05/07/2019 às 20h31min - Atualizada em 05/07/2019 às 20h31min

São João em Pernambuco: uma viagem na cultura local

Tradição junina percorre gerações e marca a cultura do Nordeste

Maria Clara Monteiro - Cultural
Basto Peroba, Pedro Bastos, Jackelyne Marques, Emília Soares, Mônica Peroba e Luccas Rodrigues
Quadrilha Luar do Sertão, atuante em Bom Conselho, interior de Pernambuco, movimenta a quadra junina do local. (Foto: Emília Soares)
O São João, comemorado no dia 24 de junho, carrega a marca da cultura nordestina. É uma tradição que foi trazida pelos europeus, ainda no tempo da colônia, mas que teve alterações feitas pelos indígenas e pelos africanos. Dessa forma, tornou-se a época de agradecimento ao santo pelo resultado da agricultura. Por isso, o milho tem papel fundamental. É responsável pelas comidas típicas que abrilhantam a mesa junina, tais como a canjica, a pamonha e o próprio milho, assado ou cozido. Toda a região nordestina ganha um enfoque nesse período, por ser a festividade que mais os representa.

O aposentado Pedro Bastos, 68, viu na arte a possibilidade de se expor. Atualmente poeta, escritor, músico e compositor, relembra como comemorava o São João. "Até o meio dos anos 80 era totalmente diferente do atual. Quando começava o mês de Junho, você só ouvia os rádios tocando forró nordestino, o pé de serra". Ele complementa com a sua experiência da juventude. "[Eu] dançava a noite todinha no rádio. Juntava os colegas e brincava a noite inteira. Era um forró atrás do outro. [...] Era uma coisa formidável".


Pedro compôs um CD com 10 músicas, sendo 5 dedicadas ao forró. É autor das composições que levam o título de "Uma canção para você", "Retrato do sertão", "São João no agreste", "Noite de São João" e "O baião sem o rei". Esta última, homenageia o grande Luiz Gonzaga, que faleceu há 30 anos.  Escreveu-a no mesmo dia em que o sanfoneiro morreu e demonstra a sua admiração pelo pernambucano. "Todo Nordeste chorou, quando o fato aconteceu. A sanfona ficou muda. A zabumba ensurdeceu. Quando se ouviu a notícia: Luiz Gonzaga morreu. [...] Luiz também sou teu fã", diz a música. No final, há uma brincadeira com uma montagem da fala do rei do baião, elogiando Pedro. "Eu reconheço teu valor. Tu és um patriota. Tu és um grande brasileiro". 

Nessa esfera musical quem também se destaca é o sanfoneiro Sebastião Pereira de Moraes, conhecido como Basto Peroba. O estímulo de seu pai foi o pontapé inicial para a sua carreira. Ganhou, aos 10 anos, um pequeno acordeon e, a partir daí, não parou mais de tocar. Um músico nato segundo a sua filha, Mônica Peroba, ela não esconde o orgulho na voz ao falar de seu pai. "Ele foi se apaixonando pela arte e realmente ama tocar. A sanfona parece uma pena no peito dele. [...] Ele é muito humilde, muito humano. Sou fã. Admiro demais". Para Basto, Dominguinhos sempre foi um grande ídolo, que logo tornou-se seu amigo pessoal. Tocaram juntos no Festival Viva Dominguinhos, que acontece em Garanhuns/PE, justamente para homenagear o conterrâneo.  


O sanfoneiro Sebastião Pereira de Moraes, conhecido como Basto Peroba, tem Dominguinhos como um grande ídolo e amigo pessoal. (Foto: Reprodução / internet)

Para um músico de ouvido, ter suas memórias sendo levadas pelo Alzheimer é uma situação difícil. Mas a família está sempre ao seu lado, garantindo o seu bem-estar e as recordações de sua trajetória musical. Em 2018, após um ano de perdas sucessivas das lembranças, encerrou sua profissão como músico. "A gente vem notando uns sinais de esquecimento por parte dele, e no ano passado, ficou mais forte. [...] Durante os ensaios da sua banda, ficamos bastante preocupados. [Mas] com todo esse problema, se a gente coloca um vídeo ou alguma coisa assim de forró, ele levanta a cabeça. [...] Ele ama o que faz", afirmou sua filha.

Conheça o trabalho de Basto Peroba, em que ele toca na praça central do município de Bom Conselho, sua terra natal: https://www.youtube.com/watch?v=MiDtP_utcvY.

QUADRILHA JUNINA

Quadrilhas juninas abrilantam ainda mais a festa, entre elas está a 
Luar do Sertão, do interior de Pernambuco. (Foto: Jackelyne Marques).

A representação artística encanta a quem conhece. Uma delas é a quadrilha junina, que veio de Paris como "quadrille" e se transformou em uma dança com resquícios matutos e caipiras. A estudante Jackelyne Marques, 19, participa há 5 anos da quadrilha Luar do Sertão, atuante em Bom Conselho, interior de Pernambuco. Ela conta que sempre foi um desejo. "Sempre tive interesse em quadrilha estilizada e sempre fui apaixonada por dança. [Por isso], comecei  a dançar em quadrilhas". A assistente de cabeleleira Emília Soares, 23, também participa desse mesmo grupo. Ela relata a sua experiência de 10 anos de aparições juninas. "Eu amo dançar. Na verdade, já tenho um carreira grande em apresentação de quadrilhas. A que estou hoje irá fazer 5 anos. Mas eu já vinha de outras".

O maquiador Luccas Rodrigues, 19, participa além da Luar do Sertão, da Vidal Drilha. Começou a dançar com apenas 5 anos, pois sua mãe estava a frente desta última. Se alguém precisava faltar, Luccas era o substituto. Com isso, foi aprendendo os passos e desde então, é componente efetivo. Ele destaca a importância das festas juninas em sua vida. "Temos a necessidade de resgatar a cultura nordestina de nosso estado. A valorização dessa cultura deve ser algo que dure o ano todo, não só no mês de junho". Ele complementa com o merecimento que o São João possuí em todo o estado. "É uma expressão artística que buscamos mostrar a realidade e o cotidiano do nosso povo, que apesar de tudo, segue de cabeça erguida. É isso o que me motiva a continuar". 

Editado por Alinne Morais 

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