02/09/2019 às 20h51min - Atualizada em 02/09/2019 às 20h51min

Encceja: rostos e histórias

A Educação de Jovens e Adultos abriga nomes, sobrenomes e histórias de desigualdades e superação

Alan Magno e Ariel Vidal - Editado por Mário Cypriano
Crédito: Mídia Rondônia, usada no site Diário Amazônia

No Brasil, dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) mostram que 52,6% da população de 25 anos ou mais não completaram a educação escolar básica e obrigatória em 2018. Isso equivale a 70,3 milhões de pessoas. A pesquisa também revelou que no ano passado, 11,8% dos jovens nesta faixa etária estavam fora da escola. Atualmente, no Brasil, cerca de 2,8 milhões de pessoas na faixa etária de 15 a 17 anos abandonam os estudos todos os anos. Os dados são de um levantamento feito pelo Instituto Ayrton Senna divulgado em 2017. 


Fonte: PNAD - IBGE; Infografia por Alan Magno

 

Conforme os dados da pesquisa do PNAD, os motivos alegados pelas pessoas se referiam ao trabalho que iriam começar ou que estavam procurando (39,7%), não ter interesse em estudar (20,1%), ou por ter que cuidar de afazeres domésticos ou pessoas (11,9%). No entanto, os motivos relacionados ao trabalho foram mais frequentes para os homens (49,4%) do que para as mulheres (28,9%). Inclusive o resultado também mostra que os homens que alegaram não ter interesse em estudar para pagar as despesas (24,2%) foi maior que o das mulheres (15,5%) e ambos no mesmo patamar financeiro. 

 

“Há um grande contingente de jovens e adultos que não tiveram a oportunidade de concluir seus estudos na época de idade correta, esse contingente precisa, tem necessidade de ser formado academicamente”, destacou a pedagoga e especialista em educação de jovens e adultos, Jerda Holanda. Para a professora a formação de tais pessoas é uma questão de preocupação social e que deve ser melhor abordada em nossa sociedade, pois, segundo ela “há um ‘fechamento de olhos’ para essa população”. Ela critica a carência de políticas públicas de incentivo a volta à escola por meio dos Centros Educacionais de Jovens e Adultos (CEJAS), na visão da professora falta divulgação sobre as possibilidade de retorno e do trabalho dos CEJAS. “Falta de um trabalho diferenciado com esse público de jovens e adultos que gera uma desmotivação ou até mesmo uma procura mais insignificante”, completou.
 

 

TRABALHAR PARA SUSTENTAR A FAMÍLIA

 

Independente do nível escolar, o fator de maior expressividade dentro os que levam o jovem estudante ao abandono das salas de aula é a necessidade de trabalhar. A tendência de evasão por volta dos 16 anos expressa o principal motivo de afastamento da escola: a necessidade que os jovens sentem de começar a trabalhar cada vez mais cedo. Foi o que aconteceu com a jovem Débora Nascimento, na época em que estava cursando o ensino médio, e também a realidade de Melquisedec Rodrigues, 51 anos, pintor de construção cívil que parou de estudar aos 12 anos, alegando que não tinha muito interesse em estudar. “Eu não queria estudar, parei na 1ª série, depois eu comecei a trabalhar e o tempo se tornou curto. Eu tentei voltar, mas abandonei várias vezes”, declarou.

 

Para retornar à escola, anos depois, Débora recorreu ao Centro Educacional de Jovens e Adultos (CEJA) no município de Maracanaú, região metropolitana do estado do Ceará. Ela conta que sem o Ceja e o apoio dos professores e amigos que fez no curso, jamais teria conseguido retomar a escola ou mesmo concretizar o sonho de ter uma graduação no nível superior. “Eu sempre pensei em fazer faculdade sabe. Mas era algo muito distante pra mim que tinha que trabalhar para ajudar em casa. Não dava pra pagar uma (faculdade) e passar na UFC era impossível na minha cabeça, mas eles me convenceram a tentar e deu certo!”, afirmou.


