28/06/2022 às 23h51min - Atualizada em 28/06/2022 às 22h35min

Preservação do patrimônio cultural brasileiro: se não valorizarmos a nossa memória, que história teremos para contar?

É grande o desinteresse dos brasileiros por assuntos relacionados à cultura e nesse contexto, a busca pela construção da nossa identidade cultural fica cada vez mais distante

Elaine Brito - editado por Larissa Nunes
Centro Histórico de Recife. (Foto: Reprodução/ IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional)

É bem provável que em algum momento da vida, caminhando pelas ruas de sua cidade, você tenha se deparado com um imóvel antigo e deteriorado pelo tempo, em meio às construções contemporâneas. Nesse instante, vem a pergunta que não quer calar: de que forma isso te tocou? Você se preocupou e tentou imaginar como teria sido a vida das pessoas que moravam naquele local? Por que foi construído em determinado estilo? Se não houve interesse em restaurá-lo? Ou, sendo menos otimista e mais realista, esse prédio antigo e cheio de histórias não lhe despertou nenhuma curiosidade, mas ao contrário, você reagiu com indiferença, uma vez que existem coisas mais importantes com o que se preocupar? Infelizmente a falta de cuidado e interesse dos brasileiros pelo patrimônio histórico cultural, é uma realidade cada vez mais presente em nosso país.

 

O nível de acesso à cultura está diretamente ligado à economia, uma vez que quanto menor a renda financeira, menor será a chance de deixar de comprar um artigo de primeira necessidade como um alimento, para custear sua entrada em um show, uma exposição de artes, ou uma peça de teatro, por exemplo. Ainda assim, este não é um fator determinante, pois em muitos casos predomina a falta de interesse por tudo o que está relacionado às formas de consumo e acesso a produtos e manifestações culturais.

 

Os patrimônios culturais devem ser valorizados pela sociedade, pois trata-se de um bem coletivo importante para a formação da nossa identidade e pelos governantes, na criação e execução de leis que incentivem essa proteção. A palavra patrimônio vem do latim 'pater', que significa pai. Trata-se de uma definição que está ligada à importância daquilo que é passado como herança, de geração em geração. Assim sendo, o significado de patrimônio cultural diz respeito ao legado cultural compartilhado entre os povos e que carrega em si aspectos referentes à identidade daquela sociedade. 

 

Patrimônio Cultural

Podemos dizer que patrimônio cultural é tudo aquilo que é produzido por uma cultura, de forma material ou imaterial e portanto, tem grande importância cultural e científica para a humanidade.


Tipos de Patrimônio Cultural:
 

Patrimônio Material

Diz respeito às formas de manifestações culturais tangíveis, aos bens materiais físicos, que podemos tocar e inclui museus, monumentos arquitetônicos, as pinturas, os sítios arqueológicos, os parques, a arquitetura entre outros.

 

Exemplos:

Centro Histórico de Ouro Preto, em Minas Gerais;

Centro Histórico de Olinda, em Pernambuco;

Ruínas de São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul.

 

Patrimônio Imaterial

É o tipo de patrimônio considerado intangível e corresponde às expressões culturais simbólicas como o idioma e os dialetos, a culinária, as festas populares, os rituais religiosos e diversos outros.

 

Exemplos:

Frevo, em Pernambuco;

Carimbó, no Pará;

Ginga com Tapioca, no Rio Grande do Norte.

Ginga com tapioca, no Rio Grande do Norte.

Ginga com tapioca, no Rio Grande do Norte.

(Foto: Reprodução / G1 RN - Globo)


Além dos Patrimônios Material e Imaterial, existem também o Patrimônio Artístico, que reúne os bens artísticos e o Patrimônio Natural, referente aos bens naturais de uma região.

 

O Artigo 215 da Constituição Federal Brasileira de 1988 diz que “o Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais''.

 

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN é o órgão responsável por fiscalizar, preservar e recuperar os bens materiais e imateriais que foram tombados como patrimônio nacional. A partir do tombamento, o monumento passa a ser um bem cultural que deve ser preservado e não poderá sofrer modificações. Quanto mais ativo o órgão for na expansão de suas atividades, maior será a quantidade de patrimônios preservados.

                               
Debate com a Comissão de Cultura, sobre a preservação do patrimônio histórico e cultural, transmitido pela TV Câmara em 16 de abril de 2021.
(Reprodução: YouTube)

 

O governo federal  precisa trazer mais incentivos às artes em nosso país, ampliando as leis de promoção à cultura já existentes e viabilizando a aplicação das mesmas. Outra alternativa seria investir em campanhas publicitárias que abordem a importância da formação de nossa identidade cultural, incentivando a participação popular em eventos com esse tema. O desinteresse da sociedade pelo que é produzido no país, culturalmente falando, é um problema sério e contribui para uma submissão cultural, quando deixamos de consumir o que é nosso, para reproduzir padrões de culturas estrangeiras. Isso também acontece porque o patrimônio cultural não é representativo para uma grande parcela da população, que não se identifica com o que está exposto.

 

A falta de investimentos por parte do Estado, causou um prejuízo de dimensões incalculáveis, no caso do incêndio no Museu Nacional do Rio de Janeiro, em 2018, onde grande parte dos seus 20 milhões de itens foram destruídos pelas chamas. De acordo com as investigações realizadas pela Polícia Federal, a tragédia foi ocasionada por um curto-circuito durante um superaquecimento em um aparelho de ar-condicionado, que poderia ter sido evitado se houvesse manutenções regulares no Museu.

 

Já no campo da educação, existe um longo caminho a percorrer, começando pelos nossos livros de História que praticamente não possuem autores brasileiros, e sim europeus. Os alunos deveriam ser mais estimulados em sala, a conhecerem a sua cultura para assim contribuírem na preservação histórica de seus hábitos e costumes. Porém, as escolas brasileiras não abordam o assunto de forma consistente e esses estudantes que deveriam crescer lúcidos e conhecedores de sua cultura, e portanto, serem agentes dessa preservação, tornam-se adultos sem nenhuma consciência histórica e cultural, e em vez de cuidar, vandalizam os patrimônios, numa  falta de respeito sem precedentes.

 

Nós sabemos que a evolução é um processo natural e necessário, mas se as gerações atuais não se preocuparem em saber como viviam os seus antepassados, como eram as suas paisagens, a diversidade arquitetônica e étnica, enfim. Se a sociedade não se apropriar dessas informações, a nossa história, ou melhor, a continuação dela, será perdida no tempo.


 


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