19/09/2019 às 15h56min - Atualizada em 19/09/2019 às 15h56min

Sobre poetas e suas independências

Um breve relato desses artistas que atuam nas ruas do Rio

Clarice Perrot - Editado por Socorro Moura
Sidney Machado
“Nem só de pão viverá o homem”, já dizia um dos profetas bíblicos. Mas parece que viver apenas de poesia é algo realmente possível. Sidney Machado, 30 anos, toma essa arte como sua única profissão. Na lotada Bienal do Livro, a última que aconteceu no Rio de Janeiro, em pé e com um sorriso no rosto, o poeta abordava o público para mostrar suas fanzines – pequenos livros encadernados de forma artesanal, contendo poesias e ilustrações feitas por ele.

Estar em eventos literários, culturais - como os do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) - e nas ruas, costuma ser uma parte importante do ofício para a divulgação de seus textos, já que ele não se utiliza das redes sociais para isso. Pela busca da liberdade, Sidney decidiu encerrar suas contas nessas plataformas. Diferente de seu colega Raphael Mozer, 35 anos, presente também na Bienal e carregava não só suas fanzines, mas outros livros de sua autoria. Além de poeta e escritor, Raphael é editor dos seus próprios textos, de outros artistas e mantém ativa sua rede social para reforçar a divulgação da arte que já pratica nas ruas.

Algumas das fanzines do poeta Sidney.

Algumas das fanzines do poeta Sidney.



Algumas das fanzines do poeta Sidney.

De publicar suas obras em grandes ou pequenas editoras não demonstram interesse. Raphael ressalta a dificuldade de adentrar esse mercado e Sidney prefere a liberdade da escrita e do estilo faça você mesmo. “A vantagem de ser poeta independente é a liberdade, a troca com várias pessoas, a resistência e a possibilidade de tomar a frente de todo o processo de produção, divulgação e venda dos livros e fanzines que escrevo. A desvantagem é que está mais difícil vender poesia. Porém a poesia sempre foi minoria. Tudo que é raro é minoria”, comenta Sidney.

Sobre a dificuldade nas vendas de poesias, até mesmo as grandes editoras enfrentam essa realidade. A figuração disso pode ser percebida pela lista de livros mais vendidos no Brasil que a Veja levanta semanalmente em seu site. No último censo, por exemplo, apenas dois volumes dos famosos Textos Cruéis Demais para Serem Lidos Rapidamente - poemas oriundos de postagens nas redes sociais - apareceram na 18ª e 20ª posição; enquanto o restante do ranking é formado majoritariamente por romances ficcionais estrangeiros.

Outra grande problemática não só para os poetas independentes, mas a todo artista que trabalha nas ruas, são as represálias passíveis de sofrerem. Sidney relata apenas um episódio ocorrido entre ele e um guarda municipal, no qual este acreditou ser o rapaz um distribuidor de panfletos. Além disso, a Lei 5.429/2012, popularmente conhecida como a Lei do Artista de Rua, consegue amparar os praticantes dessas atividades no Rio de Janeiro. Depois dela, um grande número de artistas, até mesmo os de fora, passou a encher as ruas da Cidade; mas para os poetas independentes o que não falta é espaço. “Tem uma galera que vende poesia; alguns na rua, outros no trem e até no metrô e em eventos em geral”, informa Sidney, que mesmo diante dos percalços da profissão, ele e seus colegas independentes não deixam a voz, em formato de texto poético, ser calada aos passantes das mais diversas vias públicas do Rio

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