24/10/2022 às 12h59min - Atualizada em 24/10/2022 às 12h17min

A Mulher Rei: a verdadeira história das guerreiras Agojie que inspiraram a ficção

Baseado em uma história real, o longa ‘A Mulher Rei’ possui propósitos que vão além do retrato histórico

Vitória Barbara - editado por Larissa Nunes
Cartaz do filme 'A Mulher Rei'. (Foto: Reprodução / Mundo dos Games)

Dirigido por Gina Prince-Bythewood, o filme “A Mulher Rei” conta a história do exército feminino Agojie, responsável pela defesa do Reino de Daomé, atual Benin, na África Ocidental entre os séculos 17 e 19. Protagonizado por Viola Davis, a vencedora do Oscar, o longa chegou aos cinemas no dia 22 de setembro.
 

A Mulher Rei | Trailer Oficial. (Reprodução: Sony Pictures Brasil - YouTube)


“A Mulher Rei” revela a história da General Nanisca (Viola Davis), uma guerreira que é membro do grupo de elite composta somente por mulheres, as Agojie. Enquanto defende o Reino Daomé, Nanisca treina uma nova geração de guerreiras e as preparam para batalha decisiva contra um inimigo que possui o apoio dos portugueses, principais interessados no tráfico negreiro.

Embora o enredo do longa ter sido baseado em uma história real e contenha traços históricos precisos, alguns personagens são fictícios, incluindo Nanisca e Nawi, uma jovem guerreira em treinamento. No entanto, as guerreiras Agojie realmente existiram e foram elas que se tornaram uma das principais referências da força e agilidade feminina.

As Agojie

Em uma época em que mulheres eram vistas como inferiores perante os homens, o Reino de Daomé possuía uma organização social progressiva. Esse sistema de igualdade de gênero incluía todas as posições mais importantes como generais militares e conselheiros financeiros. O rei chegava a conceder o título de Kpojito, mulher rei, a companheira de reinado.

Mas quem foram essas mulheres poderosas que lutavam e defendiam o reino?



As Agojie eram uma força de elite do exército do Reino do Daomé, atual Benin, formado exclusivamente de mulheres guerreiras. O reino ostentava um exército composto por 6 mil mulheres que se tornarem conhecidas por sua bravura e agilidade nas lutas.  

Suas operações acompanhavam desde a invasão de aldeias sob o manto da noite, até a captura de prisioneiros que tinham as suas cabeças decepadas e usadas como troféus de guerra, garantindo a sobrevivência de seu povo. Elas eram chamadas amazonas por ocidentais e historiadores, devido à semelhança com as míticas guerreiras da antiga Anatólia e do Mar Negro.

As Agojie atingiram o seu ápice no século 19, sob o reinado do Rei Ghezo, que as agrupou formalmente ao exército de Daomé, que continha um dos territórios mais ricos da época. Devido às guerras em andamento no reino e ao comércio de escravos, a população masculina de Daomé caiu significativamente, criando uma oportunidade para as mulheres entrarem no campo de batalha.

Para ingressar no exército, as mulheres se voluntariavam ou eram forçadas a entrarem, como é o caso das meninas consideradas rebeldes. Algumas eram capturadas ainda crianças e a maioria, se não todas elas, eram pobres.

Em “A Mulher Rei”, Nawi (Thuso Mbedu) acaba no exército depois de se recusar a se casar com um pretendente rico e idoso.
Para se tornar de fato uma Agojie, as recrutas tinham que passar por treinamento intenso, incluindo exercícios projetados para ficarem firmes ao derramamento de sangue.

Todas as guerreiras eram consideradas como as esposas do Rei ou Ahosi, como eram chamadas. Elas habitam o palácio ao lado do rei e das suas outras esposas. Por serem “casadas” com o rei, elas foram impedidas de terem relações sexuais com outros homens, no entanto, elas não tinham contato íntimo com o rei e nem geravam os seus filhos.

Em 1892, o exército Agojie lutou contra os franceses na tentativa de os repeli-los. Apesar do empenho nas lutas e as suas bravuras, os franceses tomaram oficialmente a capital do Daomé, Abomey, em 17 de novembro daquele ano – o que resultou na queda do Império.

A trama “A Mulher Rei”



“A Mulher Rei” começa em 1823 com um ataque bem-sucedido das Agojie, que libertam homens e mulheres que seriam enviados à escravização sob o comando do Império Oyo, um poderoso estado iorubá hoje ocupado pelo sudoeste da Nigéria.

Logo após a vitória das guerreiras, somos apresentados a personagem da jovem Nawi que é entregue pelo pai para ser treinada pelas Agojie depois de ter sido rebelde e recusado uma proposta de casamento. É a partir do olhar da personagem, que vamos conhecer o universo das Agojie, suas regras, seu treinamento e seus rituais.

É importante destacar que apesar da escolha do enredo, o roteiro não se limita apenas a questão histórica de que os prisioneiros de guerra eram vendidos aos europeus para serem escravizados. Isso, inclusive, é um dos conflitos de Nanisca – que repudia o comércio dos escravos, principalmente por ter experimentado seus horrores pessoalmente.

Além disso, não são apenas Nawi e Nanisca que importam. Cada mulher presente na trama tem um papel importante e esse sentimento de colaboração é também uma forma de trabalhar o preconceito em uma sociedade machista que rebaixa a mulher e destaca o homem em diversos níveis.

Além de vários outros elementos do filme (não querendo dar mais spoilers), o roteiro não peca no envolvimento da trama que nos mostram grandes cenas que ajudam a trazer uma visão heroica para aquelas mulheres.

“A Mulher Rei” vai além de um filme histórico. O filme traz um diálogo do passado que nos permite repensar o presente e visar um futuro melhor. A representatividade também é algo que deve ser notado. Poucos são os filmes que possui um elenco de protagonistas compostas apenas por atores negros, que são na maioria, ignorados pelo cinema.

O filme nos mostra claramente o quão valiosas são as mulheres negras. “A Mulher Rei” já é um grande exemplo de inspiração para aquelas que não se sentem fortes o suficiente para enfrentar os problemas que nos cercam todos os dias. A trama nos passa a mensagem que todas as mulheres devem explorar o espírito guerreiro que está dentro de cada uma e com a união de todas, podemos vencer qualquer batalha.

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