24/01/2020 às 08h20min - Atualizada em 24/01/2020 às 08h20min

Sinfonia urbana

Mayra Santos
Mayra Santos
As cortinas dançam conforme o vento e emitem um som que faz parte de uma grande sinfonia. Lá fora, o barulho dos automóveis soa mais alto com buzinas estressadas. Em contrapartida, escuto uma flauta tocar suave, terna, macia, bela. Será uma disputa? Não, acho que compõe a sinfonia.

Olho pela janela um pouco embaçada, vejo um homem de roupa diferente, talvez engraçada. Vestido com uma roupa velha, desgastada e suja. Os sapatos também estão velhos e sujos. O figurino é arrematado com um chapéu multicolorido. Parece chapéu de palhaço. Carrega uma mochila grande nas costas, acho que está um pouco pesada.

É ele que toca a flauta no sinal. Será um viajante? Um andarilho? Um cigano? Ou um venezuelano tentando sobreviver. Fico a imaginar...

É janeiro. O calor tá de matar. Enquanto isso, estou aqui dentro de uma sala, em frente a um computador, no ar-condicionado, num clima agradável. Lá fora, o sol estridente de 28ºC com sensação térmica de 32ºC, incomoda quem está na rua. Mas o flautista continua a tocar.

Acho o flautista um otimista, uma grande otimista. Ele tenta alegrar o cenário cinzento das ruas com músicas. Ninguém olha pra ele, ninguém fala com ele. É como se fosse imperceptível, mas ele não desiste.  É como um poeta que vê poesia na seca do sertão, na morte do filho e na solidão.

Certamente faz isso como forma de sobrevivência. Veja a dignidade deste senhor: Ele está no sinal oferecendo uma amostra do que melhor sabe fazer. Isso não é lindo? E, sobretudo, digno? Não é apenas pedir por pedir. Mas ele ‘vende’ a música que ele mesmo toca e agracia, por alguns segundos, os ouvidos dos pedestres e motoristas – estressados com o trânsito e com o calor infernal que está em João Pessoa.

Assim como agracia minha manhã, por vezes, tediosa. Ele nem sonha que tem alguém tão perto – e tão longe ao mesmo tempo – agradecida por ele compor a sinfonia do dia, do meu dia.

Fui olhar de novo pela janela. Parece preocupado. Fico a pensar, será que comeu hoje? Será que tem o que comer na hora do almoço? E sua família, por onde anda? Tem filho? Como o sustenta? São indagações sem respostas.
Pessoas como esse senhor são ‘invisíveis’ aos olhos de quem não enxerga nada além de si mesmo. Mas o flautista de rua também é gente como a gente, também tem histórias que desconhecemos até o momento que nos permitirmos conhecer.

Mas se pelo menos déssemos um ‘bom dia’? Ou um sorriso? Uma moeda, talvez? Ou simplesmente disséssemos ‘obrigada’? Sei lá, um sinal de que estamos gostando para assim motivá-lo a tocar. Claro que um emprego traria mais segurança e saúde para este senhor, mas não custa a gente ser gentil e tornar o dia mais agradável, mais leve, mais feliz.

Alguns minutos depois, enquanto escrevia, o som da flauta parou. Olhei pela janela, o flautista foi embora. Agora deve ter ido para outro sinal tocar flauta, tocar almas, assim como me tocou.  
 
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