27/06/2022 às 11h53min - Atualizada em 10/06/2022 às 16h39min

Mulheres que amam mulheres: resistência LGBT nos livros de Cris Soares

Conheça Cristiane Soares, autora independente, nordestina e alguém que vive o que escreve (literalmente)

Por Gabryele Martins e Nathália Aguiar - Revisado por Andrieli Torres
Cris Soares - Foto: Gabryele Martins e Nathália Aguiar

Cris é dona de um sorriso largo e fácil, daqueles que te fazem sorrir junto sem notar. Seu tom de voz é alegre e dita um ritmo descontraído à entrevista, fazendo-a parecer uma conversa na calçada de casa no fim de tarde. No seu quarto, sentada em sua cama, a escritora nos conta a trama de mais um dos seus livros: o da sua vida. Cristiane Soares da Silva, 36 anos, natural de Pedreiras-MA e criada em Fortaleza-CE.

Cris tem duas mães: uma biológica, outra, do coração e de criação. Dona Regina, que lhe deu a vida, não pôde contar com o suporte do progenitor e não conseguiu criar a filha enquanto trabalhava para sustentá-las. Por isso, aos dois anos, Cris foi morar em Fortaleza com a Dona Eneci, sua tia-avó, que também criou Regina, e com o falecido João Batista, marido de Eneci, que ocupou o cargo de pai na vida de Cristiane. Com eles, morou até os 14 anos, voltando a morar com Regina quando ela conseguiu ir para Fortaleza.

Cris parece organizar as lembranças da sua vida em torno de um rol de relacionamentos e livros; sua entrada no mercado literário, logo, não podia ser diferente: 'Do Fim ao Começo', sua primeira obra, nasceu de uma desilusão amorosa. Apesar de sempre ter gostado de escrever, ser escritora parecia uma realidade utópica para a maranhense, até que em meados de 2017 um término de namoro inesperado mudou o rumo da nordestina.

Devastada, passou a escrever outras versões e finais para o que houve. "Essas pessoas mereciam um final melhor do que o que aconteceu com elas de fato", apontou. Pela forma de desabafo que começou o livro, a autora não possui uma boa relação com ele. Dayana, protagonista da história que a colocou no mercado, é outra versão da Cristiane e tudo o que a personagem passou, todos os seus ciclos de dependência emocional e insegurança, foram vividos fora da ficção, o que a relembra de uma parte desgastante da sua vida. Hoje, Do Fim ao Começo não está mais à venda.

Depois disso, outras histórias tomaram conta da mente dela e novos personagens surgiram. A partir daí, a autora escreveu mais 3 livros e 6 antologias; a realidade deu as mãos a utopia e a Cristiane, e elas nunca mais se soltaram. Apesar disso, a autora diariamente se questiona se deve continuar escrevendo ou não.

Além de ter que batalhar por um espaço, ainda preciso batalhar contra a sensação de insuficiência e de que não sou boa o bastante.

Vale destacar que Cristiane lançou todos os seus livros, com exceção de Do Fim ao Começo, de forma independente. Ela ressalta que autores de obras independentes sofrem com a falta de visibilidade e com ideias preconcebidas dos leitores e revela como isso impacta o reconhecimento de seu trabalho.

A maioria dos leitores não imagina, mas o processo de publicação é o mesmo estando ou não numa grande editora e ignoram (ou desconhecem) que é possível tanto achar boas obras independentes quanto livros ruins de editoras. “Muitas vezes os mesmos profissionais que fazem editoração do livro independente fazem para editoras. A diferença é que não tem o selo da editora na capa”, destaca.

Além dos desafios da publicação, os autores nacionais precisam lidar com problemas como a desvalorização do mercado editorial brasileiro e a grande quantidade de pirataria dos volumes nacionais. Quando indagada sobre como lida com essas questões, Cris foi enfática ao dizer “Eu não lido” e revelou que muitas vezes isso a fez pensar em desistir, mas que está em processo para aprender a lidar com essas situações.

Somadas às questões anteriores, Cris acredita que seus livros também seriam mais lidos se fossem romances heterossexuais, o que agradaria os leitores mais conservadores e vai além quando diz que mesmo na literatura LGBTQIA+, se fossem aquilianos (homem/homem) ao invés de sáficos (mulher/mulher) teriam maior apelo, retratando como as relações de gênero são relevantes para a análise da escrita literária. Apesar disso, a autora não se mostra aberta a trocar a sexualidade de seus personagens para obter mais alcance.

Cris têm ligações emocionais muito fortes com suas obras e todas são muito pessoais e poderosas. Muitas delas, inclusive, abordam aspectos de sua própria vida e relacionamentos. Em “Deu Match”, ela conta a trama da vida de dois casais: na ficção, Lia e Júlia; na realidade, Cristiane e Daiana.

Sim, neste livro está a história de como Cris e sua atual namorada se conheceram e se apaixonaram! Por isso, esse é um dos seus livros preferidos, feito como um presente para Daiana. “A gente deu match”, diz a autora, fazendo alusão ao nome do seu livro e a sua história de amor que dura há mais de 4 anos.

Ironicamente ou não, 'Deu Match' é um dos seus livros mais criticados. Tanto pelo romance ter acontecido, segundo os leitores, “rápido demais”, quanto pelas inseguranças de Lia, a personagem principal, uma representação dessa autora de tantas faces. “Só quem é insegura e passou por um relacionamento abusivo sabe como é ter essa sensação o tempo todo”, revelou.

Por todas as críticas e pela pressão, a autora passou por um bloqueio criativo durante um grande tempo, mas ainda acredita que as pessoas vão conseguir diferenciar o que é um personagem de quem escreveu.
Eu escrevo com as minhas vivências e experiências e quem está lendo vai ler com as delas! Uma coisa que para mim é normal e suave, para outra pessoa pode chocar e gerar um gatilho.
 
Apesar de ter um carinho especial pelo livro originado da sua história com Dai, "Tudo sobre nós" é a obra que faz a autora ter fé no reconhecimento futuro. Foi o segundo livro que ela escreveu e veio como afirmação de que ela conseguiria escrever algo além de desabafos pessoais, como é o caso de "Do Fim ao Começo". Nele, são tratados tópicos importantes como a homofobia e a aceitação.

Eu queria quebrar essa imagem de que livros LGBTs precisam ser o tempo todo sobre dramas e preconceitos e mostrar que nós merecemos e devemos ter um final feliz como em qualquer outra história.

Romântica incorrigível como toda boa pisciana, ela cultivou a ideia de que pessoas se envolvem e se apaixonam por pessoas, independente do gênero. Aos 20 e poucos anos, quando conheceu sua ex namorada, que futuramente traria mecanismos de inspiração literária, também saiu de vez do relacionamento abusivo que vivia, quando foi casada com um homem por 6 anos. 

Hoje, Cristiane trabalha como Analista Administrativa em uma empresa de terceirização de mão de obra, mas sonha um dia conseguir se manter com a venda dos seus livros, sem precisar de um trabalho paralelo à escrita.

Ao ser questionada sobre o que a torna a pessoa que é, ela explana: "Não sou uma pessoa de fases, eu sou eu o tempo, mas estou sempre em processo para me descobrir melhor! Tenho aprendido muito como escritora e como pessoa, os livros que eu escrevo me dão essa oportunidade. Sou alguém que tenta tornar a vida melhor dentro daquilo que acredito em relação a mim e ao próximo. Acho que é uma definição que não muda no decorrer dos anos", conclui.
 

 

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