01/07/2022 às 21h44min - Atualizada em 29/06/2022 às 23h24min

80 anos de um símbolo da cultura brasileira

Gil deixa seu registro no país com um legado de representatividade e progressismo em suas obras.

Bárbara Campelo - Revisado por Jonathan Rosa
Gil traz em sua música a mescla da sanfona com a guitarra. (Foto: Reprodução/ Gilbertogil).

Prestigiar nossa cultura é de grande importância, sobretudo um artista vivo completando 80 anos e que permanece preenchendo sua bagagem de façanhas. Esse é Gilberto Passos Gil Moreira, melhor dizendo, Gilberto Gil. 

Nascido no dia 26 de junho de 1942, filho de uma professora primária, Claudina Gil Moreira com o médico José Gil Moreira, Gil tornando-se irmão de Gildina Passos Gil Moreira no ano seguinte. Soteropolitano, o músico vem de uma família oriunda do interior do estado da Bahia, da cidade de Ituaçu, foram para a capital do estado para seu nascimento e voltaram após vinte dias para sua cidade de origem.

Seu interesse pela música surgiu desde cedo. Com 9 anos ele voltou a Salvador para ingressar no antigo ginasial e passou a morar com sua tia paterna, Margarida -que mais tarde recebeu homenagem em uma música- dividindo-se entre escola e a Academia Acordeon Regina, onde estudava música. Cresceu sob a influência da sonoridade nordestina, como Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e João Gilberto, incluindo um repertório de artistas internacionais, contendo Beatles e Jimi Hendrix, estilos refletidos em suas músicas, que carregam sons nordestinos com rock, reggae e outros ritmos.

No ano de 59, já no antigo colegial, Gil escreveu seus primeiros poemas com base em suas leituras de Castro Alves, Gonçalves Dias e Olavo Bilac. Ele integra como acordeonista no conjunto instrumental chamado Os Desafinados, onde tocavam em escolas, festas de aniversário e clubes em Salvador até 61, ano que, por influência de João Gilberto e da Bossa nova, inicia os estudos de violão, ao mesmo tempo que começa a cursar administração na Universidade da Bahia.

Início de carreira

Em 1962, ano que começou a namorar Belina de Aguiar e atuar como fiscal do imposto aduaneiro, a música ficou mais presente em sua vida. Fez suas primeiras canções no violão (bossas que estava trabalhando) dando início a composições de jingles e a tocar em gravadoras. Foi também nessa época que fez suas primeiras apresentações na TV Itapoã, em um programa musical, continuando a se apresentar até o ano de 64. Nesse mesmo ano, lançou seu primeiro compacto em 78 RPM de sua música Bem devagar com o conjunto As Três Baianas (dando origem ao Quarteto em Cy), feito de cera carnaúba, pela gravadora JS Discos.

No ano seguinte, na JS Discos, gravou e lançou seu disco de estreia ‘Gilberto Gil’, um compacto duplo (EP) com quatro músicas suas: “Serenata do teleco-teco”, “Maria tristeza”, ”Vontade de amar” e “Meu luar, minhas canções”. Ainda em 63, saiu o segundo disco, um samba autoral chamado “Decisão” em 78 RPM. Pelo produtor Roberto Santana, conheceu Caetano Veloso; pouco depois conheceu Maria Bethânia e Gal Costa.

Se formou em administração em dezembro de 1964 e após, viajou para São Paulo para um teste de emprego na empresa Gessy Lever e lá conheceu Chico Buarque. Em março desse mesmo ano, aconteceu seu primeiro show individual, ‘Inventário’, no Teatro Vila Velha, dirigido por Veloso. Casou-se com Belina no dia 29 de maio e em junho mudou-se para São Paulo com a aprovação na empresa Gessy Lever, mas não deixou a música. A noite frequentou galerias, bares, onde encontrou e conheceu outros artistas e compositores, como Capinan e Torquato Neto.

