13/11/2019 às 11h11min - Atualizada em 13/11/2019 às 11h11min

O que raízes e folhas podem ensinar aos seres humanos?

Elas não possuem cérebro, mas possuem habilidades únicas que as permite regenerar e trazer vida a ambientes que necessitam

Isabelle Miranda - Editado por Thalia Oliveira
Divulgação
Animais e plantas são seres opostos, mas complementares. Enquanto um se move, o outro fica enraizado. Uns precisam buscar comida, outros fabricam a própria comida. Corte um animal ao meio e ele morrerá, já uma planta, em muitos casos, se tornará duas. Graças a essas diferenças, damos às plantas um papel paralelo na hierarquia da vida.

Um naturalista comum do século 19 considerava um rato menos evoluído porque seu cérebro tem uma capacidade de raciocínio e armazenamento de memórias menor que a nossa, ou porque seus dedos não são capazes de movimentos tão finos. As plantas, por outro lado, não possuem cérebro ou músculos. Não possuem sequer estruturas comparáveis à cabeça ou às mãos. Elas são outra coisa – simples assim. Por sermos incapazes de estabelecer uma relação anatômica entre os corpos das plantas e os nossos corpos, nos tornamos incapazes de pressupor que elas tenham capacidades parecidas com as nossas, como que elas possam manifestar formas particulares de memória, por exemplo.

Estamos acostumados a pensar na memória não só pelo que ela é – a capacidade de reter dados sobre passado para guiar ações no futuro –, mas pelo seu suporte: o cérebro. Se não acontece no cérebro, não é memória. Tanto é que os botânicos criaram meia dúzia de termos para as manifestações de memória das plantas: aclimatação, priming, condicionamento etc. Esse palavreado todo demonstra ser inconcebível, para nós, que um vegetal possa aprender com a experiência.

Mesmo assim, plantas da espécie Mimosa pudica – que fecham suas folhinhas imediatamente após serem expostas a um estímulo estressante, como serem transportadas em uma rua esburacada – aprendem que o estímulo não é ameaçador após algum tempo. E lembram disso por até 40 dias: coloque-as no carro de novo e elas se manterão abertas. Se isso não é memória, o que é?

A famosa ilusão de ótica, chamada cubo de Necker e publicada em 1832, mostra que a face do cubo que parece estar para frente muda conforme o observador pisca. Uma figura bidimensional única assume diferentes interpretações tridimensionais. Em Revolução das Plantas, de Stefano Mancuso – lançado recentemente no Brasil pela editora Ubu – o biólogo italiano revela que o reino Plantae sempre foi um cubo de Necker. E que nós só precisávamos piscar para vê-lo de outro ângulo.

Um mundo em que a arquitetura de locais áridos se inspire nas duas folhas da Welwitschia mirabilis – a planta que vive mil anos no árido deserto da Namíbia. Em que robôs “plantoides”, em vez de humanoides, deem os primeiros passos na colonização de outros planetas – da mesma forma que as verdinhas terráqueas foram as pioneiras na transição da água para a terra firme. Em que sistemas de governança corporativa (ou até o próprio aparato burocrático do Estado) sejam descentralizados como uma árvore, e não dependentes de uma hierarquia com cabeça, ombro, joelho e pé. Um mundo mais sustentável, em resumo, não é só um mundo com mais plantas. É um mundo feito a sua imagem e semelhança. Dá próxima vez que você se deparar com um problema, pense em como uma planta o resolveria. Elas podem dar insights inéditos para Homo sapiens narcisistas.

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