04/05/2022 às 10h31min - Atualizada em 02/05/2022 às 18h16min

Bridgerton: representatividade e debates sociais abordados na série, mas não na literatura original

A narrativa, que se passa originalmente no século XIX, retrata, no audiovisual, relações e identidades distintas das tradicionalmente encontradas em produções sobre o período e o contexto monárquico.

Lívia Nogueira - Revisado por Jonathan Rosa
A personagem da rainha Charlotte foi uma das adaptações para a série Bridgerton. (Foto: Divulgação/ Netflix).

Produção original da Netflix, a série Bridgerton, de direção de Shonda Rhimes, é uma adaptação dos romances literários de Julia Quinn. As histórias retratadas nas obras datam do Período Regencial de Londres, quando matrimônios eram, em grande parte, tratados comerciais e acordos programados entre familiares dos noivos e havia uma preponderância de hierarquias patriarcais e tradicionalistas.

A série, em conformidade com as pautas em relevância no momento, aborda essas relações e personalidades em perspectivas mais modernas, tanto em sua formação de intérpretes, quanto na construção das narrativas. Porém, nem sempre as iniciativas demonstram surgir de reais preocupações sociais.

A primeira grande discussão social que surge apenas na produção audiovisual é a presença de personagens não brancos, que compõem a narrativa precipuamente em posições de poder e autoridade. Uma das figuras de destaque nesse sentido é a rainha Charlotte, representada pela atriz Golda Rosheuvel, que integra o elenco apenas da série. O papel retrata a presença de uma mulher negra na posição de maior poder na região em todos os sentidos.
 

No período da série Bridgerton, início do séc. XIX, havia cerca de 20 mil pessoas de origem africana vivendo na Inglaterra e nem todas elas estavam em situação de escravidão. O que aconteceu é que a partir do século XIX ocorreu um processo de embranquecimento da história oficial por conta do desenvolvimento do racismo científico, que associou pessoas negras à inferioridade. Isso fez com que pensássemos que havia apenas ricos brancos na Inglaterra do séc. XIX, o que de forma alguma foi verdade. Bridgerton consegue aproximar essa realidade de diversidade étnica racial”, é o que declara o historiador e mestrando em História Social da África, Guilherme Oliveira da Silva

Há indícios históricos, como os apontados pelo pesquisador, da integração de linhagens africanas na estrutura da sociedade inglesa. Nesse sentido, apesar de ser evidente que Bridgerton atenuou o processo de ascensão de pessoas não brancas a posições de poder e prestígio, a autora projeta uma realidade na qual seria possível que as construções e as transformações sociais fossem narradas e protagonizadas por figuras diferentes das tradicionalmente representadas nos registros ficcionais e também nos reais. Inclusive, na segunda temporada da série, foram integradas personagens protagonistas de origem asiática, que também agregaram aspectos ligados a isso em suas narrativas.


Assim, para além da transformação cultural e artística que a série propõe ao adotar essas modificações, a perspectiva da autora como mulher negra que se apropria dessas questões em muitas de suas obras projeta a quebra de paradigmas históricos, sociais e inter-relacionais. Essa ótica se relaciona com as ideologias tratadas em estudos decoloniais, que visam o rompimento dessas narrativas tradicionalistas, que, evidentemente, estão bastante presentes nas obras literárias de Bridgerton.

LEIA MAIS: Representatividade e protagonismo negro no cinema

Retomando a problematização acerca da romantização e da relativização das vivências de pessoas não brancas em estruturas sociais como as retratadas, principalmente quando atingem posições de poder, a série dividiu opiniões na construção do romance entre Daphne (Phoebe Dynevor) e o duque de Hastings, Simon (Regé-Jean Page). Isso porque, para além da narrativa clichê de indivíduos que são opostos e não possuem boa relação e, ao fim, tornam-se um casal romântico, em certo momento da obra, há uma hiperssexualização do personagem do duque, um homem negro, que casa-se com uma mulher branca.

Bridgerton | Trailer Oficial | Netflix. (Reprodução: Netflix - Youtube)


A objetificação do corpo negro, pautada na condição de Simon em seu casamento, fica evidente em muitas cenas da primeira temporada da série e acabou por inverter as considerações sobre representatividade em Bridgerton. Há, nesse sentido, uma reprodução de estereótipos sobre relações interraciais.

Outra adaptação percebida para o produto na plataforma da Netflix é a inserção de discussões sobre gênero como prioridade em diversos contextos da série. A principal referência dessa modificação foi a personagem Eloise Bridgerton, representada pela atriz Claudia Jessie. A figura protagoniza a introdução de diversas questões de desigualdade de gênero na construção social da época, as quais referem-se desde debates sobre casamento como obrigação e “acordo” até as vestimentas e acessórios femininos tradicionais. A personagem é, na maior parte do tempo, aclamada pelo público de Bridgerton.

Os espectadores, agitados pela representatividade incorporada na série, prospectam narrativas de indivíduos LGBTQIA+ e outras perspectivas sociais para além das tradicionais para as próximas temporadas da obra. 

Apesar de dividir opiniões entre o público que defende a fidelidade às histórias originais e os que exaltam a total adaptação do roteiro, Bridgerton segue sendo uma das séries mais assistidas da atualidade e um de seus pontos fortes é a representatividade de corpos não-tradicionais e a abordagem de problemáticas sociais. A lacuna de sentido segue sendo as motivações da produção na inserção dessas narrativas. Preocupação social? Satisfação dos diferentes espectadores? A temporada três já foi confirmada pela Netflix.

Bridgerton | Temporada 2 | Trailer Oficial | Netflix. (Reprodução: Netflix - Youtube)


 

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