03/06/2022 às 09h59min - Atualizada em 03/06/2022 às 09h53min

Cansaço social pós-pandemia

Como a quarenta ocasionou um estado de angústia coletivo e afetou a interação social entre as pessoas

Ana Luíza Lima - Editado por Larissa Bispo
Reprodução Google/Freepik
 

O ano de 2022 se inicia e progride com a esperança de uma realidade distante das sequelas que a COVID-19 causou. Uma esperança vaga, mas que voltou a crescer conforme as atividades, antes consideradas de risco, voltaram a acontecer na sua totalidade de forma presencial. As mudanças que nos impactaram não atingiram apenas níveis econômicos e na área da saúde, mas também a questão da saúde mental, as mudanças em nossas relações pessoais e, principalmente, nossa disposição em manter esse vínculo social. 

 

O fenômeno do cansaço social é um pouco mais complexo do que aparenta ser, principalmente quando levamos em consideração os impactos da quarentena. Além de ter criado a sensação de pânico generalizado, ela carrega consigo efeitos decorrentes do desespero que o vírus nos causou. Entre alguns dos principais aspectos, tornou-se frequente os relatos de pessoas que foram afetadas pela apatia, distúrbios que podem afetar o sono e a alimentação, a ansiedade generalizada, fobia social e entre outras. 

 

Dentre essa perspectiva, do cansaço de socializar ter se naturalizado em um período pós-pandêmico, a psicóloga Hannah Alves, especialista em saúde mental e políticas públicas, manifesta que sabemos que "o 'fenômeno' da fobia social não é algo novo que surgiu com a pandemia, mas que se acentuou". 

 

Sendo assim, de que forma essas questões podem afetar as pessoas futuramente? "Nós ficamos muito tempo isolados e muitas pessoas desaprenderam a socializar, ou simplesmente não tem mais paciência. A boa notícia é que isso pode mudar à medida que a pessoa for socializando novamente. O  processo de interação social é de extrema importância pra nossa saúde mental. Então, quem tem fobia social precisa procurar ajuda profissional urgentemente", reitera a psicóloga. 

 

Se levarmos a discussão para outras esferas, o fenômeno se tornou global. O autor coreano Byung-Chul Han explica em seu livro "A Sociedade do Cansaço" a consequência dessa fadiga "como uma doença que aflige a sociedade neoliberal das realizações". Dessa forma, "Do ponto de vista patológico, o incipiente século XXI não é determinado nem por bactérias nem por vírus, mas por neurônios. Doenças neurológicas como depressão, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), transtorno de personalidade limítrofe (TPL/Borderline) e síndrome de burnout (esgotamento) marcam o panorama da patologia no início do século XXI".

 

Mas para outros contextos, a retomada das aulas foi um grande marco para que essas problemáticas ganhassem destaque no cenário educacional. Alunos dispersos, professores exaustos, muita das vezes com uma carga horária maior do que a permitida e ministrando mais de uma disciplina, pessoas exaustas de precisarem retomar os laços sociais que a quarentena rompeu. 

 

Para Pedro Ribas, estudante de TI, sua primeira aula presencial foi alvo de sua falta de vontade de precisar comparecer à ela. "Eu senti um desânimo de precisar enfrentar um grupo de pessoas de novo, um grupo grande, ter que socializar e ter que montar todo um círculo social novo". Fazer parte dessa realidade já se torna assustador para algumas pessoas que se encontram em dificuldade para interagir socialmente, mas para quem vê a fobia como uma realidade distante, Pedro afirma que a sensação é de estranheza. "Isso é uma coisa que choca muito, pois eu não estava esperando, eu acreditava que seria apenas comigo, é estranho falar assim porque ter medo de socializar  não é algo 'normal'".

 

Em contrapartida, temos como impacto positivo da quarentena, uma maior busca pela terapia, principalmente online. A possibilidade de buscar tratamento psicológico se torna uma alternativa para enfrentar as diversas sequelas que esse período ocasionou. Entrentanto, para que se facilite a busca por ajuda, a psicóloga Hannah manisfesta ser necessário um período de observação "Quem era a pessoa antes do isolamento e agora? O nível de sociabilidade continua o mesmo? Surgiu algum tipo de ansiedade ao sair e se relacionar com pessoas?Todos esses são indícios de algo pode estar errado".

 

Logo, essas mudanças podem ser buscadas conforme as pessoas notarem essa fobia/ansiedade social em sua rotina, durante esses períodos de maior socialização. Algumas dicas da psicóloga é buscar "ajuda profissional e gradativamente, ir voltando a interagir. Essas pessoas que sofrem dessa apatia social precisam insistir em socializar para que o cérebro compreenda a importância disso também". 


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