06/04/2020 às 20h19min - Atualizada em 06/04/2020 às 20h19min

O amor romântico além da monogamia

Para poliamoristas e não-monogâmicos, amar não requer exclusividade

Antony Isidoro
Bandeira do poliamor / Foto: divulgação

Relacionar-se amorosa ou afetivamente com alguém, sem exclusividade, mas com o consentimento de todos os envolvidos. Essa é a principal premissa do poliamor, um termo amplo que costuma ser usado para definir diversas formas de relacionamentos não-monogâmicos. 

 

A diversidade é imensa dentro das relações poliamorosas. Relacionamento em grupo, relacionamentos paralelos com duas ou mais pessoas e relacionamento aberto, são apenas alguns exemplos. Mesmo esse último tem incontáveis possibilidades, tudo depende do acordo estabelecido pelos envolvidos nessas relações, do que melhor funciona para eles. Em geral, os poliamoristas e não-monogâmicos costumam ser pessoas que “Tendem a ser mais liberais e menos convencionais quanto às normas sociais, de acordo com pesquisas na área”, como conta a psicóloga Sandra Elisa Freire.

 

Conforme as sociedades se transformam ao longo do tempo, alguns paradigmas começam a ser reconsiderados, dando origem a novas formas de pensar, se comportar e até de se relacionar com outras pessoas. 

 

O ligeiro espaço que assuntos ligados ao poliamor têm tomado a mídia.  Estudos acadêmicos nos últimos anos, também deixam claro que a monogamia não é a única forma de se relacionar romanticamente com outras pessoas, e isso não é de hoje. 

 

Segundo a antropóloga Maria Silva e Silvério, é possível identificar dois pontos na história, ambos nos Estados Unidos, que foram responsáveis pela origem do poliamor e das não-monogamias como os conhecemos hoje, essas formas não exclusiva de viver amores e afetos. 

 

O primeiro deles foi o movimento de contracultura que se deu entre as décadas de 60 e 70, inspirado nos ideais de comunidades alternativas como as dos hippies, onde as pessoas exerciam maior grau de liberdade sexual e afetiva e modelos de relacionamento fora do padrão. O segundo, nos anos 90, foi o surgimento de um grupo de discussão na internet formado por pessoas que acreditavam ser possível amar mais de um indivíduo ao mesmo tempo e viver mais de um relacionamento simultaneamente e com o consentimento de todos. A partir daí, o poliamor “Se expande para Europa e para os outros países, incluindo o Brasil, já no século 21”, como explica Silvério.

 

O fato de as relações não-monogâmicas ainda não serem tão comuns e visíveis quanto a tradicional monogamia, se deve a vários fatores culturais. Um deles é a necessidade da propriedade privada e do acúmulo de bens. “O teórico Friedrich Engels fala que existe essa necessidade do homem de impor uma monogamia para que ele tenha certeza que aqueles descendentes que aquela esposa está carregando são dele, com a ideia de manter o capital, a propriedade privada, os bens etc.”, aponta a antropóloga. Ela destaca também a influência do cristianismo, predominante no ocidente. “Quando a igreja deixa de ser a instituição dominante, a partir do século 18, o que acontece na verdade em termos de ideais de família, é que o estado apropria aquilo que já havia sido imposto e criado pela igreja, os ideais”.

 

Assim como acontece com muitas outras minorias sociais e culturais como identidades de gênero e sexualidade, ainda há pouco conhecimento sobre as não-monogamias consensuais, o que às vezes acaba por gerar estranhamentos. 

 

Minha família acha loucura, acha bem estranho, mas aceitam de maneira tranquila, eles entendem que é a minha relação, eles ficam bem curiosos pra saber como funciona, como a gente acaba entrando em acordos”, comenta a estudante Mariana Alves, 19, que tem uma espécie de relacionamento aberto com Rodrigo Lima, 21, autônomo. “O estranhamento eu acho que é normal, a gente não convive em ambientes em que há muitas dessas relações”, complementa Rodrigo. 

 

As pessoas se sentem muito curiosas na verdade, sempre fazem perguntas”. O professor e bailarino Leandro Moura, 22, diferentemente, vive um relacionamento a três, conhecido também como trisal. Além das perguntas e dos olhares curiosos, conta que já foi alvo de muitos comentários duvidosos quanto à possibilidade de amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo. “As pessoas de fora acabam colocando isso, que um ou outro tem que ter a preferência”, conta. “Ainda não entendo, o porquê desse achismo das pessoas, para mim é muito claro que é possível”.