Débora Nascimento em sua formatura na Universidade Federal do Ceará / Foto: Arquivo Pessoal.
 

Débora cursou o ensino médio no Ceja de Maracanaú e conseguiu sua aprovação no curso de Engenharia de Alimento no ano de 2010, na Universidade Federal do Ceará (UFC) e, atualmente com 28 anos é Mestra em Engenharia Química. Ela desabafa relembrando sua trajetória de superação, “Quando você vai fazer Ceja, em regra geral, é porque muita coisa deu errado em algum momento. A maioria das pessoas chegam lá em uma situação delicada… no meu caso foi assim, e eu encontrei na coordenação e nos professores uma fonte de apoio pra mim”.

 

Para a engenheira, os Cejas são fundamentais como transformadores sociais, na visão dela, em muitos casos os centros conseguem fornecer uma perspectiva de futuro, incentivando os alunos a buscarem o melhor para si mesmos, lhes dando um propósito e dignidade. Nesse sentido, Débora cobra mais investimentos por parte do governo na Educação de Jovens e Adultos e critica aqueles que se portam com preconceitos diante dos alunos do EJA. “As pessoas acham que quem vem do ceja não sabe de nada, que não quis estudar, essas coisas... Eu diria pra eles melhorarem como pessoas, porque isso de estigmatizar as pessoas é tão pequeno, cada um tem suas especificações e mesmo com elas todos podem dar seu melhor e conseguir tudo que querem!”

 

    É com esse sentimento de luta e desejo por transformação que mais de um milhão e meio de brasileiros frequentavam ativamente o sistema de ensino de jovens e adultos no país no ano de 2018. Os dados são do IBGE e além de comprovar a busca dessas pessoas pelo retorno às salas de aula, revela também as desigualdades presentes na educação brasileira. Segundo o levantamento, com relação aos alunos que buscavam concluírem o ensino fundamental, a porcentagem de negros (73,7%) era cerca de 50% maior do que a porcentagem de pessoas brancas nessa mesma condição (25,3%).

 

Com relação ao gênero dos alunos que buscavam concluir o ensino médio por meio do EJA, as mulheres representavam 54,9% dos mais de 830 mil alunos, cerca de 10% a mais do que os homens. Conforme a pesquisa, a segunda maior causa de afastamento escolar é a necessidade de ficar em casa cuidando de familiares doentes ou crianças; os dados do IBGE revelam que essa realidade é maior para as mulheres. 

 

RESPONSABILIDADE DUPLICADA

 

Essa foi a realidade vivida por Helen Silva, 21 anos, mãe de dois filhos. Ela conta que parou de estudar na sétima série e que ao tentar voltar para a escola enfrentou dificuldades para concluir o ensino fundamental, pois já tinha começado a trabalhar e havia se tornado mãe. “Depois que conclui o ensino fundamental, eu tentei retornar várias vezes para completar o ensino médio, mas eu não consegui voltar mais para a escola, pois eu comecei a trabalhar e tive meus filhos, então a dificuldade foi aumentando. Eu precisei trancar a matrícula da escola, pois não tinha ninguém para ficar com meus filhos.” 

 

Histórias como a da Helen são recorrentes no Brasil. A pesquisa do IBGE mostra que as regiões mais propensas a ter maior número de nascimentos são: Região Norte (85,1) bebês para cada mil mulheres de 15 a 19 anos, no Sudeste (45,6), no Sul (45, 4 por mil) e no distrito Federal (38,6). Sendo o Acre o maior número de fecundidade, (97,8) nascimentos por mil adolescentes. Segundo dados do IBGE, o Brasil tem 68, 4 bebês nascidos de mães adolescentes em cada mil meninas de 15 a 19 anos, diz do relatório da Organização Mundial da Saúde. Por mais que recentemente tenha ocorrido uma queda no número de meninas grávidas na adolescência, ainda é alto o índice de nascimentos na juventude. O Brasil está acima da média da América latina, estimada em 65,5. No mundo, a média é de 46 nascimentos a cada mil.


