21/03/2022 às 16h19min - Atualizada em 19/03/2022 às 23h29min

Ruth Guimarães: a primeira escritora brasileira negra conhecida nacionalmente

“Eu não decidi escrever um livro não, o livro se escreveu sozinho”, Ruth Guimarães

Tassia Gomes - editado por David Cardoso
Ruth Guimarães. (Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)
Ruth Guimaraes Botelho, nasceu em 13 de junho de 1920, na cidade de Cachoeira Paulista, em São Paulo, no sítio do seu avô materno, José Botelho.  Aos doze anos, publicou suas primeiras poesias nos jornais A Região e A Notícia, ambos locais mostrando ao mundo que não passaria despercebida.

Poetisa, cronista, romancista, contista e tradutora, Ruth não enxergava os limites impostos pela sociedade por ser uma mulher e negra e aos 18 anos foi morar na cidade de São Paulo, onde cursou Filosofia e Letras pela Universidade de São Paulo (USP). Posteriormente estudou Dramaturgia e Crítica, pela Escola de Arte Dramática de Alfredo Mesquita e foi aluna de Mário de Andrade, onde iniciou os estudos em folclore e literatura popular, na qual, encantou a autora e a temática tornou-se a principal característica das obras da autora. "O encantamento de Ruth Guimarães está em ela ter ocupado espaços restritos para pessoas negras da época, como estudar em universidade pública e aprender um novo idioma, a ponto de traduzir obras clássicas e, ainda assim, ter mantido um compromisso com a cultura caipira e popular em seus contos e no seu romance Água Funda", diz à BBC News Brasil a tradutora e militante feminista Natália Chaves.

Trabalhou como revisora e tradutora para diversas editoras, traduzindo obras de escritores como Dostoievske, Alphonse Daudet e Balzac. Na área jornalistica, atuou como repórter para diversas revistas como Globo, Atuallidades Literárias e Revista Lusitana (Portugal), além de contribuir para a Revista do Globo, de Porto Alegre, resenhando livros e escrevendo semanalmente crônicas para o jornal Folha de S. Paulo e criticas literárias para o Correio Paulistano, Gazera, Diario de São Pualo, Folha de Manhã.
Não satisfeita com todas as contribuições para a literatura brasileira e midiáticas, Ruth, deixou o seu legado também na educação lecionando Letras Portuguesa durante 30 anos em escolas publicas de São Paulo.

Mas foi como escritora que o reconhecimento nacional e pioneirismo aconteceu. Aos 26 anos, em 1946, foi publicado pela Editora da Livraria Globo, o único romance da autora, Água Funda, romance aclamado pela crítica que retrata o mundo rural e caipira do Vale do Paraíba.
 
Água Funda (1946)

Capa do livro “Água funda”, de Ruth Guimarães, publicado em 1946.

Capa do livro “Água funda”, de Ruth Guimarães, publicado em 1946.

(Foto:Reprodução/Brasil Escola)
Sobre a ideia de escrever seu primeiro livro, Ruth em entrevista ao jornal O Lince, em 2013, disse “Eu não decidi escrever um livro não, o livro se escreveu sozinho”. A gente passa nessa vida, como canoa em água funda. Passa. A água bole um pouco. E depois não fica mais nada. E quando alguém mexe com varejão no lodo e turva a correnteza, isso também não tem importância. Água vem, água vai, fica tudo no mesmo outra vez.”

Assim surgiu Água Viva, um romance clássico e ousado lançado em1946, que consagrou a escritora Ruth Guimarães, e retrata questões culturais, raciais, morais, sociais, de gênero e classe, carregado de drama, ilusões e claro muita literatura “mágica”.

A narrativa do romance se passa na fazenda Olhos D’Água, um lugarzinho entre o sul de Minas Gerais e o Vale do Paraíba entre o final do século XIX e inicio do século XX. A narrativa(enredo?) do livro é dividido em duas partes, a primeira gira em torno de Sinhá Carolina jovem culta e de posses, na segunda parte os protagonistas são Jocá, um caipira e bela Curiango sobrinha-neta de Carolina. O elo entre os personagens se dá através da loucura que os acomete, com visões e superstições.

Na obra, a cultura popular se manifesta através da tradição indígena, da religião e na forma como o universo caipira é abordado de forma inovadora para a época e rendeu admiração de grandes nomes da literatura como, Guimarães Ros, Jorge Amado e o crítico Antonio Candido, tornando-se a primeira escritora negra brasileira a ser conhecida nacionalmente.
 
Academia Paulista de Letras e laços culturais


Ruth Guimarães com o crítico literário Antônio Cândido e o jornalista Joaquim Botelho.

Ruth Guimarães com o crítico literário Antônio Cândido e o jornalista Joaquim Botelho.

(Foto: Reprodução/BBC News Brasil)

 
Em 18 de Setembro de 2008, a escritora entrou para a Academia Paulista de Letras com 30 dos 34 votos válidos. Prestes a completar 89 anos, o prefeito Fabiano Vieira a convidou para assumir a pasta da Cultura em Cachoeira Paulista, sua cidade natal. Atuou também, em diversos várias como o Centro de Pesquisas Folclóricas Mario de Andrade e a Sociedade Paulista de Escritores

Vida pessoal e morte
Ruth Gumarães casou-se com um primo e juntos tiveram nove filhos, oito deles com problemas de saúde, sendo três deles portadores da síndrome de Alport. Doença genética degenerativa.

Faleceu em 21 de maio de 2014, aos 93 anos, na sua cidade natal, Cachoeira Paulista, vitima de parada cardíaca. A mesma sofria de diabetes.

Legado

Ruth Guimarães.

Ruth Guimarães.

(Foto: Reprodução/BBC News Brasil)

Esposa, mãe, romancista, professora, cronista, jornalista, poetisa, tradutora brasileira, contista, mulher negra, foi defensora da cultura negra e indígena através de suas obras. Maravilhosa!! Ruth Gumaraes, de fato, veio ao mundo para fazer história e inspirar milhões de mulheres mundo a fora que é possível sermos quem quisermos ser. “Ela é uma inspiração para todas nós, mulheres negras. Foi uma mulher que não se intimidou com seu tempo. Ocupou espaços importantes e construiu espaços importantes", disse a jornalista Viviane Duarte fundadora do projeto Plano de Menina.
 
A paulista lançou no total 51 livros, entre romance, contos, crônicas traduções e ensaios folclóricos. Em 2020, em homenagem ao seu centenário da escritora da literatura fantástica foram lançados dois livros pela Faro Editorial, Contos Negros e Contos Indígenas e em 2021 foi lançada mais uma obra , Contos de Céu. 
 
Obras de Ruth Guimarães:
  • Água funda (1946)
  • Os filhos do medo (1950)
  • Mulheres célebres (1960)
  • As mães na lenda e na História (1960)
  • Líderes religiosos (1961)
  • Lendas e fábulas do Brasil (1972)
  • Dicionário da mitologia grega (1972)
  • O mundo caboclo de Valdomiro Silveira (1974)
  • Grandes enigmas da História (1975)
  • Medicina mágica: as simpatias (1986)
  • Lendas e fábulas do Brasil (1989)
  • Crônicas valeparaibanas (1992)
  • Contos de cidadezinha (1996)
  • Calidoscópio: a saga de Pedro Malazarte (2006)
  • Contos Negros (2020)
  • Contos indíginas (2020)
  • Contos de Céu(2021)

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