09/04/2019 às 21h45min - Atualizada em 09/04/2019 às 21h45min

O Abutre: a linha entre o jornalismo, sensacionalismo e ética

análise do filme e do jornalismo

Letícia Agata Nogueira - Cultura
Juremir Machado da Silva, ao retratar o jornalismo como desvelamento em seu livro "As Tecnologias do Imaginário" afirma que o efeito buscado pela técnica jornalista é a sensação e isso contribui para que todo jornalismo seja considerado sensacionalista. A essência da técnica, segundo o autor, seria a especularização (sensacionalização) do acontecimento, o qual tem a narrativa alterada e forjada pelo jornalismo, ou seja, reconstruída e dramatizada, se tornando capaz de influir no imaginário do destinatário e o manipulando. Juremir afirma que:

Hoje, incorpora, cada vez mais, os elementos da narrativa dramática, como se fosse uma ficção, uma novela, uma intriga, com personagens, tensão crescente, trema, desfecho,oposição marcada de papéis (bem e mal), simulação de contradições para dar profundidade psicológica aparente aos personagens, etc.(SILVA, 2003, p.106).

 
Um bom jornalista seria aquele que segue as “exigências objetivas” da profissão, a qual está diretamente ligada ao imaginário dominante, sabendo o que pode render para seguir a técnica e reinventar a primazia do conteúdo. Machado também afirma que:

[...] a forma atual da manipulação não se dá, antes de tudo, pela mentira ou pela censura, mas pela exatidão. O exato é um elemento possível entre outros. Mas não é tudo. É parte, escolhida, de um todo. Está correto. Mas não completo. O verossímil sepulta o verdadeiro.(SILVA, 2003, p.111).

 
Podemos relacionar o filme "O Abutre", dirigido por Dan Gilroy, com o conteúdo tratado no livro "As Tecnologias do Imaginário", de Juremir, com o livro "Ética, Cidadania e Imprensa", de Muniz Sodré, e com o texto "O Espetáculo não pode Parar, de Eugênio Bucci". O personagem Lou Bloom é um jovem desempregado que busca desesperadamente um emprego. Mais tarde Lou descobre o jornalismo sensacionalista e se interessa pela profissão, exercendo o papel de freelancer na cidade de Los Angeles, EUA. O personagem se joga na caça de acidentes, incêndios, assassinatos e outras tragédias que, com um click podem facilmente ser convertidas em dinheiro. Ao longo do filme, Bloom é ajudado por Nina, uma veterana do sensacionalismo sanguinário que trabalha na cobertura de notícias nos canais de televisão. Lou infinge a ética e as leis da moral, juntamente com o canal de TV mais conhecido em LA, tudo isso para conseguir imagens perfeitas.

Moral é um conjunto de normas que orientam o comportamento prático, enquanto a ética é a ciência do comportamento moral dos homens em sociedade. O personagem Lou Bloom não agiu de forma ética quando exerceu o trabalho, pois infringiu as normas da moral impostas pela sociedade. Em um trecho do filme, quando o freelancer chega ao local de um acidente, a vítima encontrava-se morta, e, para conseguir as melhores imagens, Bloom chegou ao local antes da polícia e deslocou o corpo do local onde estava, para ter um enquadramento melhor. Em outro trecho,  Bloom chegou em uma casa, mais uma vez antes da polícia, e após ter filmado uma cena de tiroteio, entrou na casa sem autorização para filmar o local e as vítimas e fugiu antes que os policiais chegassem. Na primeira cena citada, o personagem move o corpo, sendo que é proibida a translação do cadáver sem o requerimento administrativo dos interessados ou o pedido da autoridade policial. No segundo trecho Lou invade a cena do crime sem a autorização da polícia, o que comprova a violação da regra.

Em seu livro, Muniz Sodré afirma que existem diversos tipos de moralidade produzidos na esfera dos valores e parcializações, os quais atendem os interesses privados ou classistas, conhecidos como deontologias:

[...] a palavra deontologia assumiu, na vida socioprofissional de hoje, o sentido de uma moral especializada, destinada em geral à preservação de interesses corporativistas (código de comportamento empresarial) ou então à continuidade institucional de formas de vida vinculadas à tradicional moralidade burguesa-cristã.(SODRÉ, 2002, p.195).

 
Visando saciar apenas seus interesses, tanto Lou Bloom quanto o telejornal que comprava as imagens usaram a deontologia e violaram todos os padrões jornalísticos através de suas atitudes.

Além disso o telejornal que comprou as imagens do freelancer, ao divulgas o material permitiu uma reação dos âncoras como se estivessem em um talk-show, expressando opiniões. Eles estimularam o público a descobrir se o berço do bebê estava com uma criança morta dentro ou não, para satisfazer os desejos do público alvo, que tinha interesse em crimes urbanos, seguindo a afirmação feita por Eugênio Bucci:

Se não derem no mínimo a cobertura esperada pela plateia, os órgãos de imprensa estarão desservindo seus leitores, telespectadores, ouvintes e internautas. Estes, legitimamente, irão buscar o que querem saber em outros veículos. Não há muito o que a imprensa possa fazer sobre isso, a não ser procurar melhorar a coberturar [...] (BUCCI, p.190).

 
A mensagem do filme "O Abutre" em relação ao jornalismo é a comprovação do trecho citado no livro de Sodré, que  diz “[...] o jornalismo [...] assiste ao desaparecimento do interesse público e do horizonte ético”, pois os interesses privados, em muitos dos casos, são colocados acima do interesse público, o qual visa em ações que beneficiam todos os membros da sociedade.
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