02/05/2022 às 17h56min - Atualizada em 02/05/2022 às 17h25min

Resenha: DOIS CONTO - a continuação barata de DEZ CONTO

Filme criado pelo coletivo de cinema Tomada Periférica é exemplo de cinema independente, clássico e possível na periferia

Gustavo Oliveira - Revisado por Flavia Sousa
Parte do elenco do filme Dois Conto, de Tomada Periférica. (Foto: Reprodução)

Lançado no final do ano de 2021, o longa-metragem produzido pelo coletivo Tomada Periférica é uma continuação do curta Dez Conto e narra a história de Getúlio, um jovem da Vila Missionária que se envolve numa dívida de 2 reais. Entregando muita ação, drama, comédia e camadas de referências do pop que aproximam o espectador da obra, o filme, dirigido por Bruno Maciel e disponível no canal do coletivo no Youtube, conta com um fator especial que nos faz olhar para as periferias brasileiras como olhamos para Hollywood no cinema norte-americano.

Bem como sinalizado no início do filme, é recomendável assistir o curta Dez Conto 
(2020) antes de acompanhar a trama do longa. O curta vai apresentar um conflito ocasionado pela dívida de 10 reais, sem grandes precedentes, em que três traficantes devem a mesma quantia um para o outro. Com falas de Rei Leão, trilha sonora que replica o cinema clássico de Django Livre e O Poderoso Chefão, cenas de luta com um quê de filmes de herói e um set que aproxima tudo isso do verossímil, a obra dá o tom do segundo filme da produtora. Mas embora o curta adiante algumas impressões, assisti-lo não é imprescindível, uma vez que esse tom é retomado e reforçado nesta nova história.



Dois Conto nos cativa desde os primeiros minutos. A frase “em uma quebrada não tão distante...” e a fotografia tirada pela personagem Bárbara Xavier, irmã do protagonista, vivida pela atriz homônima, no começo do filme, situa e localiza a trama. A história se passa na Vila Missionária, na zona sul de São Paulo, e é capaz de envolver qualquer espectador que conheça a vida na favela. A presença de Bárbara no filme traz consigo uma carga emocional e dramática para Getúlio e é ponte para que possamos compreender a história do protagonista com base nos tantos problemas familiares causados pelo reflexo da ausência paterna.

Deixando o primeiro filme após uma briga que resultou tendo Getúlio, até certo momento, como único sobrevivente, agora o personagem de Gabriel Rodrigues passa a ser alvo do sensacionalismo da imprensa, enquanto é perseguido pelo padeiro Sr. França, vivido pelo diretor Bruno Maciel, com quem está envolvido numa nova dívida, dessa vez de 2 reais. Além disso, é procurado pelo policial Oliveira, personagem de Victor Brunetti, e seu cúmplice, um dos traficantes com quem lutou no final do curta-metragem. Para encontrarem Getúlio, acabam ultrapassando todos os limites necessários. A trama se movimenta de maneira dinâmica enquanto nos faz torcer por Getúlio a cada cena.



Da metade para o final do filme, Getúlio toma consciência das pessoas que Oliveira matou na busca por prendê-lo e finalmente temos o tão esperado conflito. O encontro de Getúlio e Oliveira carrega toda a tensão do filme, mas também nos leva para o início de Dez Conto, em que Getúlio e o capanga do policial lutam, de forma a transitar entre o cômico e o épico, e os efeitos reforçam propositalmente esse argumento.

O filme se encerra com um final digno de um plot twist hollywoodiano e com uma cena dramática de reencontro que encerra a trama com chave de ouro.
Com direito a panela mágica, que tem como referência o martelo de Thor, e cenas de lutas exageradamente coreografadas, o filme é construído de forma dinâmica capaz de prender quem assiste, transformando uma hora de duração em minutos. Além do reconhecimento garantido a espectadores que vivem na periferia, a obra é um exemplo de cinema independente possível e para além do documental. O trunfo da produção se torna a autoconsciência sob a qual o filme foi planejado e produzido. Beirando o caricato e o debochado, atravessando qualquer significado metafórico, o filme tem a vontade de ser um filme pop de super-herói, ação e drama, e com o auxílio da comédia se torna, de fato, tudo isso.

Veja o trailer:

Trailer oficial de DOIS CONTO - a continuação barata de DEZ CONTO. (Reprodução: Tomada Periférica - Youtube)



Leia mais em:
Resenha do filme Red: Crescer é uma Fera
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