26/03/2022 às 18h36min - Atualizada em 26/03/2022 às 18h26min

Por trás das grades

A rotina de desumanização dos presídios contada por quem viveu na pele

Jerusa Vieira - Editado por Andrieli Torres
Reprodução: THINKSTOCK

O barulho ensurdecedor se repetia constantemente durante o dia. À noite a mente fervilhava com a lembrança do som das grades abrindo e fechando. Os cochilos tirados no silêncio da madrugada eram despertados pelos pesadelos e pela incerteza do que poderia acontecer ao lado. Hoje, ex-presidiários. Mês passado, detentos do sistema prisional potiguar. Arnold Pereira (26) e Adeilson Alves (31), vivenciaram na pele a desumanização que se passa em um presídio, cercados pelo perigo e pelas humilhações constantes. Mas antes de conhecer como é o dia a dia de um presidiário, é necessário entender como esses personagens trabalhadores, pais e, atualmente, deslocados da criminalidade, chegaram atrás das grades.

Devendo sem saber

 

Por trás do balcão do caixa da distribuidora Caicó Frios, Arnold trabalha com dedicação como sempre fez durante os seis anos em que está empregado. Olhando para a rua ele vê policiais conversando com um outro funcionário algo que aparentava ser sério, diferente do que costumava ser quando os PM’s cumprimentavam alguns conhecidos empregados da empresa. Logo, ele é chamado e descobre o motivo da tensão. Um mandado de prisão, até então desconhecido, com uma pendência de dois anos e seis meses, por um caso que ele já havia cumprido pena em 2014, quando esteve preso por 6 meses. Nervoso e com o coração batendo forte, ele troca o uniforme por uma outra camisa, liga para o pai informando a situação e é dirigido ao porta-malas da viatura para uma jornada de humilhações.

À caminho da (gravação) prisão

 

No dorso da mão esquerda, a tatuagem de uma claquete, representando aquilo que é o seu trabalho há 5 anos. Foi justamente a caminho de exercer a profissão de videomaker que os próximos 20 dias de Adeilson seriam contornados por grades. O objetivo era produzir um videoclipe musical de rap. No carro estavam ele, quatro colegas e 60 gramas de maconha, até então desconhecidas pelo cinegrafista, que seriam usadas para consumo pessoal dos outros passageiros. Abordados pela polícia, todos apresentaram documentação e foram liberados, com exceção de Adeilson, que havia perdido os documentos em um assalto sofrido 45 dias antes do ocorrido. Foi levado a julgamento e mesmo informando que tinha o Boletim de Ocorrência para comprovar a falta da documentação, foi decretada sua prisão. 

Vidas cruzadas e a nova rotina

 

É na Unidade Prisional Cadeia Pública Dinorá Simas Lima Deodato, no pavilhão 3 e na cela 12, que essas duas histórias se cruzam e passam a compartilhar dias difíceis. Um espaço de, mais ou menos, 6 m X 3 m, com uma abertura, além da grade da frente, somente de um “briso” - pequeno comungou - que mostrava o outro pavilhão, onde conseguiam ver um pedaço do céu, a única coisa que ainda os conectava com um pouco do mundo externo. “Às vezes eu ficava olhando o céu. Aquele lugar é tão triste, não tem nem um passarinho. Todo dia eu ficava olhando, não aparecia um passarinho”, lembra Adeilson, após ter visto um beija-flor voando quase próximo ao chão no local onde acontecia esta entrevista. 

 

Já Arnold conta que uma das coisas que sentia saudade era de ver a chuva. “Me lembro que um dia antes de eu sair da cela para ser classificado - ir para o pavilhão dos trabalhadores -, eu tava em cima do sanitário olhando pelo ‘briso’, olhando o céu. Tinha um colega - ‘Las Vegas’ - que tava cantando uns hinos, ele sempre cantava pra mim e eu pra ele, uma música sobre José da bíblia e eu só me imaginava como ele (José). O comungou só serve pro cara ficar ‘batendo castelo na rua’ (pensando lá fora).” 

