03/04/2019 às 12h10min - Atualizada em 03/04/2019 às 12h10min

Síria: a política interna e os reflexos da guerra civil

Conceito de Estado, guerra civil e potências internacionais

Jéssica de Vasconcelos - Editado por Naryelle Keyse
André Roberto Martin, Maurício Santoro e Rodrigo Fernando Gallo
DIETER NAGL/AFP/Getty Images
A Primavera Árabe foi uma onda de protestos que se instalou no ano de 2011 em mais de dez países, no Oriente Médio, contra o governo do mundo árabe pedindo a deposição do presidente Bashar al-Saad para um regime mais democrata, consequentemente a repressão dos governos aos protestos transformou o conflito em uma guerra civil com repercussão internacional.

André Roberto Martin, professor titular do Departamento de Geografia da USP, diz que a guerra na Síria se tornou um corredor entre Irã, Líbano e Palestina em que Israel não aceitou esse vínculo e sem aparecer usando o Califado (ISIL ou Daesh) como escudo, manipulou junto à Arábia Saudita e Qattar para criar uma frente sunita contra o governo Alauítas de Assad.

Para Martin, o conceito de Estado do governo Bashar al-Saad pensando no campo ideológico o socialismo de tipo nacional do partido Baath e o seu pan-arabismo são inaceitáveis para o Ocidente e Israel porque implica no encarecimento (custo) do petróleo e na utilização do mesmo para o desenvolvimento nacional.

Se discute sobre as consequências das revoltas populares, estopim do movimento, forças envolvidas no conflito, potências mundiais, enfrentamento do terrorismo islâmico (EI), intervenção militar na guerra da Síria, situação política e controle do país, cujo regime é ditatorial.

Em 2018 o Observatório Sírio de Direitos Humanos afirmou que cerca de 511 pessoas morreram na guerra da Síria desde o início do conflito (2011).  Guerra essa que também é responsável pela maior crise humanitária devido as correntes migratórios ligadas à guerra civil fazendo com que as pessoas busquem como alternativa a imigração, portanto, será que um acordo de paz ou possivelmente a solução política como caminho para resolver o conflito, traria um governo de consentimento mútuo ou acabaria de vez com a guerra?

Ao conceder entrevista para o LAB DICAS JORNALISMO, Maurício Santoro, doutor em Ciência Política e professor do Departamento de Relações Internacionais da UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro, explicou sobre a solução política para resolver o conflito na Síria:
“No limite, toda guerra termina com um acordo político, mas o que a gente tem visto na Síria ao longo dos últimos 8 anos de guerra civil é que foi impossível chegar a qualquer tipo de negociação e a buscar qualquer tipo de consenso. A Síria se fragmentou em vários grupos armados e em vários grupos políticos diferentes que ao longo desses últimos anos (8) nenhum deles teve força suficiente para se afirmar como um único governo do país (única entidade controlando território) ”, afirma.

Ainda sobre a solução política para resolver o conflito, ressalta: “Dede 2011, em termos práticos foi simplesmente a violência organizada à fins políticos, mas sem que houvesse realmente a possibilidade de uma solução diplomática para o conflito e depois de tanto tempo o cenário que vem se desenhando é o cenário de uma vitória do governo al-Saad. Ele derrotou a maior parte dos seus oponentes, retomou o controle sobre as principais cidades do país e o que se avizinha no horizonte é a possibilidade de algum tipo de acordo que legitime essa vitória e que confirme a presença do Bashar al-Saad no governo”.

Diferentes potências mundiais estão cada vez mais envolvidas nos próprios interesses e envolvimento na guerra civil da Síria. Entre elas, EUA e Rússia, fazendo com que não tenhamos apenas rebeldes e jihadistas contra o regime do presidente Bashar al-Saad.

Segundo Maurício Santoro a Síria é o principal aliado da Rússia no Oriente Médio que tem sido uma relação importante há muitas décadas (desde a época da União Soviética) e essa Rússia que entrou em declínio depois da Guerra Fria tem na Síria a sua única base militar fora do antigo território da União Soviética. “É um parceiro político importante, relevante em termos de prestígio internacional, em termos de aliança militar é um aliado que os russos farão de tudo para proteger e ajudar. A Rússia tem um interesse nacional bastante definido com relação ao que ela quer na Síria:  Quer a vitória do al-Saad”.

No caso dos EUA a Síria nunca foi um aliado americano, mas também não foi propriamente um inimigo. Os EUA nunca lutaram uma guerra contra a Síria embora a Síria tenha lutado várias guerras contra Israel, que é um aliado dos EUA. “Há uma ambiguidade na relação americana com o governo al-Saad, se os americanos querem ou não que o governo al-Saad continue, houve algum apoio americanos à grupos um pouco mais moderados da oposição Síria; mas um apoio sempre muito marcado pelo medo de que esses grupos saíssem do controle ou que o apoio americano para eles acabasse caindo na mão de adversários mais radicais. E no fim das contas, o que realmente prevaleceu, ao longo desses anos de guerra civil, foi que a grande preocupação dos americanos era menos com quem vencesse aquela guerra e mais com a possibilidade de que o al-Saad usasse armas químicas, armas que destroem em massa contra a população Síria como ele fez em alguns momentos”.