Participou junto a Caetano, Bethânia, Gal e Tom Zé de um espetáculo dirigido por Augusto Boal e encenado no Teatro de Oficina, o Arena Canta Bahia (mesmos companheiros que Gil participou do show de inauguração do Teatro Vila Velha no ano anterior). Continuou gravando, lançou sua primeira fita demo com dezoito trechos de músicas por um escritório de editora musical e pela RCA Victor, gravou as músicas ‘Procissão’ e ‘Roda’ (composição sua com João Augusto).

No ano de 1966 nasceu em Salvador sua primeira filha, Nara, fruto de sua relação com Belina. Nessa fase ele começou a se destacar na TV, especialmente no programa ‘O Fino da Bossa’, apresentado pela artista Elis Regina, na TV Record. Foi contratado pela Philips (atual Universal) para fazer seu primeiro LP e por consequência, largou o emprego na Gessy Lever e resolveu viver somente de música. Mudou-se para o Rio de Janeiro com Nara e Belina para gravar seu álbum de estreia.

Sua segunda filha com Belina, Marília, nasceu em fevereiro de 67, no mês anterior à sua separação com Belina. Já estava sendo empresariado por Guilherme de Araújo e em uma fase de avanço na sua carreira, com contratos, lançamentos e apresentações. Em maio, assumiu sua relação com Nana Caymmi (que durou até o final de 1968). Nessa época, estava em construção um movimento progressista para a música brasileira.

Apresentação tropicalista. Atitude vanguarda, levando experimento estético e musical.

Apresentação tropicalista. Atitude vanguarda, levando experimento estético e musical.

(Foto: Reprodução/ Imprevistos Musicais).

Tropicalismo

Tropicália foi um movimento no Brasil para romper o tradicionalismo na música popular e na cultura brasileira com a proposta de revolucionar a arte e captar uma identidade nacional nos anos de 1967 e 1968, em meio ao regime militar e com a música percorrendo o pop com influência do rock internacional. Diante da ditadura e da censura promovida pelo Estado na época, o movimento ficou marcado pelos debates políticos e análise crítica sobre a realidade do país através de facetas artísticas, a fim de quebrar padrões e criar-se uma nova música brasileira, apresentada no 3º Festival de Música Popular Brasileira em 1967.

Integravam no coletivo os cantores-compositores, Gilberto Gil e Caetano Veloso, além de Maria Bethânia, Tom Zé, Gal Costa, Rogério Duprat, entre outros. Em 1968 depois do show Momento 68, o coletivo lançou um disco tropicalista (alguns também de forma individual). Houve até um programa experimental do movimento pela TV Tupi, nomeado ‘Divino maravilhoso’, canção de Gil e Caetano interpretada por Gal no 4º Festival de Música Popular Brasileira.

Dias antes do natal daquele ano, o programa é apresentado pela última vez e no dia 27 de dezembro Gil e Caetano foram presos, pois foram considerados rebeldes ao atacarem a ‘moral e os bons costumes’, com apresentações que carregavam dança, cabelos longos, roupas extravagantes, tendo a sexualidade julgada por carregarem aspectos que insultavam o setor burguês que domina a sociedade. Gil por ter sido acusado de porte de drogas, foi condenado à permanência em manicômio judiciário.

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No ano sucessor, já soltos sob regime de confinamento, Gil se casou com Sandra Barreira Gadelha, gravou um novo disco e após um show de despedida, ele e Veloso, com suas respectivas esposas, vão em exílio para Londres com a finalidade de se afastar da repressão do Brasil. No mês seguinte é lançado seu terceiro LP e um compacto da música ”Aquele abraço”, que parecia ser uma mensagem de despedida, sendo um dos maiores sucessos daquele ano.

Em exílio, ele fez uma série de shows em teatros pela Europa, apresentações, gravações e lançamentos em inglês e participações com músicos internacionais, sendo o único brasileiro a participar do Festival da Ilha de Wight (maior festival ao ar livre da Inglaterra até então). Pedro, seu terceiro filho, nasceu em Londres, vindo de seu casamento com Sandra.

