14/06/2022 às 19h52min - Atualizada em 12/06/2022 às 18h22min

A aceleração do entretenimento: por que as músicas estão ficando cada vez mais curtas

Geração atual demanda canções mais curtas e objetivas, porém especialistas alertam para as possíveis consequências neurológicas

Thayzuki Santos - editado por Larissa Nunes
Consumo de música via streaming teve forte aumento nos últimos anos. (Foto: Reprodução / Unsplash - Crédito: fhavlik)

Os números não mentem: o acesso a plataformas de streaming cresceu de forma surpreendente nos últimos anos. O início dessa década, marcado pela necessidade de isolamento social em virtude da pandemia do novo coronavírus, viu o aumento expressivo no índice de usuários em plataformas como o Spotify, um dos principais serviços de streaming musical. Em paralelo, as redes sociais também experimentaram o mesmo boom, com destaque para o Instagram e o TikTok.

 

Esse fenômeno colaborou para a criação de novas tendências de consumo no ramo do entretenimento, uma vez que as redes sociais têm investido em constantes atualizações para reter a atenção do usuário no feed – isso justifica a presença de conteúdos cada vez mais curtos e objetivos. Um dos tipos de conteúdo que mais “viralizou” nas redes nos últimos tempos são os dance challenges ou (“vídeos de dancinha”), onde os usuários reproduzem uma coreografia a partir de um trecho específico de uma determinada música.

 

TikTok: app chinês foi o mais baixado durante o primeiro ano da pandemia.

TikTok: app chinês foi o mais baixado durante o primeiro ano da pandemia.

(Foto: Reprodução / Freepik)

 

A rapidez com a qual esses vídeos se multiplicam pelas plataformas contribui para o engajamento das obras desses artistas, impulsionando músicas para o topo das paradas nacionais e até mesmo mundiais – a partir de uma coreografia chamada El paso de Anitta, que conta com mais de 125 milhões de visualizações no TikTok na conta oficial da cantora, a canção Envolver atingiu a primeira posição do Spotify Global, com mais de 6 milhões de reproduções em um único dia. Na lista das 50 músicas mais tocadas no Spotify Brasil na primeira semana de junho, 37 têm o tempo total de duração inferior a 3 minutos – cerca de 74% do ranking.
 

O sucesso comercial obtido com o TikTok levou as gravadoras a adotarem os challenges como principal método de divulgação dos lançamentos musicais de seus artistas. Surge, então, uma nova dinâmica na indústria musical contemporânea, onde as produções são voltadas para canções mais curtas, com letras e melodias repetitivas, e que tenham grandes chances de se tornarem um hit viral. Por um lado, se o encurtamento das músicas traz bons resultados para as produtoras, sociologicamente falando, essa mudança no consumo de entretenimento pode representar um risco para as futuras gerações.

 

Especialistas em saúde mental sinalizam os principais efeitos neurológicos atrelados à nova dinâmica de consumo

 

A pandemia de COVID-19 potencializou o aumento das taxas de ansiedade e depressão em todo o mundo. De acordo com o levantamento feito pela OMS (Organização Mundial de Saúde), apenas no primeiro ano de pandemia, estes índices cresceram cerca de 25%. O isolamento social, a perda de entes queridos e o medo diante da possibilidade de contágio fomentaram nas pessoas a necessidade de se distraírem da realidade, a partir disso, as redes sociais passaram a servir como ponto de refúgio.

 

Estudo da OMS revela que jovens e mulheres são os mais atingidos.

Estudo da OMS revela que jovens e mulheres são os mais atingidos.

(Foto: Reprodução / People Imagens)

 

Entretanto, não é correto afirmar que essa estratégia é totalmente benéfica. De acordo com a Dr.ª Patrícia Souza, neuropsicóloga especialista em ansiedade, “a princípio, as pessoas utilizam as redes sociais para ocuparem a mente, mas acabam por viciá-la em algo, muitas vezes, vazio. Isso aumenta os sentimentos de ansiedade e depressão, pois a Internet é apenas 1% do que a pessoa mostra, e parte do público que consome seu conteúdo pode adoecer por conta das auto comparações”, diz a especialista.

 

Além disso, Souza afirma que o consumo em massa de conteúdos curtos – os famosos “virais”, com duração média de até 60 segundos – contribui para esse aumento, pois “é um comportamento que se torna nocivo devido à quantidade de tempo que a pessoa se expõe às telas”. Analisando a questão pelo ponto de vista do criador de conteúdo, a Dr.ª Patrícia Gaspar Mello, Mestre em Cognição Humana e pesquisadora com foco em trauma e estresse, diz que “coisas instantâneas e excessos têm potenciais de valências positivas e negativas. Ficar famoso por um vídeo de 30 segundos pode causar uma enorme euforia e senso de grandeza, da mesma forma que pode levar justamente ao contrário, fazendo a pessoa ficar triste, ansiosa e com a sensação de fracasso. Quando você posta algo seu para o mundo, está sujeito a tudo. Em geral, a expectativa é positiva, mas o resultado pode não ser.”

 

Este novo padrão de comportamento de consumo acompanha consequências neurológicas que, segundo as especialistas, pode trazer riscos para as próximas gerações. “O maior prejuízo é o foco, a distração, até mesmo o vício”, relata Souza. “Nosso cérebro é como um músculo: precisa ser treinado para aprender e melhorar a qualidade da concentração, e tudo isso a Internet de certa forma atrapalha.”

 

Já Mello cita o termo “dependência tecnológica” e explica de forma detalhada como se dá esse processo. “No núcleo accumbens, centro de prazer do cérebro, circula a dopamina, substância associada a euforia e excitação. É na interação entre dopamina e nucleo accumbens que agem as principais drogas de abuso, por exemplo. E nós sabemos o que o ser humano faz quando sente prazer: quer mais e mais, causando dependência. Algo semelhante acontece no consumo, pode ser comprando coisas, assistindo vídeos, postando fotos, até mesmo estar frequentemente conectado. Ao longo do tempo, o excesso de ativação dopamina-nucleo accumbens gera uma dessensibilização, ou seja, quanto mais você consome, menos percebe a sensação maravilhosa que sentiu nas primeiras vezes, e mais precisa consumir para obter algo parecido – e nunca igual – ao efeito inicial. À medida que isso ocorre, o cérebro se adapta, e do ponto de vista evolutivo, se modifica e repassa para as próximas gerações.”

 

A tendência da indústria, todavia, é encurtar ainda mais as músicas. Atrelado a isso, o investimento na produção de álbuns tende a cair, pois acredita-se que atualmente é mais fácil atrair a atenção do público para singles avulsos, lançados de forma esporádica, do que para um disco inteiro. É claro que a regra não se aplica a todos. O álbum 30, da cantora britânica Adele, possui faixas que ultrapassam a marca dos 6 minutos de duração e se consagrou como o álbum mais vendido de 2021. No entanto, as últimas pesquisas realizadas pelas principais plataformas de streaming afirmam que a geração de hoje não escuta músicas com mais de 2 minutos e 30 segundos.

 

Por isso, Souza e Mello alertam a geração atual para a necessidade de reavaliação das formas de consumo. Souza atenta os pais de primeira viagem para os perigos da exposição às telas, principalmente a do celular, nas crianças. Mello destaca a importância do equilíbrio na dedicação de tempo e energia que as pessoas dão a suas atividades, e sugere um exercício de autorreflexão a respeito da realização pessoal e na construção de vínculos.

 


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