05/09/2019 às 14h39min - Atualizada em 05/09/2019 às 14h39min

Assédio sexual no transporte privado

Quando o assunto é locomoção, segurança é o fator que mais preocupa as mulheres

Rosivaldo Vitorino - Editor: Ronerson Pinheiro
Foto/Reprodução: G1/Mulheres pedem por respeito durante protesto em SP
Segundo dados de uma pesquisa do Instituto Patrícia Galvão o transporte por aplicativo aparece como o meio mais seguro para se usar durante o dia ou à noite na opinião de mulheres. Ainda que o surgimento de alternativas de mobilidade tenha melhorado a capacidade de locomoção das mulheres, deslocar-se com segurança continua sendo um desafio para a grande maioria.

Ana Carolina jamais vai esquecer aquela noite ao em embarcar em carro de aplicativo. A jornalista estava retornando de um aniversário em um bar no centro de Recife/PE quando decidiu voltar sozinha. “Eu entrei no carro e não tinha bebido. Assim que embarquei o motorista me elogiou dizendo que era bonita, começou a puxar assunto sobre o que eu fazia na vida e aquilo foi ficando desconfortável. Foi aí que ele colocou a mão na minha perna. Ao perceber o início do assédio, pedi que parasse pois iria descer. Quando cheguei no destino, o mesmo disse que eu não desembarcaria e iria para casa dele. Fiquei desesperada, pois começou a andar com carro meio devagar e eu estava presa querendo sair, mas consegui me desvencilhar com o veículo em movimento”, explica, Ana.

Ao chegar na casa de um amigo, a jornalista conta que entrou em contato com a Uber reportando o que havia acontecido. Para a empresa, o motorista explicou que a passageira havia esquecido um objeto no interior do veículo para assim, ter acesso ao número de telefone dela. “Ele ficou ligando para que não fizesse nada contra ele ou lhe denunciasse. A Uber foi muito solícita com o caso, mandei mensagem e eles me retornaram em menos de meia hora me ligando para saber do acontecido. Reportei toda a história. Me ofereceram assistência psicológica e ficaram me ligando por um bom tempo para saber como estava me sentindo me encorajando a prestar queixa na polícia. Mas acabei deixando para lá, estava muito abalada e só queria que aquilo passasse logo”, conta.
Nós entramos em contato com a assessoria da Uber Brasil para um posicionamento da empresa em relação ao caso e aguardamos um retorno.

Medo no transporte

Um levantamento do Instituto Patrícia Galvão e Locomotiva Pesquisa e Estratégia, realizado para o portal G1, ouviu 1.081 usuárias do transporte público/privado e revelou que 47% não se sentem confiantes ao usar esses meios sem sofrer algum tipo de assédio sexual. E os números não param por aí. 71% conhecem alguém que já passou por situação igual ou semelhante e 97% das mulheres já sofreram abusos em meios de transporte.

Jacira Melo, diretora executiva do Instituto Patrícia Galvão, ressalta a importância de não apenas aplicar leis que criminalizem o assédio sexual, e sim, possuir medidas preventivas nos meios. “É preciso desenvolver políticas e mecanismos para prevenção, garantir que as brasileiras possam se sentir seguras ao exercerem seu direito de ir e vir garantindo-lhes também seu direito a uma vida sem violência. Para as mulheres que em sua maioria estudam e trabalham fora de casa, a segurança no deslocamento é uma questão essencial”, diz.


Editora-chefe: Lavínia Carvalho 

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