31/03/2022 às 16h28min - Atualizada em 31/03/2022 às 12h25min

A vez das minorias no Oscar

Premiação abre oportunidade, mas ainda tem longo caminho pela frente

Vinicius Lima Vieira - Revisado por Flavia Sousa
A atriz Hattie McDaniel foi a primeira atriz negra na história a ganhar um prêmio Oscar. (Foto: Getty Images/CNN).

Com 94 edições desde 1929, o Oscar é considerado o mais celebrado filme do cinema. Várias obras, cineastas e artistas já foram consagrados com o prêmio, um dos quatro mais importantes do mundo das artes, junto ao Grammy (música), Emmy (televisão) e Tony (teatro).

Apesar de celebrar o cinema, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pela premiação, ainda é considerada bastante antiquada e conservadora. Com acusações de racismo, pouquíssimos diretores e atores fora do meio branco e heterossexual conseguiram levar uma estatueta para casa. Vamos falar um pouco deles.
 


Mulheres na direção
 

Jane Campion é a terceira mulher a ganhar em Melhor Direção e a primeira a ser indicada duas vezes. (Foto: Getty Images/Revista Glamour).

Jane Campion é a terceira mulher a ganhar em Melhor Direção e a primeira a ser indicada duas vezes. (Foto: Getty Images/Revista Glamour).

Apenas três cineastas mulheres chegaram a vencer o Oscar de Melhor Direção. A primeira foi a estadunidense Kathryn Bigelow. Disputando contra James Cameron com Avatar, Bigelow foi a primeira mulher na história a ganhar na categoria com o filme Guerra ao Terror, de 2008. Na ocasião, o filme também venceu em Melhor Filme.

13 anos após a vitória história de Bigelow foi a vez de Chloé Zhao vencer o prêmio pelo filme Nomadland. O filme, assim como Guerra ao Terror, também venceu na categoria de Melhor Filme.

Na edição deste ano, Jane Campion se tornou a terceira mulher na história da premiação a vencer Melhor Direção, pelo filme Ataque dos Cães, uma produção da Netflix. A neozelandesa se consagrou também como a primeira diretora a ser indicada duas vezes ao prêmio da Academia.
 

Leia mais: Oscar 2022: Ataque dos Cães lidera com 11 nomeações

De Marlon Brando a Jodie Foster: LGBTs ocupam a premiação

 

Marlon Brando caracterizado como Vito Corleone para O Poderoso Chefão. (Foto: Paramount Pictures/New York Times).

Marlon Brando caracterizado como Vito Corleone para O Poderoso Chefão. (Foto: Paramount Pictures/New York Times).

O primeiro ator LGBT a vencer um Oscar foi Marlon Brando. Bissexual assumido, levou o prêmio de Melhor Ator por seu papel como Terry Malloy em O Sindicato de Ladrões, de 1954. Em 1972 o americano viria novamente a ganhar na mesma categoria por O Poderoso Chefão, no qual interpretou Vito Corleone. Entretanto ele recusou o papel como protesto contra o tratamento de indígenas no cinema. A atriz Scheen Littlefeather, atriz nativa-americana, subiu ao palco para representar o artista na ocasião.

A atriz Jodie Foster, que é abertamente lésbica, levou para casa a estatueta de Melhor Atriz duas vezes. A primeira vez, em 1989, por sua atuação em Acusados, e a segunda, em 1991, por seu papel como Clarice Starling em O Silêncio dos Inocentes.

 
Representatividade asiática
 

O elenco de Parasita com a estatueta de Melhor Filme. (Foto: Reuters/The Atlantic).

O elenco de Parasita com a estatueta de Melhor Filme. (Foto: Reuters/The Atlantic).


Em 2019, um filme ganhou bastante popularidade e, no ano seguinte, leva para casa o prêmio principal. Parasita, do cineasta sul-coreano Bong Joon-Ho, venceu Melhor Filme contra Coringa, de Todd Phillips, e O Irlandês, de Martin Scorsese. O filme se tornou o primeiro longa asiático a vencer na categoria.

A história trata a desigualdade social na Coreia do Sul, mais especificamente na capital Seul. Uma família vivendo na pobreza acaba vendo uma chance de subir de vida ao se “infiltrar” aos poucos na casa de uma mais abastada.

