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07/06/2024 às 15h31min - Atualizada em 26/05/2024 às 21h03min

Cantando em Planos: Notas sobre o Cinema Musical

Atenção, caro leitor: recomenda-se a leitura na companhia de uma boa música. (P.s: 'All That Jazz' é uma boa pedida)

Maria Eduarda Torres Cavalcanti - Revisado por Paola Pedro
(Foto: Reprodução / UOL)

Apagaram-se as luzes. As prosas corriqueiras, pouco a pouco, emudeceram. À frente, a grande tela se posta, imponente, pronta para nos capturar com seu espetáculo de imagens em movimento. E, como numa prece silenciosa, é preciso crer para ser inundado pelo encanto: para que o cético converta-se em sonhador e para que a fantasia lave o cinza da realidade. 

 

Em uma das minhas idas ao cinema, num dia perfeitamente típico, a tela se iluminara como de costume. Meu olhar, instintivamente, buscava pelo letreiro convidativo que anunciara a película da vez. Passaram-se uns segundos e nada. A câmera nos levara à uma situação rotineira — e que faz tantos, assim como eu, sentirem o sangue ferver: uma rodovia tomada por um congestionamento infernal. Fazia calor em Los Angeles, mas nem mesmo o mormaço sobre as latarias de metal parecia abalar os ânimos dos cidadãos. Muito pelo contrário: era quase como se estivessem em transe. 

 

Até que se ouve alguém cantarolar e, em segundos, todos ali presentes se sentem impelidos a continuar a cantoria. A música, enfim, começara a orquestrar sua magia e em uma manhã qualquer, vemos a cidade das estrelas ser apossada pelo ritmo e brilhar para todos aqueles que sonham. Brilhar, como nunca antes, para Mia Dolan (Emma Stone), aspirante à atriz, e Sebastian (Ryan Gosling), pianista que almeja abrir o próprio clube de jazz. 

 

Era janeiro de 2017 quando Damien Chazelle, cineasta de Whiplash: Em Busca da Perfeição fez cintilar os olhos da crítica com o trabalho mais espirituoso que já havia feito: o musical ‘La La Land: Cantando as Estações’, que já atingira marcos notáveis às vésperas do Oscar, sendo indicado a treze das quatorze categorias da premiação: feito reproduzido somente duas vezes na história, com as produções ‘Titanic’ (1997) e ‘A Malvada’ (1950). O ato de amor colorido, agridoce e, sobretudo, charmoso de Chazelle — ao jazz e aos clássicos — acompanha os encontros e desencontros dos personagens de Stone e Gosling enquanto não se deixam ser engolidos pela dureza do cotidiano. 

 

Com performances sublimes e uma montagem caprichosa que fez La La Land, curiosamente, chegar próximo à perfeição, o musical entregou ao público o vislumbre de anos áureos, em que produções musicais estavam sob os holofotes da indústria hollywoodiana. Tempos em que as telas eram regidas por canções bem coreografadas e pelo uso do Technicolor, um dos mais populares processos de colorização de filmes. Os clássicos Mágico de Oz’ (1939) e ‘Cantando na Chuva’ (1952) foram os primeiros do gênero a desfilar pela trilha de tijolos amarelos do estrelato. 

 

Luz, Câmera e… Música!

 



Dos anfiteatros gregos aos palcos primorosos da Broadway, é fato — e até, esperado — que as peças musicais, populares como eram e influentes como ainda são, veriam, na transição do cinema mudo para o cinema falado, uma oportunidade de alçar vôos mais altos. A primeira leva de produções da chamada “era de ouro” dos musicais, que se estendeu da década de 30 até o final dos anos 60, mantinham boa parte das características teatrais: a predileção por planos gerais, cenários e trocas de figurino limitados e “paradas para cantar” em meio às cenas, com direito à dança e, especialmente, o sapateado. 

 

É interessante pontuar, também, que obras como ‘Amor Sublime Amor’ (1961)’ — que recebera uma adaptação assinada pelo igualmente sublime, Steven Spielberg, em 2021 — e ‘A Noviça Rebelde’ (1965) surgem como escapismo para a sociedade da época, que enfrentara dois dos períodos mais cinzentos da história: a Crise de 1929 e a Segunda Guerra Mundial. A trama dos amantes desafortunados Tony (Richard Beymer) e Maria (Natalie Wood) em meio à disputa de gangues e o clássico otimista da família Von Trapp conquistaram, em seus respectivos anos, as estatuetas de Melhor Filme e Melhor Trilha Sonora. 