Retornando em 1972 para o Brasil, deu início a apresentações pelas principais capitais do país e seguiu fazendo novas canções e gravações, mantendo trabalhos no exterior. Em 76, em comemoração a 10 anos de sucesso de suas carreiras individuais, Gil, Caetano, Bethânia e Gal formaram o grupo Doces Bárbaros e lançaram um LP, onde passaram por dez cidades pelo Brasil. Nesse ano nasceu Maria, sua quarta filha.

Doces Bárbaros. A turnê ganhou registro em um filme de Jom Rob Azulay.

Doces Bárbaros. A turnê ganhou registro em um filme de Jom Rob Azulay.

(Foto: Reprodução/ Observatório do Teatro-UOL).

No mês de julho de 1978 se transferiu com a família para os Estados Unidos, em Los Angeles, e gravou seu primeiro disco feito exclusivamente para o mercado estrangeiro. Se apresentou em alguns teatros de universidades para divulgar seu trabalho intitulado 'Nightingale'. Manteve-se até 79 por lá, ano que se tornou o primeiro negro a integrar o Conselho de Cultura do Estado da Bahia. Logo início de 1980, se separou de Sandra e em setembro do mesmo ano, passa a viver com Flora Nair Giordano, que se torna sua empresária e produtora. Casados até o momento, geraram três filhos, são eles Bem, Bela e José. Hoje ele contempla 8 filhos, 12 netos e uma bisneta.

Em suas músicas há uma estética de preocupação pela sociedade brasileira, principalmente à minorias que nela contém, entretanto, sua representação pela luta negra é vívida, podendo ser vista em algumas canções como ‘Refavela’, ‘Sarará miolo’ e ‘Ilê ayê’. Em 1986, o compositor tornou-se presidente da Fundação Gregório de Matos, uma espécie de Secretaria Municipal da Cultura de Salvador e no decorrer de sua gestão, as relações culturais entre a Bahia e a África foram acentuadas, sendo aberto em cada lugar um espaço que retratava cada sede (na Bahia uma casa Benin e em Benin, uma casa Bahia). Em seguida, foi vereador de Salvador de 1989 a 1992, pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). Posteriormente agregou ao Partido Verde (PV), no qual foi convidado pelo ex-presidente Lula para o Ministério da Cultura.

Como ministro propõe e inicia reforma estrutural do ministério para aperfeiçoar o funcionamento da Funarte, Biblioteca Nacional e da Fundação Palmares.

Como ministro propõe e inicia reforma estrutural do ministério para aperfeiçoar o funcionamento da Funarte, Biblioteca Nacional e da Fundação Palmares.

(Foto: Reprodução/ O Globo).

Como ministro da cultura atuou por 5 anos e meio (2003-2008), pregando reformas estruturais e com a proposta de abranger e assegurar a pluralidade cultural presente no país com o foco na inclusão social, defendendo o uso dos meios eletrônicos em auxílio da difusão da arte e da cultura, tornando-se um defensor do mundo digital. Fez aliança com a Creative Commons em 2003, ganhando reconhecimento exterior pelo 'The New York Times' pelo seu trabalho, que assiduamente agregava a integração.
Posse na Academia Brasileira de Letras, depois de receber 21 votos na votação que ocorreu em 2021.

Posse na Academia Brasileira de Letras, depois de receber 21 votos na votação que ocorreu em 2021.

(Foto: Reprodução/ Boa vontade).

Gil tem uma história memorável durante sua carreira, com premiações, nomeações, ousadia, representatividade e um estilo lembrado pela mistura de arranjo e composições ilustres. Seu último marco ocorreu neste ano, com a posse da Cadeira 20 da Academia Brasileira de Letras (ABL), como membro imortal, sendo o segundo negro a ocupar uma cadeira da ABL aditando a herança de 22 discos de estúdio, sem contar com trilhas sonoras, coletâneas, shows ao vivo e trabalhos coletivos, que somam 72. E podemos somar mais um feito, pois nesta edição do Rock In Rio, ele cantará no palco Sunset, no dia 4 de setembro, como memória viva, já que esteve na primeira edição do festival em 1985. Receberá homenagem durante os 7 dias de evento por sua vida e legado.


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