13/08/2022 às 18h08min - Atualizada em 13/08/2022 às 17h49min

O sucesso do podcast 'A mulher da casa abandonada' e o debate a respeito da escravidão contemporânea

Programa relata história do casal que manteve empregada doméstica em situação análoga à escravidão durante 20 anos, nos EUA

Karina Cassimiro - Revisado por Vanessa Kelly
Capa do podcast “A mulher da casa abandonada” (Foto:Reprodução/Folha de S.Paulo).

Lançado em 08 de Junho, A Mulher da Casa Abandonada é um podcast da Folha de S. Paulo apresentado pelo jornalista Chico Felitti. Após seis meses de apuração sobre a mulher que transitava com o rosto sempre coberto por uma pomada branca, moradora da mansão degradada localizada em Higienópolis, em um dos bairros nobres de São Paulo. Foi descoberto pelo repórter que a figura misteriosa se chama Margarida Bonetti e junto com seu marido Renê Bonetti foram acusados de manter uma empregada doméstica em situação análoga à escravidão, durante 20 anos, quando morava nos Estados Unidos. Renê foi julgado e condenado nos EUA, país onde cumpriu pena e ainda reside. Já Margarida fugiu para o Brasil, se tornou foragida do FBI e nunca foi julgada.

Mansão onde vive Margarida Bonetti.

Mansão onde vive Margarida Bonetti.

(Foto: Reprodução/Google Street View).

 

Esse crime hediondo do casal Bonetti atraiu muita atenção do público. No Spotify, o programa esteve entre os podcasts mais ouvidos do Brasil, em outras plataformas de áudio também teve seus episódios no topo. A cada episódio lançado o podcast ganhava repercussão nas redes sociais gerando curiosidade e indignação. Curiosos criaram teorias de conspiração envolvendo a casa e passaram a visitar o local para fazerem fotos e vídeos para exposição em suas redes sociais. Por um lado, a senhora branca rica causava preocupação por morar sozinha em uma mansão com condições precárias de habitação, ganhando impacto dos internautas e parte da mídia, por consequência o tema em relevância no podcast sobre a vítima uma mulher preta ser escravizada por duas décadas, ficava em segundo plano.

 

 

Circo midiático causa indignação nas redes sociais. (Reprodução: @belacristinaaa -Twitter).


 

O quinto episódio, intitulado “Outras tantas mulheres” foi dedicado para relatar casos recentes de trabalho em situação de escravidão que aconteceram em Minas Gerais, no Rio de Janeiro e em Santos revelando que o trabalho escravo ainda é uma realidade no Brasil e acontece em diferentes regiões.

 

Após o lançamento do podcast “ A mulher da casa abandonada”, o Ministério Público do Trabalho(MPT) recebeu um crescimento no número de denúncias de trabalho doméstico análogo à escravidão comprovando que infelizmente ainda vivemos em uma sociedade escravocrata, sendo de extrema importância que a função social do jornalismo seja também de denunciar e expor esse tipo de situação para que a informação alcance a população, e esses possam fazer as denuncias aos órgãos de fiscalização, a fim de erradicar o trabalho escravo contemporâneo.
 

Publicação do repórter a respeito do crescimento do número de casos de trabalho escravo contemporâneo.(Reprodução: @chicofelitti - Twitter).


Os oito episódios do podcast “A mulher da casa abandonada” estão disponíveis gratuitamente nas principais plataformas de áudio, como Spotify, Google Podcasts e Deezer. Após um mês da estreia, também foi disponibilizado no YouTube contando com quase 300 mil visualizações somente no primeiro episódio.

 

Sinais de trabalho doméstico análogo à escravidão

 

Com intenção de informar e chamar a atenção da sociedade para a violação dos direitos das trabalhadoras domésticas, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) no Brasil fez uma série de publicações no Instagram sobre a campanha #TrabalhoEscravoDomesticoNuncaMais sendo uma iniciativa da ONU Mulheres, FENATRAD e Ministério Público do Trabalho do Rio de Janeiro (MPT-RJ), em parceria com Themis, AMBRio e MNU-RJ. Uma das publicações foi destinada para que a população consiga identificar os sinais do trabalho doméstico análogo à escravidão e assim fazer a denúncia.  Algumas características são:

  • Patrão(a) que oferece moradia em cômodo com péssimas condições de higiene, sem conforto, ventilação, água potável ou instalações sanitárias; restringir a alimentação ou dificultar o acesso a serviços de saúde;

 

  • Trabalhadora que não recebe salário digno ou outros direitos trabalhistas por ser considerada “da família";

 

  • Situações humilhantes e constrangedoras com agressões físicas ou verbais.
Publicação sobre como identificar trabalho escravo doméstico. (Reprodução: @oit_brasil - Instagram).

 

Como fazer denúncia sobre trabalho escravo

 

As denúncias anônimas podem ser feitas por meio do canal digital Sistema Ipê , inserindo o maior número de informações para que a fiscalização do trabalho possa ir até o local indicado verificar as informações de trabalho análogo à escravidão. Além disso, também é possível fazer a denúncia através de ligação telefônica no número 100.


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