27/05/2022 às 22h40min - Atualizada em 27/05/2022 às 18h20min

O que Elena Ferrante nos ensinou sobre "ser mulher"

Como a escrita de Ferrante se tornou a representação fiel da realidade de milhares de mulheres pelo mundo

Ana Luíza Lima - Editado por Larissa Bispo
Reprodução: Google

A obra de Elena Ferrante ‘Dias de Abandono’ nos traz à tona, de forma intimista, a busca identitária de ser mulher em meio à vida doméstica e matrimonial. Essa reflexão reverbera não apenas no campo literário, mas dentro do atual contexto dos diálogos e lutas que as mulheres se encontram. Além disso, apesar de se tornar uma leitura desconfortável em muitos aspectos, alguns questionamentos em torno do abandono e da solidão feminina se fazem presentes na realidade em que vivemos.

 

A personagem principal da narrativa, Olga, nas primeiras linhas do livro é informada por seu marido sobre uma possível separação: “Uma tarde de abril, logo após o almoço, meu marido me comunicou que queria me deixar.” Após quinze anos de relacionamento, logo depois de uma traição, ela é inserida diretamente a um drama psicológico para se restabelecer novamente não apenas como mãe, mas principalmente como mulher. A ruptura que Olga presencia com fim de seu casamento lhe faz duvidar de sua própria lucidez e integridade e do quanto abdicou-se de si mesma para o bem estar de seu marido. 

 

Ao ser abandonada, a protagonista precisa lidar com as dificuldades de continuar a cuidar dos dois filhos, mas agora sozinha. Sua trajetória é semelhante a uma realidade não muito distante da que muitas mulheres estão inseridas diretamente. A idealização da maternidade que definitivamente não se concretiza nas camadas sociais onde muitas dessas mães fazem parte. 

 

De acordo com Magda Zurba, pesquisadora do Departamentos de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em entrevista concedida ao Diário Catarinense, "existe um mito romântico da maternidade que não leva em conta os desafios [...] Isso inclui a perda de projetos e profissionais sobre os outros, a mulher muitas vezes não tem coragem de falar, porque a sociedade criminaliza. É a elaboração de uma perda como outra qualquer – avalia".

 

Ao longo da narrativa, muitos comportamentos de Olga são interpretados como equívocos. Sua instabilidade emocional e fragilidade psíquica são o suficiente para que ela se "exceda", para que ela perca a imagem da mulher sutil, elegante e calma. Características essas que a personagem reconhece como suas por base na sua experiência como esposa de Mário, o homem que a abandonou por uma mulher mais jovem, sem filhos e bem vista socialmente. 

 

A idealização que há por trás do matrimônio, maternidade e vida doméstica põe não apenas a personagem, mas a figura da mulher como extensão de seus filhos e marido. A vida e escrita, que tem grande importância em sua trajetória, como relatam alguns trechos da história, são abandonados a partir do momento em que Olga precisava ser interessante, disponível e excelente em suas "funções". Segundo ela, "quando você não sabe segurar um homem perde tudo, relatos femininos de fins de caso, o que acontece quando, plena de amor, você não é mais amada, é deixada sem nada".

 

No entanto, Ferrante é perspicaz ao trazer para a protagonista a importância de retomar a própria vida, de renascer mesmo após o descaso do ex-marido, pai de seus filhos. E não há uma fórmula mágica que vá servir de entretenimento dentro da narrativa; a ideia da personagem retomar aos poucos toda a realidade só seu redor vai acontecendo aos poucos. Olga retoma o trabalho, as leituras, a escrita, o cuidado com os filhos, que são distanciados pelo pai novamente. 

 

Conforme a história vai sendo finalizada, alguns pontos vão sendo traçados sutilmente sobre a evolução da personagem e é dessa realidade que muitas mulheres fazem parte. Uma luta que é individual, mas por via das dúvidas se diz coletiva atualmente. É trazer questionamentos sobre o porquê dessas mulheres enfrentarem e carregarem a maternidade, o casamento e a vida doméstica como um fardo, e o porquê dessa idealização em torno dos pontos em questão.

 

Dentro dessa perspectiva, leituras como a do livro "Dias de abandono" são essenciais para que enxerguem dentro e fora das perspectivas literárias o que é ser mulher e mãe, como lidar com as dores e a solidão de precisar se reencontrar em meio ao caos. Entretanto, é também existir, como diz Olga: "Existir é isso, pensei, um sobressalto de alegria, uma pontada de dor, um prazer intenso, veias que pulsam sob a pele, não há mais nada de verdadeiro para contar”.


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