 

Em alguns casos, o estranhamento é tanto que acaba sendo ofensivo para os poliamoristas. “Cheguei a presenciar certo preconceito com as pessoas do meu convívio quando eu contei sobre a situação da minha relação. De início elas não entendiam como funcionava, depois de uma conversa e dando informações elas conseguiram entender e até chegaram a apoiar”, conta a estudante Emanuele Bastos, 18, sobre sua experiência em um relacionamento aberto. 

 

Um dos principais enganos que as pessoas cometem em relação ao poliamor e à não-monogamia é pensar que essas práticas são puramente sexuais. “Como as pessoas não entendem ainda o que está por trás das relações não monogâmicas, dos ideais, elas vêem apenas como uma coisa irresponsável, desenfreada, promíscua, em que as pessoas só querem sexo”, Silvério explica. 

 

Eu já passei várias vezes até na minha própria família por isso”, comenta a pedagoga Márcia Sales, 46, que administra um grupo no Facebook que tem como objetivo manter uma comunidade de pessoas a favor dessas maneiras mais livres e não-exclusivas de amar “O preconceito existe porque as pessoas encaram o poliamor como uma coisa leviana, que vai contra a moral vigente, não entendem que na verdade o poliamor é você ser sincero, ser realmente leal ao outro”, conclui.

 

O que os poliamoristas deixam claro é que o amor romântico não está distante de suas realidades, pelo contrário. Ele apenas é encarado de forma diferente das demais pessoas. “Gostamos de atitudes românticas, mas não do amor romântico como ele é pensado”, elucida Márcia. “Quando as pessoas poliamorosas ou não monogâmicas combatem o amor romântico, é o amor romântico em seu sentido histórico e social, que é aquele amor caracterizado como as ideias de eternidade, uma ideia de amor exclusivo, limitador e que está muitas vezes associado à submissão das mulheres’’, esclarece Silvério. 

 

Eu sou capaz de amar infinitamente o meu companheiro e mesmo assim sentir atração por outras pessoas”, Mariana exemplifica com o seu namoro, “Em vez de restringir essa vontade, esse desejo por outras pessoas, a gente, simplesmente não torna isso um fardo”.

 

Assim como monogamistas e poliamoristas possuem formas diferentes de pensar sobre seus relacionamentos, mesmo entre aqueles que vivem relações não-monogâmicas consensuais, nem tudo é visto da mesma forma. O que funciona para uns pode não funcionar para outros, por isso para eles é essencial a comunicação aberta e sincera. É assim que os envolvidos em uma relação podem entrar em acordo sobre o que é fidelidade e traição para eles. 

 

“Teoricamente, historicamente, a fidelidade não tem a ver com exclusividade sexual e afetiva, isso é uma apropriação da monogamia. Fidelidade significa ser leal às coisas que foram acordadas”, explana Silvério. “O nosso maior acordo desde sempre foi não mentir um para o outro, sermos sempre sinceros, não omitir nada um do outro”, Mariana ilustra. “A confiança eu acho que é o que estrutura toda a nossa relação”.

 

Tudo isso não significa que não existe ciúme em uma relação não-monogâmica. Contudo, pode significar uma melhor maneira de lidar com esse sentimento. “O ciúme é entendido pelas pessoas poliamorosas ou não-monogâmicas como uma consequência de várias outras coisas, por exemplo, baixa autoestima, insegurança e medo da perda”, conta Silvério.

 Leandro conta que em seu namoro, não há ciúme por situações internas da relação, “O ciúme na verdade vem de fora, como em qualquer relacionamento”. 

 

Já Mariana e Rodrigo entendem que o ciúme vem de uma ideia de posse, da qual um relacionamento aberto procura se livrar. “Eu sei que ele é um indivíduo e que ele tem outros desejos, ele tem outras vontades e tudo bem, e a gente tenta lidar com isso da melhor maneira, sempre conversando muito”, Mariana explica. “No poliamor as pessoas estão dispostas a lidar com o ciúme, como algo a ser dominado e não se deixar dominar por ele”, complementa Freire.

 

Silvério conclui que para os poliamoristas há um conjunto de valores que, direta ou indiretamente, acabam os norteando, independentemente do tipo de relação não-monogâmica que vivem. Além da comunicação aberta e franca, ela ressalta a liberdade e o respeito ao próximo. “Existe uma preocupação muito grande em respeitar o limite, a dificuldade das e a necessidade das outras pessoas”, salienta a antropóloga. 

 

Ter um relacionamento aberto me ajudou a entender melhor que o respeito e a liberdade andam lado a lado em qualquer que seja a relação, isso ajuda muito pra evitar relações abusivas em geral”, menciona Emanuele. “Aprendi que eu não sou pertencente a alguém e que é possível ter sentimentos sólidos e ainda assim não viver presa e dependente emocionalmente e fisicamente de alguém”.

Editado por Bruna Blankenship

 
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