07/04/2020 às 09h53min - Atualizada em 07/04/2020 às 09h53min

Resenha - Capitães da Areia - Jorge Amado

"A liberdade era o sentimento mais arraigado nos corações dos Capitães da Areia"

Talyta Brito - Editado por Rafael Campos
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A discrepância entre o proposto no regimento e a realidade é notória. Conforme um estudo realizado pela Fundação Abrinq, 47,8% das crianças de 0 a 14 anos vivem em situação de extrema pobreza.  É justamente este outro lado da infância roubada, da recorrência a métodos ilícitos para garantir a sobrevivência, que Jorge Amado se propõe a contar em “ Capitães da Areia”.

O livro narra a vida de adolescentes, em situação de rua, residentes em Salvador. Os garotos que tem entre 9 e 16 anos dormem em um trapiche abandonado –  espécie de ponte madeira que serve para atracar veleiros que não podem chegar perto da praia, devido ao risco de encalhe – daí surge o nome do grupo que tem por chefe Pedro Bala – filho de um sindicalista morto.

Integrante da segunda fase do modernismo – movimento cultural que predominou durante a primeira metade do século XX – o escritor baiano busca apresentar a sociedade brasileira uma outra perspectiva, que na grande maioria das vezes, é ocultado nas manchetes de jornais. No íntimo, os meninos são crianças que sentem falta do aconchego da família, indivíduos almejam com uma vida melhor. Muito se discute sobre a imparcialidade dentro do jornalismo. Entretanto, é acordado que toda história tem pelo menos dois lados e esses devem ser apresentados ao público para que o mesmo possa tirar suas conclusões sobre a temática
.
Uma reportagem retirada do Jornal da Tarde introduz a obra. A matéria discorre sobre um assalto realizado pelos meninos. No dia seguinte, o assunto repercute na cidade. O questionamento é sobre quem recai a responsabilidade dos menores infratores. No meio do jogo de empurra empurra, uma mãe escreve a redação criticando a metodologia aplicada no reformatório, mas logo é desmentida pela coordenação da instituição. No decorrer da narrativa, alguns dos integrantes do grupo ganham notoriedade. Tal feito permite ao leitor uma identificação de personalidades.

Os personagens Pirulito sonha em ser padre, Volta Seca tem como padrinho Lampião e almeja entrar para o seu bando. Já Professor, o único do grupo que sabe ler, possui vocação para o desenho. Já os personagens secundários como o Padre José Pedro, a mãe de santo Dona Joaninha, o capoeirista João de Deus e o doqueiro João de Adão auxiliam na construção do texto.

Outra questão abordada é a desigualdade social. A cidade é assolada pela varíola. Mas, o alastrim fez um número maior de vítimas nas regiões periféricas devido ao déficit de medidas profiláticas. “Omulu mandou a bexiga negra para a cidade. Mas lá em cima os homens ricos se vacinaram, e Omulu era deusa das florestas da África, não sabia desta coisa de vacina”.

A obra que já foi queimada em praça pública por ordem do Estado Novo, no ano de seu lançamento, 1937, é leitura fundamental para o nosso tempo. Visto que, discute problemas ainda vigentes como as práticas usadas pelo Estado para ressocialização de menores.

 
“ É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade”... 
                                                                                                 (Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA)


 

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