A obra de Bong Joon-Ho não foi a única a levar um troféu para casa. Em 2002, a animação A Viagem de Chihiro, de Hayao Miyazaki, venceu Melhor Animação. Em 2021, a cineasta Chloé Zhao ganhou em Melhor Direção, se tornando a primeira asiática e a segunda mulher na história a vencer na categoria.

 

Primeira mulher negra a ganhar um Oscar

 

Hattie McDaniel com sua placa de Melhor Atriz Coadjuvante. Naquele tempo, atores secundários não recebiam uma estatueta. (Foto: Getty Images/El País).

Hattie McDaniel com sua placa de Melhor Atriz Coadjuvante. Naquele tempo, atores secundários não recebiam uma estatueta. (Foto: Getty Images/El País).

Em 1945, Hattie McDaniel fazia história ao se tornar a primeira mulher negra a vencer um Oscar na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante. A norte-americana ganhou por sua atuação no filme “E o vento levou”, de 1940. Na época, os EUA ainda era um país bastante segregado, muito mais racista do que é hoje.

McDaniel também era lésbica e, segundo a mídia da época, fazia parte do chamado “círculo de costura”: uma maneira de se referir às atrizes homossexuais da época, o qual incluía, também, a nova-iorquina Tallulah Bankhead, primeira cotada ao papel de Scarlett O’Hara.

Outras atrizes também foram vencedoras do prêmio, como Whoopi Goldberg, Lupita Nyong’o e Viola Davis. Ao todo, apenas sete mulheres negras conquistaram uma estatueta da Academia, sendo uma delas a vencedora da categoria de Melhor Atriz: Halle Berry, por seu papel em “A Última Ceia”, de 2001.
 
Halle Berry: “Uma porta foi aberta foi esta noite”

 

A atriz Halle Berry foi a primeira mulher negra a vencer em Melhor Atriz. (Foto: Getty Images/Revista Monet).

A atriz Halle Berry foi a primeira mulher negra a vencer em Melhor Atriz. (Foto: Getty Images/Revista Monet).

Em 2002, Halle Berry se tornara a primeira mulher negra a ganhar na categoria de Melhor Atriz. A estadunidense estava competindo contra Renée Zellweger, Sissy Spacek, Judi Dench e Nicole Kidman. Na ocasião, a atriz não tinha esperança de ganhar o troféu por não ter vencido o Globo de Ouro “Antigamente se você não ganhava o Globo de Ouro, você não levaria o prêmio da Academia.”, disse em entrevista ao New York Times. “Então eu parei de acreditar. ‘É ótimo estar aqui, mas eu não vou ganhar”.

Em seu discurso de vitória, Berry havia dito que “cada mulher racializada sem nome e sem rosto agora tem uma chance, porque uma porta foi aberta”. Em sua entrevista ao jornal norte-americano, a atriz expressou decepção “Não abriu a porta. O fato de não haver ninguém ao meu lado [como vencedora do prêmio de Melhor Atriz] é de partir o coração”. A atriz continua sendo a única negra a ter vencido na categoria, mesmo 20 anos após sua vitória.
 

Discurso de vitória de Halle Berry no Oscar de 2002. (Reprodução: Oscars - Youtube).


Apesar de conquistas honráveis e históricas, o Oscar continua sendo uma premiação racista, homofóbica e misógina. Na categoria de Melhor Atriz, por exemplo, onde uma mulher negra ganhou uma vez, apenas atrizes brancas foram indicadas. Apesar disso, Kristen Stewart, indicada por seu papel no longa Spencer, é bissexual e atualmente está noiva da também atriz Dylan Meyer.

As poucas vitórias de minorias no maior prêmio do cinema é algo que tem se tornado mais notável, porém ainda pouco presente. Como disse a atriz Halle Berry “Nós não podemos sempre basear o sucesso e o progresso na quantidade de prêmios que possuímos”. Ainda assim, a celebração de trabalhos e artistas que não sejam brancos e heterossexuais é algo pela qual a bancada deve continuar buscando. Os tempos mudaram, mas minorias sempre existiram, e é importante dar voz e espaço para esses grupos.


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