03/02/2020 às 16h30min - Atualizada em 03/02/2020 às 16h30min

Autoficção e "O show do Eu"

Gênero literário que mistura a ficção com a autobiografia está cada vez mais relevante

Gabriela Carneiro
Imagem: Recanto das Letras

Escrever ficção é inventar histórias. O ser humano cria mundos fantásticos, romances épicos e realidades paralelas desde que aprendeu a se comunicar. Tanto a imaginação quanto a vontade de se expressar por meio da arte, lendas e mitos é intrínseca a ele e comum aos povoados de todas as nações. Uma vez que começamos, nunca paramos de criar — e como toda habilidade, evoluímos, nos reinventamos e descobrimos novas formas de fazer e compartilhar nossas narrativas. E assim, uma promessa editorial para o século XXI está na autoficção.

Com o advento da Internet, em especial das redes sociais, nos vemos falando de nós mesmos mais do que nunca. Em seu livro O show do Eu, a antropóloga Paula Sibilia apresenta “a intimidade como um espetáculo”: estamos, cada vez mais, nos tornando personagens nas nossas próprias vidas, procurando entreter o olhar alheio. Um estudo apontou que, em média, uma pessoa tira mais de 450 selfies por ano. E a literatura está passando por um momento parecido.

A autoficção vem de um quase oxímoro: autobiografia ficcional. Afinal, se a autobiografia pretende contar a história real de quem a escreve, que espaço haveria para o inventado? A literatura autoficcional propõe uma junção: às vezes, com acontecimentos criados e personagens reais; outras, o oposto.

O termo foi cunhado recentemente, em 1977, pelo escritor francês Julien Serge Doubrovsky. Ele o usou para categorizar seu romance Fils, no qual é o personagem principal. “Era um neologismo necessário”, comentou o autor a uma revista francesa. Para ele, porém, a autoficção surge antes mesmo de suas obras. “Eu simplesmente dei-lhe um nome e a contextualizei. ”

Doubrovsky dita a seguinte regra: para um livro ser considerado autoficção, ele deve ser narrado em primeira pessoa, e o protagonista deve compartilhar o nome do autor. Hoje, nem todas as obras que receberam esta classificação a seguem: A Terra Inteira e o Céu Infinito, de Ruth Ozeki, é narrado em terceira pessoa; já A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath, é contada por Esther Greenwood, um quasi pseudônimo da autora. 

O ponto central da autoficção é o autor. Doubrovsky disse em sua obra que as escrevia para “morrer menos”. Seu romance Fils concentrou e conservou etapas importantes de sua vida que ele não queria esquecer, tal como o falecimento de sua mãe e o término de um relacionamento marcante. Ele acredita, também, que “toda autobiografia, qualquer que seja sua ‘sinceridade’, seu desejo de ‘veracidade’, comporta sua parte de ficção”. Isso ocorre porque não é possível representar o passado exatamente como ele foi: estamos sempre sujeitos à imprecisão de nossas memórias.

A literatura autoficcional é, também, uma forma importante de dar voz às camadas menos ouvidas da sociedade. Ela dá uma liberdade maior ao autor para relatar suas vivências, não estando presa à necessidade de comprovar a veracidade dos fatos. Um exemplo é o livro I Love Dick, da escritora americana Chris Kraus, adaptada para série na Amazon em 2017.

 


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