31/03/2022 às 19h49min - Atualizada em 31/03/2022 às 20h48min

Refletir pra não chorar*

Coletânea de quadrinhos retrata os pesares do primeiro ano da Covid-19

Paulo Firmo - Editado por Fernanda Simplicio
Fonte: Skript Editora - Autoria de Luiza Lemos/Reprodução: Edição própria.
Após um longo período de gestação em função da pandemia, a HQ Crônicas de 2020, enviada às mãos dos apoiadores em fevereiro, já está disponível nas livrarias e lojas especializadas.  
 
Há pouco mais de um ano, em 28 de fevereiro de 2021, veiculamos a notícia intitulada A história (em quadrinhos) do ano que ainda não terminou. Àquela altura, quase completos um ano de pandemia do novo coronavírus, a previsão do envio da obra Crônicas de 2020 para os seus apoiadores – o quadrinho foi fruto de financiamento coletivo na plataforma Catarse implementado para editora Skript – era julho de 2021. No entanto, a Covid-19 impôs novos planejamentos e prazos.
 
Com pequenas mudanças gráficas em relação ao projeto original, a HQ começou a chegar às mãos dos seus apoiadores em meados de fevereiro deste ano. Atualmente está disponível para a compra na Comix Book Shop (na capital paulistana) e na Amazon. Com uma encadernação simples, porém bem construída e rica em detalhes, a coletânea oferece conforto gráfico/estético para o leitor se disponibilizar a absorver o conteúdo proposto: miolo composto por um papel pólen (aquele levemente amarelado e poroso que facilita a leitura) de consistente gramatura, encadernação bem estruturada e capas do tipo cartão, com ilustrações que tendem a atiçar a curiosidade do leitor.
 
 

O título, Crônicas de 2020, é um acerto. Segunda a Professora de Língua Portuguesa Ana Rita Uchôa, “a crônica é um texto curto, simples e os fatos ocorrem logo no início da narrativa.” Em sua videoaula O QUE É A CRÔNICA? (E as suas características), ela compartilha que o que mais gosta nesse gênero, é o fato dele ser capaz de reunir os acontecimentos do dia a dia e estabelecer, através da criação de uma narrativa, reflexões sobre algum conhecimento. De acordo com ela, “o interessante da crônica é que você pode ter vários tipos. Uma crônica que vai mais para o lado do humor ou que seja mais reflexiva, crítica, ou politizada, sentimentalista e assim por diante”. E é exatamente com essa vastidão de narrativas que o leitor irá se deparar ao ler a publicação. Como uma pequena diferença: ao invés de exclusivamente textos, trata-se de histórias em quadrinhos.
 
A coletânea organizada pela editora Skript, conta com 38 artistas e 36 histórias – naturalmente sendo duas delas elaboradas em duplas. Destes, três são de fato textos e um, alguns (e eu estou entre eles) podem considerá-lo enquanto uma “HQ-Poesia”. Fato é que todas elas, à sua maneira, com determinado foco, recursos e singular encaminhamento levantam reflexões a respeito dos dias pandêmicos que o mundo vive oficialmente desde o dia 11 de março de 2020 – data estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS).  
 
Em pouquíssimas páginas, tal qual preconiza a natureza de uma Crônica, escatologias, super-heróis, saúde mental, sexualidade, identidade de gênero, (bastante) política (naturalmente) e humor, entre outros temas, recheiam as páginas de Crônicas de 2020 apresentando um pouco como o novo coronavírus atingiu sob inúmeros aspectos pessoas com diferentes histórias de vida.  
 
Nesta coletânea, as histórias em quadrinhos (assim como os textos) – e, portanto, os artistas por detrás das obras – não se privam de se posicionarem diante do caos. Ao refletirem, apontam responsabilidades e os caminhos das dificuldades. Neste contexto, Alexandre Szolnoky, quadrinista e ilustrador de 42 anos, autor de Buda Boy (2019), é quem abre Crônicas 2020 com uma história, digamos, bem direta ao ponto. O título? “A Merda”. Uma extrapolação bem exagerada do incômodo que a realidade costuma lhe causar e que fora acentuado pela pandemia. Nas suas palavras: “Eu fico puto com a realidade do país e do mundo 24/7, então pra mim foi mais o prazer de fazer humor com isso do que qualquer outra coisa.”
 
Sob outra perspectiva do humor, o artista pernambucano de 37 anos, Tom Dutra, produtor constante de tirinhas (Tom Sobre Tom é a mais recente delas) internet afora, aposta grande parte das suas fichas em boas risadas. Sobre a pandemia diz ele: “’rir é o melhor remédio’, frase que cansamos de escutar, mas que às vezes não percebemos o quanto é verdadeira! Se eu sou obrigado a passar por uma situação crítica como essa, passar rindo é melhor do que chorando ou com raiva de tudo e de todos!” Ele costuma se retratar nas suas histórias em quadrinhos tiras. E, em Crônicas de 2020 não foi diferente. Sua contribuição, “Petiscos sem Riscos”, apesar de um pouco exagerada como ele mesmo explica, mostra muito dos seus próprios medos com a chegada da Covid-19.
 
 

Assim, rir, chorar, manifestar ansiedade, angústia, medo, estar pessimista ou ter esperança são comportamentos esperados para quem ler a coletânea. E que também viveu (e vive) a pandemia. Uma oportunidade para pensar, repensar e seguir em meio ao que muitos dizem ser “o ano que ainda não terminou”; 2020.
 
Com Crônicas de 2020, os leitores têm em mãos um material rico, complexo e diverso que mostra como a pandemia nos atingiu. Mergulhar nessa obra, agora pronta, parece ser um bálsamo de que tudo obedece a um clico. Ou seja, inclusive de que até o ruim terá um fim.  
 
*O título da reportagem é um trocadilho com o trecho “sorrir pra não chorar”, da música Preciso Me Encontrar, do cantor, compositor poeta e violonista carioca Cartola (1908-1980).
 
 
 
Referências
CRÔNICAS DE 2020 acabou de chegar!. Instagram. 10 fev. 2022. Disponível em: https://www.instagram.com/p/CZzjlFRlc1f/. Acesso em: 6 mar. 2022.
 
O QUE É A CRÔNICA? (E as características). Youtube. [s.d]. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=VxXobpHAR3Y&lc=UgxD25gd5pnOpXsNsk54AaABAg. Acesso em: 25 mar. 2022.
 
PENA, Felipe. Teoria do Jornalismo. 1. ed. São Paulo: Contexto, 2020. 236 p.
 

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