem tem que expressar o seu papel de líder e protetor da mulher indefesa.

O contexto histórico é justificativa?

O machismo em produções antigas é algo que nos leva a refletir se isso justifica a violência encontrada nas músicas. As composições não significam que todos de antigamente achavam certo, mas acreditavam que era normal já que as minorias não tinham voz para debater a respeito das criações artísticas daquela época.

Por volta do século 20, as músicas com teor machistas não eram vistas com um olhar mais crítico e que, por essa razão, as produções de canções eram feitas com mais frequência. As músicas de antigamente são frutos de uma sociedade onde o papel da mulher era de total submissão ao homem. Elas eram vistas como seres frágeis e que precisavam da atenção masculina para assim se sentirem mulheres.

As músicas machistas estão enraizadas em nossa sociedade e perdura até hoje. O surgimento de novas músicas deste tipo é resultado do comodismo e da falta de interesse da população em geral. A diferença é que agora temos espaço para questionar e combater a reprodução de canções sexistas. Com a internet, obtemos meios para buscar conhecimento e deixar a ignorância no passado.
Por isso é importante analisar pequenos detalhes que às vezes passam por despercebidos e parar de consumir e reproduzir esses conteúdos, lutando para romper essa prática musical que reforça e estimula atitudes machistas na nossa sociedade.

Se analisarmos as canções como produtos culturais, políticos e sociais, observamos que as músicas não só veiculam as representações sociais, mas também as constrói. Ao fazer isso, elas criam um poder de neutralização de práticas que recebem um valor positivo e que valorizam atitudes que prejudicam minorias. Por conta disso, os ouvintes podem acabar reproduzindo comportamentos machistas que foram ditas por músicas escutadas por eles.

O sexismo romantizado por canções criam uma imagem positiva a comportamentos machistas, comportamentos esses, que já circulam livremente em nossa sociedade. Escutar e cantar tais músicas, só irá reforçar o machismo dentro da indústria musical e fazer com que mais canções deste cunho sejam produzidas e comercializadas, ajudando a preservar as raízes culturais machistas.

Devemos olhar para o passado com uma visão do presente. Pode parecer que isso não irá fazer diferença, mas é combatendo as criações destes conteúdos que, aos poucos, os incômodos da sociedade vão se quebrando até desaparecer. Mas para isso acontecer, pessoas reconhecidas pelo público precisam dar o primeiro passo para darem o exemplo.


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