06/07/2019 às 12h21min - Atualizada em 06/07/2019 às 12h21min

A importância histórica das rendeiras de Maceió

O filé é a principal atividade realizada no Pontal da Barra

Jéssica Viturino
Loja no Pontal da Barra ( Foto: Marcos Araújo)
Maceió é a capital conhecida pelas belas praias, festividades e campo cultural. Entre as margens da Lagoa Mundaú, na região sul da capital, temos o bairro Pontal da Barra onde ficam localizadas as rendeiras, que por meio das linhas coloridas que são entrelaçadas na tarrafa de pesca, contam a história do filé.

O famoso filé tem origem portuguesa. Após terem sido deixados no Pontal da Barra, pelo imperador Dom João VI, três escravos do nobre ensinaram a plantar o algodão para produzir o “cordão” que seria transformado na renda. A prática foi replicada do “filó”, em Portugal, e aqui tornou-se o Filé. Desde que foi aprendida, a arte de bordar na tela tem sido o sustento das famílias que vivem as margens da Lagoa Mundaú.

No Pontal, a produção e exposição das peças são umas das grandes atrações culturais do local. A rendeira Dilma Oliveira, de 78 anos, atualmente é uma das mais antigas a produzir o filé na localidade. Com sua própria loja, ela lembra que aprendeu a bordar desde muito cedo com as mulheres da família, e que passou os ensinamentos às suas filhas. “Eu aprendi a bordar com minha mãe e minha tia em casa. Desde os 6 anos eu já fazia o filé, na minha casa todo mundo faz, filhas e netas, aqui é assim, as pessoas aprendem com os pais ou tios”, contou.

Rendeira Dilma Oliveira (Foto: Marcos Araújo)

O artesanato regional é sempre motivo de orgulho e bem-estar, algumas rendeiras consideram a atividade uma terapia. Rositânia da Costa, de 53 anos, é funcionária de uma das lojas que vende e produz renda no Pontal da Barra. Nascida e criada no bairro, ela revela que o trabalho funciona como uma “higiene mental”, já que exige concentração e habilidade com as mãos.

Muitas das peças que são vendidas na loja em que trabalha são produzidas por ela e pela dona. Apesar de reproduzir a mesma técnica, a maioria da produção é singular. Possui detalhes diferentes e cores diversificadas. Ela conta que as rendeiras utilizam a criatividade para moldar as peças. “A gente vai fazendo o que vem na cabeça. Eu acho que isso é um dom”, afirmou a rendeira.

Rendeira Rositânia da Costa (Foto: Marcos Araújo)

Os trabalhos manuais demonstram uma multiculturalidade, em que um mesmo ponto do bordado gera vários tipos de produtos. Bolsas, saídas de praia, vestidos, jogos americanos, são alguns deles.

Para a jornalista especialista em moda, Alina Amaral, o filé é importante para a manutenção do DNA do povo daquela região. O filé é um trabalho valoroso, que tem a função de oferecer a população o registro único. Ele como outras tramas feitas à mão falam por si sobre a história do povo. “O turismo é a grande demanda para estas expressões. Creio que o filé, especificamente, precisa ainda de um trabalho constante de inserção de design para que ele de fato seja adequado a este universo de estilo. Juntos eles serão imbatíveis”, falou a jornalista.

Termos econômicos

O filé representa um número bem expressivo na comunidade. Segundo a presidente da Associação das Rendeiras de Maceió, Lígia Mirim, entre a compra, produção e revenda do Filé são gerados, indiretamente, 15 mil empregos — em várias localidades — e diretamente, 1200, entre funcionários e donos de lojas no Pontal da Barra. Considerando a população de 9.622 habitantes do bairro, a movimentação econômica gerada pelo artesanato é muito significativa, visto o número de famílias que contam com isso para seu sustento.

Lígia afirma que o período que aparece mais turistas na região é entre os meses de dezembro, março, julho e à primeira quinzena de agosto. Afirma também que o movimento de intercâmbio cultural alavanca a economia local.
Presidente Lígia Mirim (Foto: Marcos Araújo)

No bairro existe feiras de artesanatos e eventos como congressos no Porto de Maceió. Neles existem vários tipos de bordados, para todos os gostos. “O principal é o bordado filé, a renda, o labirinto e o crochê. Existem vários modelos e cores, mas não se muda a renda, se cria novos pontos”, afirmou a presidente.

No pontal, a tradição centenária tem se mostrado auto reciclável, preservando a importância da manutenção do DNA, e a história daquela população. Suas peças exclusivas continuam chamando atenção e despertando o interesse de curiosos. Muito mais do que um artesanato de subsistência, o filé é um tesouro histórico, não só para o bairro, mas para Alagoas.

Rua das rendeiras  (Foto: Marcos Araújo)

Editado por Pâmela Rita

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