05/12/2019 às 17h35min - Atualizada em 05/12/2019 às 17h35min

Não Significa Não

Núbia Umbelino
Folhape, Huffpost, Opera Mundi
Foto: Yasmim Formiga / Instagram
“Então eu vou te cortar a cabeça, Maria Chiquinha / Que cocê vai fazer com o resto, Genaro, meu bem? / O resto? Pode deixar que eu aproveito" Depois que o cantor Junior Lima disse considerar inaceitável cantar atualmente uma música como  "Maria Chiquinha", o debate revisionista acerca de canções brasileiras de teor machista e que naturalizam a violência doméstica se reacendeu.

São muitas as músicas que abordam, sem cerimônia, comportamentos sexistas e casos de feminicídio - quando uma mulher é morta pelo fato de ser mulher.

Por décadas, o discurso machista esteve presente nas músicas brasileiras e internacionais. Em pleno século XXI, existem letras de gêneros musicais que fazem apologia ao estupro, como exemplo a música "surubinha de leve", que foi retirada do Spotify. Contudo não é só no Funk e demais músicas de periferia que abordam, sem cerimônia, comportamentos sexistas e casos de feminicídio. Um exemplo é a musica sertaneja "Vidinha de Balada"  dos cantores Henrique e Juliano "Vai namorar comigo sim (…) Se reclamar, cê vai casar também”. 

Mestranda na área de Linguística Aplicada, Amanda Ágata Contieri fez um artigo com o titulo “As mais tocadas”: uma análise de representações da mulher em letras de canções sertanejas, no qual ela diz que  “se a música faz sucesso é porque aquele discurso é aceito pelas pessoas”.

Na época dos anos 80, a mulher no universo que essas canções pretendiam representar não poderia ter dado o primeiro beijo. Deveria ser uma companheira meiga, carinhosa e precisaria ter “o perfume da rosa”, como dizem outras canções do mesmo período. Assim se casaria e seria uma bela mãe, daquelas que deixam a mesa do café pronta. De outro modo, certamente "ficaria para titia".

A violência contra as mulheres ou mesmo uma representação - hoje considerada por muitos como equivocada - não está presente só neste período clássico da música sertaneja. Outras correntes do mesmo estilo como o sertanejo romântico, entre as décadas de 1980 e 1990 e mais recentemente o chamado sertanejo “universitário”, também trazem algo de podre no reino do brejeiro, como percebeu  Amanda Ágata Contieri quando começou a pensar em desenvolver uma dissertação de mestrado na área de Linguística Aplicada. “Eu parei para ouvir e me dei conta que tinha algo errado ali… O homem estava dizendo que batia na mulher, que a matou porque ela não quis ficar com ele, isso em grandes clássicos da música sertaneja. Essas músicas são uma forma de olhar para algo que todos falam. É uma questão social porque a música retrata algo que acontece na vida."

O site Huffpost analisou musicas extremamente machistas e que são cantadas sem perceber.

"Cuida bem dela/ Ela gosta que reparem no cabelo dela/ Foi por um triz/ Mas fui incapaz de ser/ O que ela sempre quis/ Faça ela feliz"

O eu-lírico fala da mulher como se estivesse falando de um Passat 87 que vendeu para um amigo. Mulher não é um objeto que se entrega e diz, “tome cuidado com isso”. Mulher nenhuma é "coitadinha" e precisa que alguém cuide dela.

"Calma a sua insegurança não te leva a nada/ Eu quero ser seu homem te fazer amada/ Amar amar você até você se amar, e me amar"

Esta música da dupla sertaneja Jorge & Mateus, que está na lista das mais ouvidas do Vagalume, canta uma espécie de "ajuda" para as mulheres “terem calma” e com suas “inseguranças”. Puro “mansplaining” quando um homem explica algo a uma mulher de forma condescendente. 

“Se fosse mulher feia tava tudo certo/ Mulher bonita mexe com meu coração/ Se fosse mulher feia tava tudo certo/ Mulher bonita mexe com meu coração”

Na letra, o homem deseja a melhor amiga da esposa e mente para ela. A culpa é exclusivamente de quem? Dele não é...

"O cara que pega você pelo braço/ Esbarra em quem for que interrompa seus passos / Está do seu lado pro que der vier/ O herói esperado por toda mulher"

A letra remete a uma suposta dependência da mulher diante da figura masculina e reforça a ideia de que “toda mulher espera um herói”. Acreditamos que não é bem assim, Roberto. Aliás, nada assim.

“Existem mulheres que são uma beleza / mas quando abrem a boca, hum, que tristeza/ (...) bundinha empinada pra mostrar que é bonita / e a cabeça parafinada pra ficar igual paquita / Loira burra, loira burra, loira burra...”.

Não temos muito que dizer sobre 'Loira Burra' e Gabriel O Pensador: apenas... não. Desde quando inteligência se classifica pelo gênero ou cor do cabelo?

Misoginia, isto é, o ódio ou a aversão às mulheres, se encontra entranhada em músicas de todo tipo. Afinal, já diziam as letras de “Ai, que saudade da Amélia”, de Mário Lago e Ataulfo Alves, “Ai, meu Deus, que saudade da Amélia / Aquilo sim é que era mulher / Às vezes passava fome ao meu lado / E achava bonito não ter o que comer”. Ou “Eu preferiria te ver morta do que com outro homem, garotinha / É melhor você correr pela sua vida, se puder”, cantavam os Beatles.

Segundo pesquisas de Tobias Greitemeyer, doutor em Psicologia Social e professor da Universidade de Innsbruck, na Áustria, músicas com mensagens machistas podem estimular o ouvinte à violência contra a mulher. “Os participantes masculinos de nosso estudo ouviram apenas duas músicas diferentes com letras misóginas e mostraram um aumento considerável em relação a agressão às mulheres. O que pode ser dito sobre o efeito disso na vida real, onde os homens provavelmente ouvem centenas de músicas misóginas durante a vida?”, questiona o pesquisador em seu artigo. ”Isso provavelmente se tornará ainda mais pronunciado e poderia levar a agressões ainda mais severas, como estupro ou outras formas de assédio sexual. Se essa conexão puder ser estabelecida na vida real, as letras de músicas misóginas precisam ser consideradas em uma luz mais crítica do que foram até agora, podendo até requerer censura por lei”, escreve. 

“Considerando que o machismo é algo enraizado em nossa cultura como um todo, de fato ele refletiria na música desde seu início. Na música brasileira, quando ouvimos canções mais antigas de mulheres aceitando traições e morrendo de amores, é porque elas apenas poderiam ser intérpretes, nunca compositoras, o que foi mudando com o passar do tempo”, lembra a jornalista musical, Débora Cassolatto, curadora musical da ação Songs of Violence, premiada no Festival de Cannes. ”Talvez nossa linguagem e expressões estejam mais explícitas atualmente, o que acaba impactando a música, que é uma forma de expressão cultural. Mas temos diversos exemplos de várias épocas que, dentro de sua linguagem e impacto na sociedade, são absurdas”, reflete, citando, como exemplo, “Hey Joe”, de Hendrix, sobre matar a esposa por causa de uma traição, a autoexplicativa “Você Não Passa de Uma Mulher”, de Martinho da Vila, e “Vai Tomar Dormindo”, do MC Roba Cena, sobre estuprar a namorada se ela dormir antes do sexo.

"Sinto que você precisa aprender a respeitar /O meu corpo, a minha lei / E você têm que escutar/ Quando eu digo não é não". Letra da música Lila e Léo Justi.
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