14/08/2022 às 20h44min - Atualizada em 13/08/2022 às 22h23min

"Cem anos de solidão": O livro que reconciliou o Brasil com América Latina

Ao narrar a saga da família Buendía, Garcia Márquez reuniu semelhanças e sentimentos que definem todo o subcontinente latino-americano

Madson Lopes - Revisado por Flavia Sousa
Garcia Márquez acreditava que seus livros tinham impactos na politica da América Latina porque eles ajudam a criar uma identidade latinoamericana, e fazem os latinoamericanos terem uma consciência maior de sua cultura. (Foto: Reprodução/Instagram).
O Brasil está de costas para a América Latina, e de frente para o atlântico – direcionando seu olhar para a África e Europa – mas, seu coração, pertence aos EUA. Tamanha admiração ao país norte americano por parte dos brasileiros é compreensível, se tratando da maior potencial econômica e de hegemonia cultural do mundo. Entretanto, esse não é o motivo que faz do Brasil um país insolado e indiferente aos seus vizinhos.

Essa dificuldade do Brasil ao se relacionar com seus pares, ou de se sentir parte deles, tem raízes históricas complexas. Muito se deve ao processo de colonização diferente para ambas as regiões que, de inicio, impôs, uma barreira linguística. Em seguida, o modo como cada região lidou com as lutas de independência, o Brasil dando continuidade à monarquia, enquanto os hispânicos guerrilharam em favor das repúblicas, colocaria entre eles outra barreira, à política. Além de questões geográficas, separando-os desde o inicio fazendo com que se olhassem sempre como um modelo do que eles não deveriam ser, e buscassem inspirações culturais e governamentais fora do subcontinente.

Uma pesquisa feita em 2015, coordenada pelo Instituto de Relações Internacionais da USP (Universidade de São Paulo), mostrou que somente 4% dos brasileiros se consideram latinos, à maioria, (79%), afirmam ser apenas brasileiros. Entretanto, será que há uma ‘latinidade’ no ser ‘brasileiro’? Ou se existe alguma identidade latino-americana que transcende as barreiras da língua e culturas locais? Para Gabriel Garcia Márquez, sim.



Em “Cem anos de solidão”, obra-prima publicada em 1967, o escritor colombiano, mestre do realismo magico, conseguiu reunir semelhanças e sentimentos compartilhados por aqueles que vivem ao sul das Américas. Ao narrar à saga da família Buendía, que viviam em um povoado chamado Macondo; “uma aldeia de 20 casas de pau a pique e telhados de sapé, construídas na beira de um rio de aguas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas brancas e enormes como ovos pré-históricos”, Garcia Márquez reconstrói a gênese da América Latina, e, ao fazer isso, ele também reconcilia o Brasil com sua região.



São tantas semelhanças culturais percebidas durante a leitura que se torna difícil o trabalho de enumera-las. Uma delas está diretamente ligada ao universo fantástico apresentado na trama, que reporta ao leitor as lendas do folclore brasileiro.

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Realismo magico e o folclore brasileiro

Experiências surrealistas acontecem em Macondo. Como quando ‘Remédios’, a bela, é elevada aos céus viva, devido a sua “beleza arrebatadora”, ou quando o patriarca e fundador da aldeia, ‘José Arcádio Buendía’ morre, e durante toda a noite cai uma “garoa de minúsculas flores amarelas; tantas flores caíram do céu, que as ruas amanheceram atapetadas”, ou quando a história apresenta Francisco, o Homem, "que assim era chamado por ter derrotado o diabo num duelo de repentes”. É impossível ler-las sem recordar as lendas do Caipora, Negrinho pastoreio, Curupira e Corpo-Seco dentre outras lendas da nossa cultura.



Esse mundo fantástico faz parte do imaginário latino-americano, como bem lembrou Garcia Márquez, no seu discurso ao receber o Nobel de literatura, pelo conjunto de sua obra, em 1982.


