27/06/2022 às 17h02min - Atualizada em 26/06/2022 às 03h49min

Pequeno Stonewall Brasileiro: a primeira manifestação da comunidade LGBTQIA+ no Brasil

Protesto liderado por ativistas lésbicas nos anos 80 marcou o início da luta por direitos de igualdade no país e deu origem ao Dia Nacional do Orgulho Lésbico

Thayzuki Santos - editado por Larissa Nunes
Manifestantes do GALF reunidas em protesto no Ferro's Bar. (Foto: Reprodução / UOL)

Junho representa o mês em que se celebra o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, em homenagem às manifestações que ficaram conhecidas como a “Revolta de Stonewall”, nos Estados Unidos. Até o ano de 1966, o Stonewall Inn operava como um restaurante voltado para o público heterossexual. Após passar por uma reforma devido a um incêndio, o bar passou a ser um dos principais pontos de encontro da comunidade gay na cidade de Nova York. Na época, relações entre pessoas do mesmo sexo eram consideradas crime na maioria dos Estados norte-americanos.

 

Os donos do estabelecimento que não possuía licença para vender bebida alcoólica tinham relação com a máfia e, para evitar o fechamento do bar, pagavam propina à polícia. Apesar disso, as batidas policiais eram frequentes, e no dia 28 de junho de 1969, nove agentes entraram no Stonewall, agrediram fisicamente e levaram sob custódia alguns de seus clientes gays, travestis e drag queens e expulsaram outros de forma bruta.

 

Indignada, a multidão que acompanhava a ação do lado de fora deu início naquela noite a uma série de protestos. Por seis dias, membros da comunidade gay foram às ruas de Nova York e se manifestaram contra a repressão policial. Este movimento representa um grande marco na luta pelo direito à igualdade e combate ao preconceito, servindo de referência para outras manifestações ao redor do mundo.

Comunidade gay nova-iorquina liderou uma série de protestos nos anos 60.

Comunidade gay nova-iorquina liderou uma série de protestos nos anos 60.

(Foto: Reprodução / MST)

No Brasil, ação teve uma dimensão menor, porém não inferior em termos de relevância

Quatorze anos após a Revolta de Stonewall, aconteceu o primeiro protesto da comunidade LGBTQIA+ no Brasil. Em um país ainda sob forte influência do regime militar, uma ação semelhante ocorreu no Ferro’s Bar, localizado em São Paulo.
 

O primeiro grupo de militância homossexual no Brasil foi o SOMOS, formado em 1978. Apesar de ter como objetivo a luta por igualdade, o movimento era constituído predominantemente por homens e não priorizava o discurso feminista. Na luta pelo fim do machismo e da discriminação dentro e fora da comunidade, ativistas lésbicas do SOMOS se uniram no ano de 1981 para fundar o Grupo de Ação Lésbica Feminista (GALF).

 

Com o intuito de dialogar com outras lésbicas sobre preconceito, relacionamentos homoafetivos e outras questões, o GALF passou a produzir em 1982 um boletim em formato de panfleto intitulado Chanacomchana. O boletim era comercializado no Ferro’s Bar, na época um ponto de encontro para mulheres atraídas pelo mesmo sexo. Contudo, o conteúdo da publicação não agradava os donos do estabelecimento, que toleravam a presença das lésbicas no recinto desde que não houvesse demonstrações muito explícitas de afeto.

Edições do Chanacomchana, boletim produzido pelo GALF.

Edições do Chanacomchana, boletim produzido pelo GALF.

(Foto: Reprodução / Google)


Mesmo com a ditadura perdendo força, a sociedade ainda era muito conservadora e preconceituosa. “Sair do armário” era um grande tabu e isso dificultava a venda do boletim, pois muitas mulheres se viam na condição de não poderem assumir sua orientação sexual.

 

Os proprietários do Ferro’s Bar começaram, então, a impedir a distribuição interna do Chanacomchana. Em contrapartida, faziam vista grossa à venda de boletins religiosos, bijuterias e drogas ilícitas. As integrantes do GALF permaneceram comercializando o panfleto, até que no dia 23 de julho de 1983 foram expulsas do estabelecimento e, consequentemente, proibidas de frequentá-lo. O ato violento e discriminatório dos donos levou o GALF a organizar uma manifestação, cujo planejamento durou cerca de um mês e contou com o apoio de diversos grupos.

 

Em 19 de agosto de 1983, sob o comando do GALF, as lésbicas invadem o Ferro’s Bar e reclamam o direito de voltar a vender o Chanacomchana e frequentar livremente o espaço. Pressionados pela mobilização dos grupos de apoio e da imprensa, os donos cederam às reivindicações e se retrataram com um pedido de desculpas. Dada a semelhança com os eventos ocorridos no Stonewall Inn, a manifestação política das lésbicas em São Paulo ficou conhecida como o Pequeno Stonewall Brasileiro. Além disso, a data marca o surgimento do Dia do Orgulho Lésbico no território nacional.

Protesto lésbico no Ferro's Bar é considerado simbolo de resistência.

Protesto lésbico no Ferro's Bar é considerado simbolo de resistência.

(Foto: Reprodução / UOL)

Na imprensa, a repercussão foi tanta que a co-fundadora do GALF, Rosely Roth, foi convidada para ir ao programa da Hebe Camargo para conscientizar os telespectadores e propor um debate sobre o movimento lésbico. Durante sua participação, Roth precisou ainda se defender de comentários homofóbicos de outra convidada, mãe de uma mulher lésbica que não aceitava a orientação sexual da filha.

 

Rosely Roth no programa Hebe Camargo em 25 de maio de 1985. (Reprodução: Um Outro Olhar - YouTube)

 

A aparição de Roth e a divulgação da caixa postal do GALF no programa ajudaram a aumentar o conhecimento das mulheres lésbicas a respeito do Chanacomchana, que teve um grande crescimento no número de vendas. Além disso, o alcance do GALF a mulheres que não faziam parte do grupo se tornou mais expressivo.

 

O boletim foi publicado pela última vez no ano de 1987, mas o Pequeno Stonewall Brasileiro ficou marcado na história da comunidade LGBTQIA+ como um importante símbolo de resistência e de inspiração para outros grupos reafirmarem o seu direito de existência.


 


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