 

Na cadeia todos os dias são como anos; não há noção de tempo! Adeilson sempre acordava primeiro, de manhã muito cedo, no momento sagrado do silêncio matinal onde todos os outros tentavam descansar. Eles recebiam a primeira refeição do dia. Dois pães, um com manteiga e outro com mortadela, e um copo de café. Era o que tinha de melhor, pois o que vinha no resto do dia muitas vezes estava estragado. Segundo Arnold, quando estava no pavilhão dos trabalhadores, viu que o almoço (composto geralmente por feijão branco, arroz e fígado) sempre chegava às 10h na Unidade, porém só era entregue aos internos a partir de 12h, por isso ficava estragado. Ele também conta que via muitas quentinhas sobrando após toda a distribuição, porém cada detento só podia pegar uma unidade, com risco de ser punido, caso pegasse a mais. 

 

“O pagador - interno da cela dos trabalhadores, que distribui as refeições - quando vai entregar a comida coloca em um espaço pequeno que tem na cela, como se estivesse botando pra um cachorro, nem um cachorro é tratado assim, na verdade”, relata Adeilson e logo Arnold completa lembrando de um episódio: “quase todo dia era fígado. Nem os gatos queriam aquilo. Teve um dia que os gatos levantaram a tampa pra mexer nas quentinhas, olhou lá dentro e se deitou do lado depois que viu que era fígado e não comeu. O fígado era cru, (feito) só na água e borrachento.”

 

“A janta a gente chamava de ‘água quente’, porque era arroz cheio d'água, pirão de farinha com água, sem sal, o sal às vezes a gente pegava do sabão em pó. Prendia a respiração e botava pra dentro. Depois dois copos de água e dois dedos de pasta de dente (pra tirar o gosto)”, relata Adeilson e informa também que recebiam essa janta às 15h e só voltariam a se alimentar na manhã seguinte, e todos tinham cerca de meia hora para comer, pois os “pagadores” voltavam para recolher os recipientes. 
 

A água do banho era ligada três vezes ao dia. Ficava cerca de 20 minutos ligada, dando tempo de cada preso (na maior parte eram 26 com eles) usar entre 30 segundos a 1 minuto. Eles tentavam se organizar em uma fila e sempre ficavam agilizando o outro para finalizar logo e todos conseguirem tomar banho. Quando os agentes demoravam a ligar, os internos logo gritavam: “seu agente, a água aqui do pavilhão 3”. E no momento que eles bem entendessem liberavam a água do banheiro, que era um local um pouco mais descido na cela, com o sanitário e o chuveiro.

 

Eles também falaram sobre a superlotação que há nas celas. Houve um final de semana que chegou a ter 33 detentos no espaço onde estavam. Nesse dia, cada preso tentou descansar da forma como era possível. Dois de cócoras, um sentado num espaço pequeno em cima da caxanga - a pedra retangular usada para dormir -, onde colocam os produtos de higiene. Mesmo proibido, alguns tiveram que dormir no banheiro, pois não havia mais espaço.


Adeilson também fala que às vezes usavam o café como um espelho, pois eles sentiam falta até de se ver. Os recipientes de isopor, onde vinha o almoço, eram lavados, juntados e usados como travesseiro. Acrescentando sobre a convivência, os rapazes relatam que se comunicavam uns com os outros, muitas vezes, por LIBRAS. Os que já sabiam iam ensinando e eles sempre ficavam treinando.

Para matar o tempo cada um ia se virando como conseguiam, pois não havia nada que pudessem ocupar a mente. Uns faziam mágica, outros faziam a sobrancelha do colega com linha, alguns contavam piada. “
Você vê os caras lá descontraindo, mas você também vê a tristeza no rosto deles. Se fazem de durão por causa do crime, diz que não tão nem aí, mas no fundo no fundo eu ficava olhando e via o semblante deles. A galera não quer demonstrar”, relembra Adeilson.
  

Procedimento…

 

Ainda é manhã cedo e os detentos são despertados pelo barulho de tiros, bombas, grades batendo, os agentes gritando “Procedimento… procedimento…” e jogando spray de pimenta. Em questão de segundos, os internos se amontoam com rapidez se esbarrando uns nos outros, pois precisam colocar organizados todos os itens da cela na caxanga da frente e sentar de costas para a grade, sem encostar nela, em ordem alfabética e com as mãos na cabeça. O agente entra na cela 12 e grita para os presos completarem levantando a mão:

 

- Adeilson… 

- Alves Ferreira, senhooor! 

- Arnold…

- Pereira Rodrigues, senhooor!