Santoro, conclui: “Ocasiões em que os americanos realmente intervieram na guerra da Síria, bombardearam as instalações governamentais com uma preocupação maior com determinadas regras de como usar a força na política internacional do que propriamente um interesse nacional claro e definido sobre o que os americanos esperam da guerra da Síria”.

Em análise sobre o contexto político Santoro avalia que a sub valência custou muito caro para os EUA, entre outras razões, gerou um contexto de muita instabilidade que deu origem ao Estado Islâmico (EI), virando uma ameaça para os americanos, acompanhada de um contexto regional maior, no qual as políticas internas dos EUA para o Oriente Médio têm passado por uma sucessão de criveis — dificuldade — de lidar com as revoltas e guerras que tem abalado a região na década atual.

Para Rodrigo Gallo, cientista político e professor, é possível dizer que os Estados Unidos com a atual administração presidencial de Donald John Trump pensa no futuro da Síria sem o regime do Bashar al-Assad, porque desde que passaram a atuar na guerra civil, uma das principais propostas do país é derrubar Assad, considerado um ditador pelos norte-americanos. Ressaltando ainda que al-Saad é aliado russo — o único aliado da Rússia no Oriente Médio, então, trata-se de um conflito de interesses geopolíticos.

Martin, professor titular de Geografia da USP, diz que em relação aos EUA e Rússia na utilização da força militar contra a Síria houve um momento em que parecia iminente o combate entre soldados russos e americanos no céu da Síria, porém, a vitória de Trump, presidente dos EUA, impediu e transferiu o embate entre ambos à Venezuela.
Lembrando ainda que a Rússia tem um problema grave de enfrentamento de terrorismo islâmico na própria Rússia e a última coisa que os russos querem é o crescimento de grupos fundamentalistas no Oriente Médio que possam avançar o próprio território da Rússia.

“A discussão é que para manter o al-Saad no poder, a Rússia acabou atuando contra grupos rebeldes que a Turquia apoia e em alguns momentos houve uma discussão sobre qual era a verdadeira relação do governo al-Saad com o Estado Islâmico (EI), se eles estavam se apoiando mutuamente contra inimigos comuns, se havia uma certa tolerância dele com o EI e por isso esse tipo de acusação por parte da Turquia. Mas o grande objetivo Russo é manter um aliado chave no poder, no Oriente Médio”.

A Rússia interveio na guerra civil da Síria e conforme Maurício, ajudou al-Saad a se manter no poder e a combater os inimigos, além de retomar Alepo que foi a cidade economicamente mais importante da Síria. Já há alguns anos de uma intervenção que atingiu os objetivos políticos que a Rússia perseguia, ajudando o governo a, se não derrotar totalmente a oposição, pelo menos retomar o controle da maior parte do país.

André Matin, titular de Geografia da USP, complementa: “Russos e americanos tem posições diametralmente opostas: Para os EUA al-Saad é um ditador, assassino do próprio povo e para a Rússia trata-se de um governo legítimo lutando pela soberania de seu Estado”.

A atual situação desse conflito na Síria, considerando todo contexto histórico da guerra, impacta diretamente na situação política que, para Rodrigo Gallo, cientista política, o Estado Sírio flerta com a falência, principalmente, se precisar ser ocupado por forças estrangeiras para sobreviver. Mas por enquanto os indicadores internacionais ainda não colocam a Síria como Estado falido. Um bom indicador é o Polity IV. Se estivesse falido, apareceria uma linha tracejada preta em https://www.systemicpeace.org/polity/syr2.htm .

Gallo, acrescenta que a situação política da Síria é complexa principalmente porque há críticas internas e externas contra a atuação do presidente Bashar al-Assad. “Mesmo que ele consiga reaver o controle de todo o território — perdido para o Estado Islâmico — ele ainda é acusado de usar armas químicas contra a própria população, o que fere, inclusive, com convenções internacionais de guerra. Então a situação é complexa, e quem sofre é a população, que independentemente de qualquer coisa é quem se torna alvo de ataques de algum lado”, avalia.

https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/2017/03/internacional/551534-em-7-ano-conflito-na-siria-ja-e-a-maior-desde-a-2-guerra-mundial.html ; https://www.dinheirovivo.pt/internacional/siria-guerra-ja-custou-cerca-de-200-mmeuro-a-economia-siria-banco-mundial/ ; https://veja.abril.com.br/mundo/macron-e-merkel-pedem-a-putin-que-apoie-tregua-na-siria/ ; https://www.imagenesmy.com/imagenes/en-guerra-siriahambre-4f.html; https://veja.abril.com.br/mundo/macron-e-merkel-pedem-a-putin-que-apoie-tregua-na-siria/ ; https://foreignpolicy.com/2012/01/12/the-desperation-of-bashar-al-assad/
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