11/10/2019 às 18h52min - Atualizada em 11/10/2019 às 18h52min

Uma questão de cultura

O machismo, infelizmente, está enraizado na cultura brasileira há séculos e foi repassado por meio do aprendizado e da herança cultural, de geração em geração

Yorrana Maia - Edição: Lavínia Carvalho
de Tumisu por Pixabay
A cada duas horas uma mulher é assassinada simplesmente por ser mulher. A cada duas horas um homem mata uma mulher, geralmente sua companheira, para afirmar sua superioridade masculina. A cada duas horas uma amiga, uma irmã, uma filha, uma mãe são mortas por terem nascido em um país que não as protege.

Ser mulher no Brasil significa viver sobre constante medo de que a cada virada do relógio chegue sua hora. O paraíso tropical abençoado por Deus ocupa a quinta posição mundial entre os países com as maiores taxas de feminicídio. Segundo dados levantados pelo Atlas da Violência, em comparação entre os a2007 e 2017, houve um crescimento de 30,7% do número de homicídios de mulheres, apesar da criação da Lei Maria da Penha (2006) e da Lei do Feminicídio (2015).

Esses dados podem ser o resultado de uma preocupação recente com algo que há séculos ocorre sobre o solo brasileiro. Uma cultura machista que antes permitia por lei que o homem matasse sua mulher em caso de adultério (Código Penal de 1830- Ordenações Filipinas, Livro V), hoje se esconde no dia a dia, para ser revelada mais tarde em uma assombrosa estatística. As leis e as políticas públicas de combate à violência contra mulher são recentes e, por isso, se mostram insuficientes para enfrentar o machismo enraizado na cultura brasileira.

Neste contexto, a cultura é algo importante  a ser compreendido. No livro Cultura: um conceito antropológico, Roque de Barros Laraia diz que a cultura condiciona a visão de mundo do ser humano, funcionando como uma lente. “O modo de ver o mundo, as apreciações de ordem moral e valorativa, os diferentes comportamentos sociais e mesmo as posturas corporais são assim produtos de uma herança cultural”, segundo Laraia. Em outras palavras, o seu modo de andar, de vestir, de comer, de falar, de tratar o próximo é uma mera imitação de padrões que lhe foram ensinados.

A educação tem início dentro de casa, no âmbito familiar. Isso ocorre quando a mãe obriga a filha a ajudá-la nas tarefas de casa, mas não faz o mesmo com o filho; nos dias em que o pai permanece sentado no sofá, assistindo televisão e bebendo uma cerveja, enquanto a mãe prepara o almoço sozinha; nas reuniões familiares, onde as mulheres se reúnem em algum cômodo da casa, separada dos homens, e ambos os sexos parecem querer enfatizar uma distinção de comportamento. Tudo é repassado aos olhos e à mente de uma criança que ainda não aprendeu a ser homem ou mulher, mas logo irá agir como tal.

Dentro de casa, desse modo, aprende-se a ver o mundo pela lente de uma cultura machista. Os filmes, os programas de televisão, as músicas de repente parecem reproduzir os ensinamentos familiares. Se a criança aprende que o homem é o sujeito sexual e a mulher, o seu objeto, não há filtro moral que a impeça, ao crescer, de se identificar, gostar e até produzir conteúdo machista.

As músicas machistas são um exemplo desse conteúdo, não por elas apresentarem um dano cultural maior a sociedade do que filmes, novelas ou livros, mas por serem tão populares quanto chocantes- se vistas com algum filtro. O projeto feminista MMPB (Música Machista Popular Brasileira) talvez explique melhor o que quero dizer: “há quem ainda ignore, mas a música é um produto cultural que retrata e reflete o quanto nossa sociedade caminha a passos lentos com relação ao respeito à mulher enquanto indivíduo”.

O projeto digital reúne uma coletânea de músicas com a intenção de provocar reflexão, ao explicar o sentido por trás da letra. Dentre as selecionadas, encontram-se as músicas “Taca Cachaça”, do Mc Edy Lemond, que incentiva a embriagar a mulher para conseguir sexo ( “/taca cachaça que ela libera/”); “Casa amarela”, de Guilherme e Santiago, que mostra a perseguição doentia de um ex-namorado como demonstração de amor (“Tô passando na frente da casa amarela/ Se algum vizinho denunciar, a culpa é dela/ De ex-namorado agora eu tô virando suspeito”); a música antiga de Sinhô, “Jájá”, que faz apologia à violência contra a mulher (“Se essa mulher fosse minha/ Apanhava uma surra “já já”/ Eu lhe (a) pisava todinha/ Até mesmo eu lhe dizê ‘chega’ ”).

São inúmeros os exemplos de músicas funk, sertanejo, rap, samba com letras que ferem a integridade da mulher, a colocam em posição de submissão, tratando- a como objeto, fazem apologia à violência doméstica, entre tantos outros absurdos. Todos transmitidos ao ouvinte como algo natural, romântico até. No artigo A Naturalização da violência contra a Mulher na Música Popular Brasileira, o prof. Dr. Marcos Cordeiro Pires (Unesp) conclui, após pesquisar as “terríveis estatísticas que envolvem a violência de gênero no Brasil”, que “não se visualiza na sociedade brasileira um movimento de fundo que vá contra essa corrente [machista]”.

A cultura é como uma lente pela qual se vê o mundo. O machismo, infelizmente, está enraizado na cultura brasileira há séculos e foi, assim, repassado por meio do aprendizado e da herança cultural de geração em geração. Desse modo, gerações inteiras aprenderam a ver a mulher como um objeto sexual, sem voz e ação, pela ótica da cultura machista, que repassaram isso aos seus filhos e netos. Conteúdos foram produzidos para reafirmar e consolidar uma visão de mundo que exclui e coloca em risco a vida de todas as mulheres.

Enquanto músicas como as citadas acima continuarem a ser cantadas e aplaudidas, as delegacias da mulher e as leis contra a violência doméstica não serão suficientes para diminuir as ocorrências de feminicídio. Em uma sociedade onde se canta “um tapinha não dói”, não será as delegacias que impedirão que uma mulher seja assassinada a cada duas horas.
 

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