 

Helen Silva e seus dois filhos em sua casa / Fotos: Arquivo Pessoal.
 

Helen relembra que gostava bastante dos professores do EJA, pois ajudavam muito os alunos. Mas ela conta que para fazer a prova do Ecceja não teve o apoio de ninguém. Mesmo assim, não desistiu de ir em frente e se inscrever. “Eu quero concluir o ensino médio para conseguir um emprego melhor, e não ficar tantas horas no trabalho. Lá no íntimo também penso em fazer uma faculdade de Administração, por isso eu quero terminar os estudos.” 

 

TIRANDO O ATRASO

 

A prova do Encceja ocorreu em agosto, onde o candidato pode acompanhar o portal. Essa prova tem o objetivo de avaliar as competências do candidato para certificá-lo no ensino médio, representando para milhões de brasileiros a esperança de conseguir uma transformação em suas vidas por meio da educação. Pessoas como Beatriz Paulo, 21 anos, estoquista que parou de estudar no 1º ano do ensino médio quando se mudou do Rio de Janeiro para São Paulo e começou a trabalhar. Ela relata que, ao se inscrever para a prova do Encceja, já recebeu o material de estudo. “É muita coisa para gravar, a gente tem que estudar muito e se esforçar, pois só assim conseguiremos ser alguém na vida. Mas tem dia que o cansaço me vence, mas o importante é não desistir.” 

 

Realidade também vista pela professora cearense Jerda Holanda, que reforça, “o que eu sempre costumo observar, que é mais recorrente é a questão do cansaço, chega um momento em que a carga de trabalho é tão grande que o aluno prefere ir pra casa descansar”. A professora também comentou que, além do cansaço físico e emocional, existe uma grande desmotivação do aluno, já que ele não consegue acompanhar as aulas regulares, pois precisa se dedicar ao trabalho, ou mesmo, como a pesquisa apurou, se dedicar a trabalhos domésticos, principalmente aos cuidados de pessoas idosas, enfermas ou recém nascidas.

 

Segunda a especialista, a formação de tais pessoas é uma questão de preocupação social e que deve ser melhor abordada em nossa sociedade, pois “há um ‘fechamento de olhos’ para essa população”. Ela critica a carência de políticas públicas de incentivo a volta à escola por meio dos Centros Educacionais de Jovens e Adultos (CEJAS). Na visão da professora, falta divulgação sobre as possibilidade de retorno e do trabalho dos CEJAS. “Falta de um trabalho diferenciado com esse público de jovens e adultos que gera uma desmotivação ou até mesmo uma procura mais insignificante”, afirma. 

 

“Há uma carência, por exemplo de recursos pedagógicos que permitam o ensino mais dinâmico, falta uma capacitação dos professores para trabalhar nessa faixa etária, eu acho que existe uma preocupação muito forte com o ensino médio, com o ensino profissionalizante, que o ensino noturno, de jovens e adultos fica a margem das políticas públicas da secretaria de educação”, completou Jerda. Apesar das dificuldades e da realidade adversa, a pedagoga destaca que, no geral, os alunos do sistema de ensino de jovens e adultos, seja nos CEJAs ou na modalidade noturna, o EJA, ou ainda aqueles que tentam a prova por conta própria, merecem a chance de retornarem ao ambiente escolar, aprimorando seus conhecimentos para uma melhor inserção na sociedade, com melhores condições de vida. Para a especialista, a formação acadêmica representa, dentre outras coisas, uma forma de garantir a dignidade desses brasileiros, reforçando que todos os alunos do EJA tem um grande desejo de aprender. “É um público bastante disponível no sentido de disponibilidade para aprender, embora tenham muitas dificuldades”, concluiu. 

 

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