 

E assim ele continua a chamada e verifica a cela. O Procedimento pode ocorrer quando agentes de saúde entram para aplicar a vacinação ou quando os policiais realizam vistoria no pavilhão. Pode durar horas, o dia inteiro, mas os detentos precisam ficar exatamente na mesma posição, caso levantem é levado para a chapa - cela menor, sem ventilação - ou recebem uma sindicância (advertência). Arnold conta que quase não aguentou de dor em um dia que ficaram horas fazendo o Procedimento: “eu já estava me tremendo, suando, passando mal, porque eu tenho crise de dor de coluna. Já estava a ponto de me levantar e eles iriam me colocar na chapa se eu fizesse isso.” 

 

Como foi o caso de um dos colegas de cela que se colocou em risco ao se espreguiçar e após o agente ver, perguntou o nome dele, encerrou o Procedimento e alguns minutos depois voltou para recolher o interno e levá-lo para a chapa. Segundo Adeilson, até o momento da permanência dele na cela, nunca mais o rapaz voltou.

A chapa é uma forma de punição. Uma cela bem menor que as outras, superlotada de internos, sem grades, somente com uma gaveta na frente para passar a quentinha.
“Pelo que soubemos, dos relatos lá dentro, a chapa é mais suja que uma pocilga de porco. Muita muriçoca. Às vezes você vai pra lá só de cueca”, relata Adeilson, e, acrescenta que geralmente o preso punido fica entre 15 a 20 dias nesse local.

Na doença

 

“Atenção, senhor policial penal, um minuto da sua atenção, por favor, tem um interno passando mal aqui, senhooor… na cela 12!”

 

E assim um detento ia gritando essa frase repetidas vezes na tentativa de que algum colega de cela fosse socorrido o mais rápido possível e levado para enfermaria. A realidade é que os agentes levavam horas para atender ao chamado, e às vezes respondiam com ironia: “quem mandou vim pra cá?”. Adeilson relata sobre um preso que estava tendo ataque epilético e ele precisou socorrê-lo. 

 

“Tinha um boy que tava passando mal e ia morrendo nos meus braços. Eu fiquei massageando o peito dele. Quando um interno tá passando mal todo o pavilhão fica em silêncio e a gente da cela fica remando, batalhando pro agente vim pegar ele”, Adeilson conta que os policiais demoraram e quando removeram o detento, colocaram-no no chão do corredor, em frente a cela onde ele já estava e foram embora. E o entrevistado acrescenta: “Se a gente soubesse tinha deixado ele dentro da cela mesmo, pois o cara ficou morrendo na nossa frente. A gente ficou irado, porque pelo menos a gente ia tá dando água a ele, dando massagem, falando com ele. Ele já tava revirando os olhos e encurvando a mão.” 

 

Ele lembrou também de um detento que tinha tuberculose e, constantemente, sofria com convulsões e cuspia sangue. Em um momento de crise ele acabou sendo socorrido somente no dia posterior, quando a crise forte já tinha passado. Trouxeram o remédio e até aliviou a convulsão por um tempo, mas o interno não recebia a medicação regular para controlar as crises e realizar o tratamento que a doença exige.

Desviar da saudade

 

Nos momentos que eles estavam juntos na mesma cela, tentavam apoiar e dar forças um ao outro. Presos durante um período em que ainda não podiam receber visitas da família, Adeilson lembra que uma vez não conteve as lágrimas ao lembrar de casa, Arnold viu e falou para ele “seja forte”. E essas duas palavras se tornaram como um mantra nos momentos difíceis. Um olhava para o outro e dizia “seja forte!”

 

Ambos têm família aqui fora. Filhos ainda criança. Trabalhos. Causas sociais que investem a vida. Motivos para terem saudade quando desprovidos da liberdade. Porém, trancados naquele local cada um tentava escapar desse sentimento, pois não havia previsão de voltar para a rua e todos os dias são eternos para eles. "O que faz você permanecer vivo lá dentro é você passar por tudo aquilo, mas pensa ‘vou resistir a isso, porque tem pessoas que amo lá fora’. Eu acabei fazendo uma estratégia que foi esquecer a família. Da minha filha, da minha mãe, da rua, porque você está arriscado a cair em depressão. Passei a viver um dia por vez”, relembra Adeilson. 

 

Arnold também seguia essa estratégia de tentar esquecer, mas cita os momentos em que usava a mente como válvula de escape para a saudade. "Eu me mantia com estas palavras na mente ‘tenho um sonho de poder voltar pra casa’, mais ou menos como na música Destino do Réu, do cantor Dexter. Porque eu tava lá, mas (até então) não sabia porque tava lá. Um dia me disseram esta frase ‘prenderam meu corpo, mas não prenderam minha mente’, então eu deitava e me imaginava num bocado de canto. Às vezes eu tava deitado e um lá me cutucava pra ver se eu tava acordado, achando que eu tava com depressão. Então eu só abria um olho e dizia ‘prenderam meu corpo, mas não prenderam minha mente’.”

