21/11/2022 às 07h15min - Atualizada em 20/11/2022 às 08h31min

O que mudou na indústria cinematográfica, cinco anos após o movimento #MeToo

Pesquisas recentes avaliam o impacto da campanha nos bastidores de Hollywood; denúncias de abusos e assédios sexuais ainda são altos

Madson Lopes - Revisado por Flavia Sousa
#MeToo nasceu em 2006, mas viveu seu melhor momento em 2017 quando abalou Hollywood após denúncias de abusos sexuais. (Foto: BBC News Brasil).
Reportagem publicada pelo The New York Times em cinco de outubro de 2017, expôs abusos e assédios sofridos por mulheres profissionais de Hollywood. Na pauta inicial estava o magnata Harvey Weinstein, ex-diretor de cinema produtor de clássicos como ‘O Senhor dos Anéis’, ‘Gênio Indomável’, ‘Shakespeare Apaixonado’, dentre outros filmes aclamados pela critica e publico.

Após a publicação da matéria, o produtor foi denunciado por mais de 80 mulheres que apontaram como autor de algum tipo de má conduta, variando entre abusos psicológicos a casos de estupros. Entre essas mulheres, nomes importantes como Angelina Julie, Gwyneth Paltrow, Cara Delevingne e Rose McGowan também denunciaram Weinstein.

Um tuite da atriz Alyssa Milano feito no dia 15 daquele mesmo mês com a hashtag ‘MeToo’ (Eu também) incentivava mulheres vir a público e denunciar qualquer tipo de abuso sofrido ao longo da carreira. Nas primeiras 24 horas depois da publicação, mais de um milhão de casos caíram nas redes. O que aconteceu depois disso foi uma queda de grandes e intocáveis figurões do cinema que por anos, perpetuaram e normalizaram a cultura de abusos e estupros em Hollywood.



Mudanças

Durante esses cinco anos, pesquisas estão sendo realizadas para medir o impacto da campanha no setor cinematográfico. Entre os dias 21 de setembro e três de outubro deste ano, a organização sem fins lucrativos Women in Film – que busca pela equidade de gênero no setor – entrevistou 174 pessoas que trabalham ou já fizeram parte da área, a fim de avaliar se, de fato, ouve mudanças significativas.

Dos entrevistados 93,6% se identificaram como mulheres, 3,5% como homens e 2,8% não binários ou outros gêneros, 1,2% se identificaram como trans. 29% dos entrevistados se identificaram como pretos.

Infelizmente os dados coletados apresentaram poucas melhoras. 70% dos entrevistados dizem que a cultura em torno do assédio e abusos em Hollywood “melhorou um pouco” desde o movimento #MeToo, no entanto, 69% afirmaram ter sofrido pessoalmente algum tipo de abuso, e 30,9% souberam de casos envolvendo alguns de seus conhecidos. Entre os entrevistados negros, 55% relataram episódios de abusos ou má conduta no trabalho, pós-campanha.

A pesquisa também divulgou testemunhos anônimos de profissionais da área comentando o assunto. “Ainda [há] pequenas agressões aqui e ali. Os homens vão dizer: não me denuncie, mas... e depois vão dizer algo inapropriado. É como se todos soubessem, mas optam por brincar com limites”, comenta uma das entrevistadas. Outra observou o seguinte: “Tenho que usar regulamente minhas experiências para explicar aos homens porque certas ações são inadequadas e como as mulheres ainda não são tratadas com igualdade”.

Na prática

Após prisão e condenação de dezenas de profissionais da área - além de 
Weinstein -, também houve um número alto de cancelamento. Ainda que boa parte dos acusados provasse inocência ante o tribunal – maioria alegando consentimento das vitimas, em relação aos abusos – poucos sobreviveram à esteira do cancelamento, e foram obrigados a se aposentarem ou mudar de área. Além disso, processos judiciais envolvendo grandes nomes do cinema correm soltos nos tribunais e números de vítimas e acusados aumenta a cada ano, efeito contínuo do movimento ‘MeToo’.


LEIA MAIS: 
The Morning Show | O caminho para a denúncia do abuso sexual no ambiente de trabalho

Paralelo a isso, cresce a diversidade de gênero na academia americana: o aumento das mulheres no setor em cargos de liderança pode ser considerado consequências da campanha. Outra consequência positiva impulsionada pelo movimento é o aumento dos profissionais Coordenadores de Intimidade, uma das áreas que mais cresceu nos últimos anos em Hollywood.

Uma das funções desse profissional é supervisionar as gravações de cenas de sexo e nudez, garantindo respeito e condições de consentimento. O profissional acessa o roteiro e faz reuniões diárias com atores e diretores para escolher a melhor forma de fazer cenas íntimas. O coordenador também se torna uma espécie de confidente do ator, caso ele não queira fazer determinada cena por evocar algum trauma, o coordenador toma as devidas providências.

 

Outras mudanças vieram através de criações de instituições e órgãos de assistência à vitimas de abusos e assédios no setor. Ainda em 2018 foi criado pelo sindicato de atores da indústria dos cinemas americano o Código de Conduta sobre Assédio Sexual. E em 2019 nasceu o movimento Time´s Up, considerado um divisor de águas na história de Hollywood.

Fundado por 300 mulheres – maioria vítima de Weinstein 
o movimento criou um fundo que levantou mais US$ 22 milhões e ajudou cerca de 4.000 vitimas. Também vem buscando mudanças concretas quanto à disparidade de gênero e desigualdade salarial no setor em relação a homens e mulheres.

No mundo

Em 2020 foi criado o ‘MeToo Brasil’ – associação voluntária formada por homens e mulheres, com o objetivo de dar suporte as vítimas, identificar e denunciar agressores. Por aqui, o movimento já nasceu desprendido da área do cinema, buscando abraçar as camadas mais pobres e vulneráveis da sociedade – algo comum por onde a onda passou fora dos EUA.

Como todo grande movimento, o ‘MeToo’ caiu em contradições várias vezes. Recebeu críticas de conservadores a liberais, e até mesmo de algumas feministas que julgam o movimento autoritário, pois, segundo elas, o movimento define o gênero agressor como masculino, quando também há casos de abusos praticados por mulheres. Ainda assim, não hú duvida quanto à relevância e contribuição para a erradicação da cultura de estupro na área do entretenimento em todo mundo.

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