 

Além disso, os musicais foram responsáveis por projetar nomes como Julie Andrews, imortalizada ao dar vida à babá com poderes mágicos em ‘Mary Poppins’ (1964), e a porto-riquenha Rita Moreno: a primeira mulher latina a ganhar um Oscar. 

 

Com ou sem guarda-chuva, enganam-se aqueles que resumem o gênero à cabeleiras laqueadas e finais felizes. Em algum lugar além do arco-íris, o casal Brad (Barry Bostwick) e Janet (Susan Saradon) partem em uma viagem de carro para anunciar seu noivado a um amigo em comum. Um pneu furado e uma tempestade, no entanto, leva os namorados ao interior de um castelo macabro: um antro de esquisitices que nada se comparam com o seu anfitrião, o travesti-cientista Frank n Furter (Tim Curry).

 

O ponto alto de The Rocky Horror Picture Show (1975) — além de, claro, a atuação de Tim Curry que é quase tão hipnótica quanto sua desenvoltura na cinta-liga — é o atrevimento: na contação da história, repleta de referências bem humoradas à filmes de baixo orçamento e que não obedece às regras clássicas do(s) gênero(s) cinematográfico(s) e, principalmente, na libertação do jovem casal das convenções sociais, comumente espelhadas nas películas hollywoodianas. Enquanto Brad abandona sua masculinidade, por vezes associada à hostilidade e dominância, Janet se vê, pela primeira vez, na condição de explorar o prazer de seu próprio corpo.

 

A grande pulsão dos musicais que tanto fascina seus admiradores é a capacidade de se desprender da realidade. Deslumbrar-se com um mundo em que tudo é possível é como sonhar acordado — e a fuga, muitas vezes, ajuda a sobreviver. É o caso de Selma Jezkova, uma imigrante tcheca e mãe solteira que trabalha, incansavelmente, numa fábrica metalúrgica nos Estados Unidos. Em ‘Dançando no Escuro’ (2000), acompanhamos Selma na árdua jornada de conciliar os cuidados de seu filho Gene, de 12 anos, o emprego e seus ensaios no teatro. A paixão pelos musicais hollywoodianos lhe dá fôlego para enfrentar a cegueira hereditária e degenerativa que, pouco a pouco, consome seus dias.  

 

É difícil pontuar o que há de mais esplêndido: a atuação magistral de Bjork, cantora islandesa, que mergulha profundamente nos lapsos de esperança e amarguras de Selma, ou os números musicais habilmente construídos. A personagem de Bjork está sempre em descompasso entre o seu mundo de sonhos e o cotidiano esmagador que, inevitavelmente, se encontra, sem nunca pertencer por completo a nenhum deles. O design de som consegue capturar essa dualidade caótica no contraste entre o vocal angelical de Selma e o rangido metalizado das máquinas. O desequilíbrio é proposital e o longa, que conta com uma das cenas finais mais devastadoras já vistas, é avassalador do início ao fim. 

 

Seguindo por estradas mais sombrias, como a paixão obsessiva do maestro-fantasma Erik pela jovem corista Christine no romance de Gaston Leroux, o diretor Tim Burton, conhecido pelos seus flertes com a ficção gótica, entrega no longa-metragem ‘Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet’ (2007) o retrato pálido de uma Londres jogada às traças, corrompida pela imundice e pela maldade humana. Nela, está o barbeiro Sweeney Todd (Johnny Depp) — o qual, outrora, foi Benjamin Barker — que, após ser preso injustamente e perder sua esposa e filha, retorna do exílio em busca de vingança. 

 

A caracterização dos personagens — aqui, abre-se um parêntese à Depp, o qual tanto remete, esteticamente, à Edward Mãos de Tesoura —, a montagem e os números musicais dão corpo à trama, que é por si só, tão densa de digerir quanto às tortas engorduradas da senhora Lovett: para o prazer de Burton. 