Alvará de soltura e o retorno à sociedade

 

Sentado de frente para as grades de uma cela do pavilhão dos trabalhadores, onde ele ficou os últimos 23 dias encarcerado, Arnold estava só, pois todos os outros foram chamados para trabalhar. Então ele começa a orar e pedir a Deus uma resposta positiva no dia seguinte: “eu não aceito essa situação não, ou o Senhor é comigo ou não é e eu quero uma resposta positiva amanhã mesmo.” De madrugada ele acordou, orou novamente e voltou a deitar. 

 

No dia seguinte um agente penitenciário que tentava ajudar ele o chamou para trabalhar. “Ele fez uma chamada de vídeo pro meu pai, vi ele, minha mãe e meu filho. Aí ele me disse ‘aguenta mais dois dias aí que vai dar certo’. Dois dias depois me chamaram, achei que fosse pra trabalhar. Meu coração já ficou disparado, aí gritaram ‘é alvará, se ajeite aí’! Coloquei a camisa bem rápido, abracei os ‘cara’, e fui embora”, relembra Arnold do momento em que foi livre. Depois de 36 dias privados de liberdade, Arnold coloca o pé na estrada. Aguardou a visita - momento em que os familiares levam pertences aos detentos - que estava acontecendo terminar e conseguiu uma carona para voltar para casa. 

 

Adeilson ficou 20 dias atrás das grades e lembra que quando estava saindo do presídio, um policial lançou uma aposta com outros: “o agente disse ‘hora da aposta, esse aí eu dou uma semana pra voltar pra cá’. Olhei pra ele e falei ‘vou voltar pra cá não, porque aqui não é o meu lugar’.” Aqui fora, ele fala sobre o preconceito que muitas vezes enfrenta, principalmente por ser negro e pela sua aparência: “ eu ando muito em ambiente bom (de classe mais alta) pra fotografar, e tem gente que chega pra mim e diz ‘eu pensei que tu era mau elemento, mas te conhecendo tu é uma pessoa boa’. É com minhas atitudes que a pessoa vai quebrando o preconceito’. Quando a gente passa por um sistema prisional e você mostra o outro lado, de você mesmo, você consegue mostrar para as pessoas que ‘não, ele foi preso, mas olha quem ele realmente é’. Eu tento fazer isto hoje, mostrar quem eu sou de verdade.”

 

Ele também cita sobre a dificuldade de um ex-presidiário conseguir um trabalho fixo: “até pra conseguir emprego não tem como, porque eles puxam a ficha e não querem dar oportunidade. Só dá pra conseguir através de conhecimento dentro da empresa. Outra coisa que pesa pra mim é estudo. Logo cedo tive que parar de estudar pra trabalhar, porque minha mãe ficava mais feliz de ver um dinheiro na mesa do que uma nota boa no boletim, pois venho de família pobre.”

 

Arnold fala que aqui fora tem dois focos: “eu vou continuar meu trabalho, minha jornada. Eu sou um trabalhador, trabalho de dia na empresa e de noite como motoboy. Hoje eu me vejo assim: um trabalhador e a disposição de servir a Deus. Essa é minha vida hoje em dia: trabalhar e servir a Deus.” Isso porque ele atua voluntariamente em um grupo de uma igreja cristã que presta assistência a jovens entre 15 e 27 anos, oferecendo práticas esportivas, culturais, realizando ações sociais e cursos gratuitos. 

 

Ambos se encontraram aqui fora e resgatam da memória as lutas que enfrentaram. Hoje, contam até sorrindo, mas só quem esteve atrás das grades entende o que é viver as incertezas do dia de amanhã, o medo de prolongar a pena, as humilhações e xingamentos que ouviam, as dores, a saudade, a falta de humanidade e o receio das punições. Jovens, que até atuaram no crime há anos atrás, mas reconstruíram a vida e já com o caminho traçado, de trabalho e causas sociais, são levados à privação de liberdade sem consideração da justiça de quem eles são hoje. Colocados entre facções e perigos, num lugar onde estraga o homem, eles resistiram às mazelas e hoje continuam a escrever a vida como exemplo de superação e mudança.

 


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