Macondo como espelho do Brasil

Mas, Cem anos de solidão, também vai alcançar o Brasil ao descrever o humor dos seus personagens. O famoso ‘calor humano’ e a hospitalidade que os brasileiros se orgulham, chamada de ‘nossa brasilidade’ é na verdade uma característica percebida em toda à América Latina, e foi muito bem representada no decorrer do livro.

A matriarca e espinha dorsal da trama, Úrsula Iguarán, poderia ser qualquer mulher latino-americana; Exuberante, generosa, de força inabalável, foi ela quem assegurou por um século a sobrevivência da estirpe. Foi por conta dela que a casa dos Buendía ganhou vida e se tornou um lugar de acolhimento para todos quantos se achegavam a Macondo. Úrsula lembra as ‘vozinhas’ guerreiras, gentis e hospitaleiras do interior do país. Outra personagem que evoca a personalidade brasileira se chama Pilar Ternera, descrita como uma “Mulher alegre, desbocada, provocativa e dona de uma rizada expansiva”. Essas personagens poderiam facilmente ser criações de romancistas brasileiros. Entretanto, foram imaginadas por um colombiano que pouco sabia sobre cultura a brasileira, indicando que há sim, uma ‘latinidade’, e comportamentos que unem os países sul américanos.

A própria Macondo serve como arquétipo do Brasil. A aldeia de 20 casas feitas com paredes de madeiras e telhados de sapé, em pouco tempo se tornou uma cidade e rota comercial importante, atraindo diversos povos como os árabes, os turcos, franceses, além dos ciganos ‘vira-mundo’ e os índios oriundos do pantanal. Afinal, esse mix de culturas não fez parte da formação inicial do Brasil?



A solidão cíclica latino-americana

Mas o romance vai além. E drestrincha a comovente história de uma família condenada a viverem ciclos repetitivos e caírem sempre nos mesmos pecados. Uma sequencia de 'José Arcádios' e 'Aurelianos' se sucedem em profusão, cobrindo um período sintomático de 100 anos. É nesse intervalo, que Garcia Márquez, captura o sentimento de solidão compartilhado pelos latino-americanos. Guerras, fomes, ditaduras, pestes e explorações ambientais são citadas de maneira poética – ainda assim, realistas – no decorrer da obra.



Longe de serem histórias fantásticas, esses acontecimentos foram, e ainda são, problemas reais. A América Latina teve 17 ditadores, quase todas as ditaduras aconteceram no mesmo período. E alguns países sofreram episodíos bárbaros parecidos. O massacre dos trabalhadores da companhia bananeira citada no livro, é uma referência histórica ao massacre ocorrido em Ciénaga, na Colômbia, em 1928, que na época fora negado pelo governo. O acontecimento lembra o suposto massacre da GEB, ocorrido 
numa construtora, durante a construção de Brasília. Esse massacre segundo o governo brasileiro nunca existiu e que no incidente houve apenas uma morte. Supostas testemunhas, porem, afirmam terem visto mais de 100 corpos e que os operários nunca retornaram para buscarem suas roupas.

De qualquer forma, a América Latina permanece unida por um sentimento de abandono – ou solidão – por aqueles que colonizaram e exploraram suas terras, e depois foram embora, deixando as veias abertas da América Latina sangrando, vide Eduardo Galeano.

Esses mesmos colonizadores os observam com um olhar pejorativo e rotulam esses países como subdesenvolvidos (ou pobres), embora suas riquezas tenham sido construídas a custas desses mesmos. E ainda assim, usando as palavras de Garcia Márquez no seu discurso de premiação: “diante dessa opressão, do saqueio e do abandono, nossa resposta é a vida”. Essa vida, essa vontade de pernancer, é a característica que unem os países latino-americanos, inclusive o Brasil, que ao contrario da família Buendía condenada a cem anos de solidão, eles tem uma segunda oportunidade sobre a terra.

Veja também: "América Negra": Projeto audiovisual reflete o protagonismo negro latino-americano

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