21/03/2022 às 16h39min - Atualizada em 21/03/2022 às 16h30min

O poder latino: a representatividade feminina na indústria musical

Mesmo enfrentando a desigualdade de gênero, as cantoras latinas seguem crescendo na carreira internacional

Luana Costa - editado por Larissa Nunes
Anitta durante a gravação do clipe “Envolver”. (Foto: Reprodução / Marco Ovando)

A América Latina conhecida pela sua vasta diversidade cultural, é o centro de grandes ritmos, canções e danças mundialmente conhecidas. Desde muito tempo, a música latina é marcada como sinônimo de festa e apresentada no cenário internacional como algo sensual. Entretanto, infelizmente a sensualidade estabelecida, principalmente pela mídia, é tratada como algo vulgar e fútil.

Esse estereótipo é um dos pontos para que os artistas da música latina sejam colocados em desvantagem ao resto da indústria e também vítimas de preconceito. O espaço, antes formado apenas por nomes masculinos como Maluma e J Balvin, agora dá abertura para o crescimento de cantoras que também buscam conquistar o cenário mundial. Mesmo assim, elas sofrem com ataques xenofóbicos e machistas durante a construção de suas imagens profissionais.

A sensualidade mostrada nos videoclips é constantemente ligada a objetificação do corpo feminino. Por muito tempo, as mulheres eram consideradas como uma extensão dependente dos homens. O patriarcado, atrelado diretamente ao machismo, é presente desde muitos séculos atrás, responsável por excluir e minimizar as ações femininas, justamente por serem consideradas um sexo frágil.

Com o passar dos anos, a necessidade de se impor e se colocar como pessoas independentes trouxe nas mulheres um instinto de força e libertação de uma cultura preconceituosa e ultrapassada. A sensualidade, que antes deveria ser mostrada apenas para seus companheiros, é trazida pela cultura latina como uma expressão de empoderamento e independência.

Mas essa exposição, que deveria ser vista como algo transformador, segue sendo explorado de forma pejorativa pela mídia, para que sejam vendidas como produtos geradores de poder e prazer em seus consumidores. Resquícios da cultura patriarcal que ainda hoje são difíceis de combater.

Mesmo com a objetificação e a interferência do machismo no desenvolvimento profissional, as cantoras latinas se esforçam para terem o reconhecimento merecido e influenciar jovens mulheres a se sentirem inclusas na sociedade.
 

A importância da representatividade


“Eu sinto que elas não querem buscar uma representatividade só para elas [cantoras] mas também para todas as mulheres latinas” diz Maria Cecília Luz, fã das cantoras latinas. Aos 17 anos, Cecília conta que começou a gostar da música latina desde cedo, enquanto assistia séries da Disney e Nickelodeon, como a cantora Tini Stoessel que começou sua carreira como atriz na série Violetta e logo depois se voltou para a carreira musical.

Diferente de outras cantoras do cenário internacional, muitas das latinas, assim como a Tini, atuam em mais de um cenário do meio artístico para se destacar. Danna Paola, artista mexicana teve sua carreira musical iniciada em 2001, mas passou a ser mundialmente conhecida após seu grande papel na série Elite como a personagem Lucrécia.

Identificação é a palavra que descreve o motivo para que Cecília tenha se apaixonado pelos ritmos latinos. Além de serem dançantes, são eles que, para ela, “trazem uma realidade mais parecida com a nossa [latinos]”. A diversidade do repertório, desde o Pop ao Reggaeton e letras simples que, mesmo estando em espanhol, têm uma fácil compreensão, mostram a capacidade de representatividade cultural feminina no cenário musical.

 

O fenômeno Anitta

No Brasil, a cantora que mais vem se destacando e ganhando finalmente o tão desejado sucesso mundial, sem dúvidas, é a Anitta. Após entrar para o Top 10 e prestes a chegar no Top 5 global do Spotify, a brasileira se tornou a cantora mais ouvida da América Latina atualmente.
 

Post de comemoração após a música Envolver entrar no Top 10 Global do Spotify. (Reprodução: Anitta / Instagram)


Mas nem sempre sua trajetória foi marcada pelo reconhecimento. Anitta iniciou a carreira através do funk carioca – ritmo brasileiro marginalizado pela sociedade – e sempre foi julgada pelas roupas usadas em seus shows e danças sexualizadas pelo público. Mesmo assim, a cantora buscou desde o início, crescer profissionalmente valorizando o funk e quebrando o estereótipo preconceituoso instaurado pelos brasileiros. “Eu prometo para vocês que eu vou fazer o nosso funk carioca ser respeitado no nosso país’, disse ela durante seu show no Festival Villa Mix, em 2016.

Emplacando sucesso a sucesso nas paradas musicais, desde Show das Poderosas, a cantora deu início a sua carreira internacional. Após o sucesso de Bang, os olhares para outros países ainda na América Latina se abriram e as músicas, agora cantadas em espanhol, passaram a frequentar a discografia da brasileira. Além disso, parcerias com cantores latinos de sucesso começaram a ser algo frequente em sua carreira.

Já falando inglês e desenvolvendo espanhol, passou a investir no cenário americano. Com muita dificuldade e começando basicamente do zero, Anitta lançou nos últimos anos hits como Faking Love, Girl from Rio e Boys Don’t Cry, assim como músicas em dois idiomas juntamente com grandes artistas americanos como Snoopy Dog e Cardi B. Por causa da sua interação com as gravadoras e produtores dos Estados Unidos, a brasileira também aprimorou o seu lado administrativo. E hoje, além de cantora, também é uma produtora e empresária de sucesso.

Seu mais recente sucesso, a música Envolver, é um projeto solo. Anitta por muito tempo buscou colocar suas músicas solo no mercado americano, mas sempre impedida por membros de sua gravadora alegando que as canções não fariam sucesso. Agora, o hit com mais de 2,6 milhões de streams no Spotify Global é um dos pilares para o crescimento ainda maior da Girl from Rio no cenário mundial.
 

Parceria entre latinas

Durante a carreira musical, é comum que ocorram feats entre os cantores e no meio latino não é diferente. As participações especiais nas canções e videoclips viraram um fortalecimento do empoderamento feminino e um meio para que elas possam se apoiar nessa indústria tão difícil.

 

Clipe da música Friend De Semana da Danna Paola, em parceria com a Luísa Sonza e Aitana. (Reprodução: Danna Paola / Youtube)


Além disso, não só através das letras, mas também na publicidade e no marketing, as cantoras latinas se juntam para ganharem espaço e representatividade a partir de propagadas de marcas reconhecidas mundialmente. Dessa forma, é perceptível que essas parcerias contribuem para o compartilhamento da cultura e do trabalho musical.
 


Campanha do WhatsApp sobre a igualdade de gênero na indústria musical. (Reprodução: WhatsApp / Youtube)


A última campanha do aplicativo de mensagens WhatsApp trouxe as imagens de Anitta, Tini e Becky G, artistas que transformaram a cultura latina e referências no empoderamento feminino. Por meio de áudios gravados nos chats de mensagens, as cantoras conseguem compartilhar ideias e se apoiar no meio profissional. “O uso do WhatsApp abriu muitas portas para mim e se tornou um espalho onde podemos empoderar às outras na indústria da música e além. O App permitiu que muitas de nós latinas trabalhássemos juntas e compartilhássemos nossas vozes, músicas e ideias. Tem sido uma ótima maneira de se conectar, encontrar resiliência entre nós e ajudar a impulsionar a cultura latina”, conta a cantora Becky G.



 

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