07/09/2019 às 18h26min - Atualizada em 07/09/2019 às 18h26min

Envelhecimento do mercado de trabalho: número de trabalhadores ativos com mais de 40 anos aumentou, aponta estudo

Fatores como inversão da pirâmide etária, aposentadoria tardia e recessão econômica são essenciais para entendimento do fenômeno

Ylanna Pires - Editado por Rodrigo Salgado
Reprodução/Associação Gaúcha de Municípios
O último balanço sobre mercado de trabalho realizado pela Pesquisa Nacional de Amostras por Domicílio (PNAD) demonstrou que o número de trabalhadores ativos com mais de 40 anos aumentou no segundo trimestre de 2019 se comparado ao mesmo período no ano passado. O total de pessoas ocupadas em 2018 era de 90.941 milhões de brasileiros, passando neste ano para 93.342 milhões. Do aumento de 2.401 milhões de cidadãos ocupados, pelo menos 1.589 milhão estão acima dos 40 anos.

Para o professor de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Mauro Rochlin, esse fenômeno pode ser atribuído às questões de inversão na pirâmide etária e à aposentadoria tardia.
“A pirâmide etária do Brasil é uma pirâmide transitória. É adulta, com a maioria das pessoas entre 20 e 59 anos e está envelhecendo. Essa é a tendência. Esse número também afeta a população economicamente ativa, que tem relação direta com o fato de estarmos vivendo mais e nos aposentando mais tarde”, explica.

O economista também destaca que a experiência hábil no mercado e a não necessidade do treinamento desses profissionais tem chamado a atenção dos empregadores. “Para o mercado, principalmente em tempos de crise e desemprego em massa, é necessário cortar custos. Um profissional mais velho não apenas significa mais tempo hábil de mercado, como também dispensa, na maioria das vezes, a necessidade de um treinamento maior”, completa Rochlin.

Informalidade e precarização
Apesar de os dados serem relativos a este ano, o processo de envelhecimento do mercado de trabalho vem ocorrendo há pelo menos 7 anos. Segundo relatório da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), de 2013 a 2017 o número de pessoas de 40 a 65 anos pleiteando vagas de emprego aumentou 43%, subindo de 484 mil brasileiros, para 649,4 mil.

A precarização e a informalidade também são fatores que acompanham esse processo. De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), o índice de trabalhadores próximo a terceira idade com carteira assinada corresponde apenas a 26,6% do total nesse segmento.

Para a Secretaria do Trabalho e Rendimento do IBGE, o cenário de aumento no número de trabalhadores ativos com mais de 40 anos deve-se a "falta de renda e a precarização do trabalho". Para custear despesas pessoais e com a família, muitos adultos até 59 anos que passaram por processo de desemprego reingressam no mercado de trabalho sem tantas exigências e acabam por aceitar funções precárias ou de subocupação.
 
Trabalho depois dos 40 e saúde mental

Maria das Graças, de 49 anos, é um dos exemplos de pessoa acima dos 40 que estão à procura de realocação no mercado. Desempregada há quase 4 anos, a ex-atendente de telemarketing foi contratada em 2019 para trabalhar como assistente de serviços gerais em uma empresa terceirizada.

“Quando consegui o trabalho fiquei muito feliz. Não era no que eu estava acostumada a fazer mas era o suficiente para bancar minhas despesas e das crianças. A vaga falava de carteira assinada e, para mim que tenho pouco tempo de contribuição e já estou quase na casa dos 50, era o ideal”, relata.

A surpresa da então contratada veio quando a admissão não efetivou-se na carteira, mesmo depois de três meses de serviços prestados. “Eu estava lá há três meses, não me falaram sobre período de experiência, não me pagavam o salário combinado e nem citavam quando iam assinar a carteira. Essa situação foi me adoecendo, fui trabalhando infeliz por mais um dois meses, até que não aguentei e larguei. Pensam que porque você está envelhecendo seu serviço vale menos que o de alguém jovem”, conta.

O sentimento ilustrado por Maria das Graças faz parte do que a FGV e o economista Marcelo Neri ilustraram no documento “Entendendo a economia da felicidade”, que retrata a relação entre insatisfação no trabalho, desigualdade e desemprego com a diminuição subjetiva da percepção de felicidade, que, por conseguinte, atinge a saúde mental dos brasileiros.
 
 
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