06/04/2019 às 11h48min - Atualizada em 06/04/2019 às 11h48min

Zé do Caixão ao Animal Cordial: filmes de terror são esquecidos pelo público, mesmo tendo ampla qualidade de produção

Contando com uma multiplicidade de novos filmes, o terror brasileiro ainda sofre preconceitos

Carolina Rodrigues - Editado por Bárbara Miranda
Sessão do medo , Adoro Cinema
É impossível falar de terror brasileiro sem citar José Mojica Marins, cineasta, ator e roteirista que pavimentou um grande caminho dentro do gênero com filmes estrelados por seu personagem Zé do Caixão. Foi em 1964 que sádico e cruel coveiro – como a sinopse do filme o descreve – começa a aterrorizar o público, protagonizando “À meia-noite levarei sua alma” num cinema ainda preto e branco. No entanto, por mais que Zé do Caixão tenha aberto um leque de possibilidades para o desenvolvimento de mais filmes do gênero, o terror nacional ainda não é prestigiado pelo próprio público, sendo visto (quando é visto) com desprezo.Anos se passaram sem se falar em filmes terror brasileiro. Você já assistiu algum filme do gênero produzido, dirigido, roteirizado aqui no Brasil?

Com as estreias de "Animal Cordial” e “As Boas Maneiras” em 2018, o terror nacional ganhou um momento de destaque dentro da mídia, com matérias, inclusive, feitas por jornais de grande circulação nacional como Folha de São Paulo e Estadão. São bons filmes que receberam reconhecimento, mas que não conseguiram alçar grande voo devido à má distribuição as salas de cinema comerciais e o preconceito do público. Esses fatores dificultam a circulação de vários filmes como Motorrad (2017), Morto Não Fala (2018) ou O Rastro (2017). Você conhece algum desses filmes?

Para os críticos do site Sessão do Medo, criado em 2011 e especializado em críticas de filmes de terror, 2018 foi um momento de potencialização do gênero, mas não seu ápice. “É uma produção em ascensão e ainda é possível melhorar em questão de investimentos (seja de recursos públicos ou privados) e distribuição”, comentam.
 
FONTE: Trailer "As Boas Maneiras" (2017)

Marcos de Brito, diretor do filme Condado Macabro (2015) – que ganhou o prêmio de Melhor Filme no Festival Fantaspoa –, disse em entrevista ao site Adoro Cinema, que a primeira dificuldade é receber patrocínio. Depois disso, o terror brasileiro encara a desvalorização das distribuidoras que sabem “que o público não vai aceitar um filme que não seja 100% excelente tecnicamente ou não tenha atores globais. Tem que ter algo que atraia o público mediano para assistir ao nosso gênero com outros olhos", senão o filme, numa consequência fatal, é menosprezado.

O terror brasileiro traz marcas do trash, gore e do terror social, muito característicos dentro das nossas produções e bem diferente do que vemos em outros thrillers como Invocação do Mal (2013) ou Annabelle (2014), com histórias totalmente esmiuçadas do começo ao fim e repletas de sustos gratuitos, como explica o site Sessão do Medo. Para eles, o desmerecimento frequente a produções nacionais contrastam e fixam o padrão hollywoodiano, enquanto “ao mesmo tempo, cineastas brasileiros têm produzidos filmes bem originais e de qualidade superior às produções estrangeiras. O público nacional gosta de terror (basta olhar as bilheterias dos longas da franquia Invocação do Mal para constatar isso), mas ainda não descobriu a preciosidade do que é feito em nosso país”, concluem. 
 
FONTE: Na sequência: Mangue Negro (2008), Motorrad (2017) e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967).

Para Ramon Porto Mota, codiretor e roteirista de O Nó do Diabo (2017), 2018 foi uma marca importante na “história do cinema de horror e de gênero no Brasil”, já que muitos filmes distintos entre si foram anunciados. "Isso mostra a possibilidade do cinema de horror, como a nossa cultura engendra os mecanismos do horror”.

Por mais que exista barreiras, o terror nacional continua a sua luta por mais sangue e reconhecimento. Ao site Adoro Cinema, a produtora Sara Silveira, responsável pelos filmes Trabalhar Cansa (2011) e As Boas Maneiras (2017), mantém a esperança em sua fala: “a gente espera que o público brasileiro tenha compreensão e se interesse por ver um filme diferente, um filme bizarro, porém extremamente interessante. Eu já tenho mais de 30 anos de cinema e mais de 50 filmes brasileiros na carreira. Eu quero acreditar, e continuo acreditando, na possibilidade de fazer este tipo de filme".
 
Se você se interessou e quer se aventurar nos filmes de terror produzidos aqui no Brasil, o Sessão do Medo recomendou alguns filmes que de acordo com eles atestam a qualidade do nosso terror:
Para quem quer só uma palinha, esses são algum curtas: Gato (1962), A Loira do Banheiro (2017), Um Estranho na Porta( 1993), Amor Só de Mãe ( 2003 ) e Ninjas ( 2010 ).
Agora, se você quer assistir filmes que vão te fazer perder o sono: As Boas Maneiras ( 2017 ), Mal Nosso ( 2018 ), Mangue Negro ( 2018 ), Animal Cordial ( 2017 )e À Meia-Noite Levarei Sua Alma ( 1964 ).

Referencia:

TORRES, R. O novo cinema de terror no Brasil: Diretores e produtores debatem preconceito, bilheteria e identidade nacional (Exclusivo). Adoro Cinema, 2018. Disponível em: <http://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-140849/. Acesso em: 5 abr. 2018.

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