13/11/2019 às 00h00min - Atualizada em 13/11/2019 às 00h00min

Quarto de Despejo-Diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus

Desigualdade social, violência, sobrevivência, crítica política, solidariedade, amor pela literatura, assim começa a história de Carolina Maria de Jesus.

Nathália Dias - Edição: Lavínia Carvalho
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Em 1958, quando o jornalista Audálio Dantas recebeu a incumbência de escrever uma matéria sobre a favela no bairro do Canindé (SP), deparou-se com uma mulher negra e de pouca instrução. Mas, que trazia consigo muitas coisas a serem ditas, em seus mais de 20 cadernos encardidos guardados dentro de seu barraco. 
 
"Repórter e escritor nenhum seriam capazes de escrever melhor aquela história sobre o olhar de dentro da favela", é dessa forma que o jornalista se refere aos diários escritos por Carolina Maria de Jesus, no prefácio da oitava edição do livro, intitulado "O Quarto de Despejo- Diário de uma favelada." 
 
Nascida em Minas Gerais, Carolina mudou-se de sua terra natal para trabalhar como empregada doméstica, mas após a sua primeira gravidez, morou na rua até ser transferida para a favela. 
Amante da literatura desde pequena, classificava-se como uma poetisa de muito brio e registrou em diários sua rotina severa naquele lugar.

Ao decorrer dos relatos é correto afirmar que não é uma vivência, e sim, uma sobrevivência dura de uma mulher que lutava para garantir o alimento de seus filhos. 

"O pobre não repousa.
Não tem privilégio de gozar descanso”. 



O livro começa com a narração do ano de 1955 a 1958, onde a desigualdade social é notória e Carolina com tamanha lucidez, relata sobre as condições ínfimas de sobrevivência na favela. Sem saneamento básico, zero conforto, o convívio com ratos e pulgas é comum em seu dia a dia. Realidade essa que a autora odiava vivenciar. 
 
 
“O meu sonho era andar bem limpinha, 
usar roupas de alto preços, 
residir numa casa confortável,
mas não é possível. 
Eu não estou descontente
com a profissão que exerço. 
Já habituei-me andar suja. 
Já faz oito anos que cato papel. 
O desgosto que tenho é residir em favela”. 
 
Carolina repelia a violência e era sempre a responsável por apartar as brigas da favela e chamar a polícia. Ao repreendê-la por tal atitude, os vizinhos agrediam os seus filhos quando a mesma estava trabalhando. Não se preocupavam com a nudez feminina e masculina ao aparecem na frente das crianças, nem tampouco com a exploração, abuso sexual e principalmente o alcoolismo. A vida na comunidade de Canindé era sofrida, pois, quando acontecia alguma festa, sempre terminava em briga e quebra quebra. 

A sobrevivência e resiliência de Carolina ia além, a preocupação constante com os filhos, o comprometimento em ter uma vida digna, lhe fazia ter um fio de esperança. Apesar de a menção de suicídio ser insinuada em vários momentos da história, seus filhos, João (11 anos), José Carlos (10 anos) e Vera (5 anos) são o real motivo de se manter viva. 

Mesmo percorrendo essa saga pela subsistência, onde por muitas vezes, resultava em restos de alimento retirados do lixo e também em uma sopa feita a base de ossos, eles ainda tinham o raro momento de comer um pedaço de carne. Não existiam privilégios, mas o que Carolina fazia diariamente era o papel de uma mulher e mãe responsável.

 
 
“Tinha arroz, feijão e repolho e linguiça. 
Quando eu faço quatro pratos penso que sou alguem. 
Quando vejo meus filhos comendo arroz e feijão, 
o alimento que não está ao alcance do favelado, 
fico sorrindo atoa. 
Como se eu estivesse assistindo 
um espetáculo deslumbrante.”

Em o Quarto de Despejo, Carolina enfatiza a crítica política e a solidariedade em sua fala. No contexto político, esse livro deveria ter a leitura obrigatória a todos que se propõe a concorrer uma vaga e/ou cargo público atualmente no Brasil. Pois, a visão que essa mulher tinha sobre as necessidades da favela onde residia, são propícias até hoje.

Ela faz uma crítica dura ao citar os políticos que só lembram das favelas e de seus habitantes em épocas de eleição.

 

“… O que eu aviso aos pretendentes a política,
é que o povo não tolera a fome.

É preciso conhecer a fome para saber descrevê-la.” 

Já no contexto da solidariedade, Carolina descreve com carinho as demonstrações de empatia de algumas pessoas, dentre elas, as vizinhas que se ajudavam e trocavam porções de gordura, açúcar ou farinha e ainda davam um prato de comida. Na história tinha também os compradores de ferro, em especial o Sr. Manoel, que sempre pagava um pouco mais do que a mercadoria valia. 
 

Maria Carolina também ressalta os centros espíritas e a igreja católica que promoviam a caridade e lhes ofertavam roupas, agasalhos, cestas básicas, além de medicamentos e ações de saúde. 
 

“A vida é igual um livro. 
Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra. 
E nós quando estamos no fim da vida é que 
sabemos como a nossa vida decorreu.
A minha, até aqui, tem sido preta.
Preta é a minha pele.
Preto é o lugar onde eu moro."

 

É notório o amor que Carolina tem pela literatura. Amor esse que foi capaz de superar a fome, a miséria, a violência e que deu uma luz de esperança em sua vida. Isso é o que a manteve lúcida e viva em todos os momentos de dificuldade.


O seu reconhecimento foi tardio, mas cabe a nós, apreciadores da literatura como um todo, prestigiar, propagar e manter viva a memória e a história dessa mulher negra e de baixa instrução, viva.

 


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