10/04/2019 às 21h37min - Atualizada em 10/04/2019 às 21h37min

Balaio de histórias

Sandra Denicievicz
Luana Blem
São 67 anos de uma vida dura. Marcas que estão na pele queimada pelo sol e no branco espalhado entre os fios de cabelo negro. Os traços não se encontram apenas no rosto e nos cabelos, mas também na memória da índia kaingang que tem muita história na bagagem, ou melhor, no balaio.

As marcas do trabalho de dona Aiara Cornélio dos Santos também estão expostas nas mãos e nos pés. As mãos calejadas e amareladas por causa das tintas usadas para tingir balaios e peneiras que confecciona desde a infância. E os pés cansados e cobertos de pó, resultado do andar diário pelas ruas das cidades na busca de vender o artesanato feito com tanto esmero.

Quando as vendas ou a vontade não permitem mais a estada em uma cidade, chega a hora de dona Aiara partir para a próxima aventura... No balaio não restam muitos pertences, apenas roupas, cobertas e um pouco de comida adquiridos por meio de doações. Já na memória, o tesouro é muito maior. Ah, esta sim, se mantem carregada de muitas recordações.

Ela nasceu e foi criada em uma aldeia na comunidade de Marrecas, próximo a Guarapuava (PR). Lá ainda moram os cinco filhos e o marido. Na aldeia, ela possui casa, alimento e roupas, porém preferiu viver uma vida itinerante. A índia não se lembra de quando começou as andanças pelas cidades vizinhas a aldeia.

Hoje ela está em Guarapuava, durante o dia caminha por toda cidade vendendo peneiras, chapéus, balaios e filtros dos sonhos confeccionados por ela e companheiras, e, durante a noite, busca abrigo para dormir na rodoviária da cidade. De tempos em tempos, quando a saudade aperta, ela volta para visitar os filhos. Apesar disso, o retorno para a estrada é sempre certo. “Tem que sair para vender artesanato, para comprar comida, roupa nova, eu gosto de roupa nova”, comenta.  E sobre a próxima parada, nem mesmo a índia sabe, a única certeza que possui é que o destino há de ser seu guia, assim como sempre foi.

Apesar da idade avançada, dona Aiara não demostra nenhum sinal de fraqueza ou cansaço. Ela acorda cedo, anda quase o dia inteiro e dorme tarde. E não é a única. Outras dez mulheres são companheiras de pouso e artesanato. “A gente anda muito, mas sempre nos tratam bem, às vezes dão até roupa e comida”, comenta. Ela é a mais velha do grupo que se reúne toda tarde na rodoviária de Guarapuava após o dia todo de vendas. Também é a menos tímida das mulheres que possuem casa nas aldeias de Marrecas e Turvo a 43 quilômetros de Guarapuava, porém vivem na estrada. Dona Aiara fala quase todas as palavras arrastadas e com tom de voz baixo, mas quando a resposta não vem pelas letras, ela logo trata de compensá-las com um belo e emocionante sorriso.

A cultura indígena faz parte de Guarapuava, porém, com o passar do tempo seus traços foram se apagando. O que resta é preservado em aldeias próximas da cidade, porém, no período de conquista do município paranaense, muitos índios foram mortos. As tribos que habitavam as terras foram expulsas, mas as heranças daquele período permanecem até hoje. Muitas lendas foram criadas a partir da história oral indígena, como é o caso da índia que chorou tanto por um amor perdido que foi capaz de brotar uma lagoa, um dos cartões postais da cidade. Ou, a própria origem do nome Guarapuava, que vem do Tupi Guarani, essa área dos Campos Gerais também é conhecida como cidade do lobo (guará) bravo (puava).
 

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