27/03/2022 às 23h33min - Atualizada em 27/03/2022 às 23h55min

Crítica | Recursos Humanos

Série spin-off de Big Mouth acerta e traz assuntos importantes com bastante humor e boa didática

Tailane Santos - Editado por Fernanda Simplicio
Netflix/Reprodução
Recursos Humanos, spin-off da série de animação adulta Big Mouth, chega à Netflix na sexta-feira (18) e não decepciona. Com sua dose já conhecida de humor ácido e sarcástico renovada, o desenho deixou de lado o arco dos adolescentes e focou nos monstros hormonais e em outras criaturas responsáveis por cada emoção humana, mostrando-os em seu local de trabalho.

Acompanhe o trailer:


ATENÇÃO: A partir desse ponto podem conter spoilers.

Logo no primeiro episódio temos uma mostra de a que a série veio. Nos são apresentados alguns dos personagens que farão parte da história, como os monstros hormonais, os magos da vergonha, os besouros-do-amor, kitties da depressão, pedras da lógica, entre outros. Alguns já faziam parte da animação principal, Big Mouth, porém outros são adicionados no elenco de peso, que conta com as vozes originais de Maya Rudolph, David Thewlis, Aidy Bryant, Brandon Kyle Goodman, Nick Kroll, Keke Palmes, Randall Park e muito mais.

Como fio condutor, acompanhamos a saga de uma grávida, Becca, que teve sua besouro-do-amor substituída por uma novata, Emmy, que não tem ideia do que fazer. A humana está em trabalho de parto e é nesse momento, de extrema vulnerabilidade, que várias emoções passam por ela, desde insegurança à raiva, mas principalmente o medo de não dar conta e/ou ser uma péssima mãe.


Essa situação realmente acontece com muitas mães, que não se sentem capazes ou suficientes para assumir esse papel, e acabam "surtando", com os hormônios à flor da pele. Acompanhando o restante da série, com enfoque nessa humana, entendemos um pouco mais, de forma bem didática, como é a realidade de muitas mulheres durante e depois de uma gravidez, sobretudo quando o amor ainda está em processo de construção.

A jogada dos autores ao mostrarem a depressão pós-parto sofrida por Becca, além da privação de suas vontades devido às necessidades do bebê, foi brilhante. Para quem assiste com mais atenção, é possível sentir o que a personagem sentia, toda sua insegurança e pavor. A depressão não afeta, nem afetou na série, apenas a pessoa que a tem, mas todo o seu entorno – como foi com o marido e o bebê, que rejeitava a mãe em certos momentos. Percebe-se que toda a confusão foi ocasionada porque a protagonista humana não conseguia sentir amor, inclusive o amor-próprio. É genial como conseguiram desenvolver, de forma contínua e sem muitos furos, o amadurecimento da mulher e de sua besouro-do-amor.

Outras questões e problemas sociais também foram levantados nessa primeira temporada, como os filhos que quase precisam implorar pelo amor dos pais, exemplificado pelo Mago da Vergonha tentando impressionar a mãe. Ou o vício em algo, que podem levar à obsessão e à loucura, e que, quando penetram em sua vida, é bem complicado de se livrar.


Se o foco de Big Mouth são os hormônios e a descoberta do próprio corpo, em Recursos Humanos, o foco é o amor. Temos várias demonstrações, como o amor de uma mãe com o seu bebê, amor romântico e seus altos e baixos, amor proibido (besouro-do-amor e humana), amor entre amigos, ciúmes, e, principalmente, relacionamentos tóxicos. Para esse último temos a relação de Emmy, a besouro-do-amor, e Dante, um anjo do vício. Ela é apaixonada por ele, que não quer nada com ela além de sexo e a deixa iludida por algo a mais. Por comodismo, a garota aceita tudo que ele faz, mas acaba se magoando quando ele a deixa. Isso se reflete na sociedade, tendo em vista que muitas mulheres se conformam com o mínimo por medo de se sentirem sozinhas.

Porém, de tudo já apresentado até agora, a parte mais dura de toda a temporada, e que me arrancou algumas lágrimas, foi a história de Yara, uma senhora de idade, que está perto da morte. Seu filho, muito apaixonado pela mãe, tenta de tudo para fazê-la sentir-se bem, enquanto tenta ignorar o monstro Guto do Luto. Porém, não é algo muito esperto de se fazer, visto que o luto é um processo que deve ser sentido, para que não se acumule.


Algumas criaturas que fazem parte da “equipe” de Yara são demitidas, ou seja, alguns sentimentos começam a ir embora, como a ansiedade, ambição e mesmo o apetite, ficando só o besouro-do-amor. Essa situação demonstra como as pessoas mais velhas, no final da vida, vão perdendo vontades e preocupações, restando em si apenas amor e lembranças antigas. Os criadores levaram o tema de forma leve e emocionante, com menos sarcasmo e mais sentimentalismo. Com certeza meu episódio favorito.

Em resumo, foi uma estreia de série excelente, que trouxe assuntos importantes e relevantes socialmente, porém, sem deixar de lado aquele humor que amamos. A frase “não prometeu nada e entregou tudo” nunca fez tanto sentido – confesso que esperava o básico visto sempre em Big Mouth, mas fui surpreendida positivamente.




REFERÊNCIAS
"Recursos Humanos: animação derivada de Big Mouth chega à Netflix; conheça". RollingStone, 2022. Disponível em:<
https://rollingstone.uol.com.br/entretenimento/recursos-humanos-animacao-derivada-de-big-mouth-chega-hoje-netflix-conheca/ >. Acesso em 19/03/2022

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