 

O Show Deve Continuar

 



A contragosto da crítica e numa investida audaciosa contra às franquias milionárias de heróis, as produções musicais vem retornando timidamente ao itinerário hollywoodiano a partir de uma fotografia caprichosa e coreografias deslumbrantes, a citar o sedutor 'Chicago' (2002) onde Catherine Zeta-Jones e Reneé Zellweger respingam jazz, pólvora e rouge pelos confins de uma das cidades mais perigosas dos Estados Unidos, e o majestoso ‘Os Miseráveis’ (2012), onde Hugh Jackman — ator cuja veia musical retorna anos à frente, ao lado de Zendaya e Zac Efron, como o maestro de um picadeiro em 'Rei do Show' (2017) e Anne Hathaway dão vida ao ex-prisioneiro Jean Valjean e Fantine, que vivem sob os destroços de uma França rechaçada pela desigualdade social. 

 

Baseado no romance homônimo de Victor Hugo, publicado em 1862, o longa-metragem de Tom Hopper leva mérito pelas performances musicais — em especial, o ato brilhante de Anne Hathaway ao derramar toda a dor de sua personagem nos versos de ‘I Dreamed a Dream—, primordiais para a condução da história, e a direção de arte: irretocável dos cenários aos figurinos.  

 

Mas é com o audacioso ‘Moulin Rouge: Amor em Vermelho’ (2001) que o australiano Baz Luhrmann encanta as boas e más línguas com uma produção — espetacular, diga-se de passagem — que seduz tanto os amantes do gênero quanto àqueles não muito chegados ao cinema musical. Ambientado em terras parisienses da Belle Époque, a câmera, em constante estado de frenesi, nos leva à Moulin Rouge, o antro de boêmios onde nasce o caso de amor proibido da cortesã Satine (Nicole Kidman) e do poeta Christian (Ewan McGregor). 

 

Além da montagem e dos movimentos de câmera esculpirem cenas que são um verdadeiro deleite aos olhos, as performances musicais — que contam, inclusive, com a interpretação de músicas já conhecidas pelo público para estabelecer certa familiaridade com a obra — são sublimes. O ato de Ewan McGregor consumido por um ciúme ardente na interpretação de ‘El Tango de Roxanne’ é digno de aplausos.

 

Na cena de abertura da mais recente realização de Paul King, diretor de ‘As Aventuras de Paddington’ (2014), o ator franco-americano Timothée Chalamet encanta o público ao dar vida e voz a um jovem chocolateiro de sobretudo vermelho surrado e com um punhado de sonhos na cartola. Consolidando-se como a adaptação mais doce do livro infantil de Roald Dahl, o longa-metragem ‘Wonka’ (2023) segue na direção contrária de seus antecessores. Ao invés de acompanharmos o renomado chocolateiro guiar cinco crianças em um passeio pela sua fantástica fábrica, assistimos o jovem Willy — sonhador como Charlie Bucket fora — na saga de abrir sua própria loja e conquistar o mundo, pedaço por pedaço, com suas invenções deliciosas. 

 

A surpresa de Wonka não para, somente, na atuação esplêndida de Timothée Chalamet — conhecido por suas performances dramáticas e, bem menos coloridas, de ‘Adoráveis Mulheres’ e ‘Duna’ —  como também inclui a decisão moralmente questionável de esconder de seu material promocional, principalmente os trailers, o fato de que o longa-metragem se trata de um musical. As produções ‘A Cor Púrpura’ (2023) e ‘Meninas Malvadas’ (2024) também seguiram pelo mesmo caminho do excêntrico chocolateiro. 

 

A abordagem, também interpretada como um ato de má fé para com os espectadores, nos leva a seguinte pergunta: o que tem a se envergonhar os filmes musicais? Não seria mais lógico — e honesto, ao menos — optar por uma escolha mais comercial do que mascarar a natureza de um gênero? Há quem estufe o peito para dizer que a realidade pregada pelos musicais é impraticável. Oras, se não fosse desse modo, que magia teria? Sacrificar os musicais à razão também implica renunciar às obras de super-heróis e batalhas interestelares, onde o sonho corre livremente, regido pelas suas próprias crenças, sem tentativas constantes de arrancá-lo pela raiz.

Que censure tudo: rodopiar postes em dias de chuva, viver casos de amor nas ilhas gregas e cantar a plenos pulmões em montanhas arborizadas. Mas que não se proíba brindar à esperança de dias melhores e saborear cada cifra de um mundo de pura imaginação, longe dos respingos do cotidiano. Diante da grande tela, somos felizes de novo: ávidos para que os sapatinhos de rubi ainda nos sirvam e para que sonhemos, uma vez mais, com algo além do arco-íris.

 

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