17/04/2020 às 12h40min - Atualizada em 17/04/2020 às 12h40min

Frankenstein: o homem como monstro de si mesmo

“É preciso que ouça minha história”.

Letícia Franck
Pixabay
Ao contrário do que muitos pensam, Frankenstein não é o nome do monstro na obra de Mary Shelley, lançada pela primeira vez em 1818, sob título de Frankenstein: or the Modern Prometheus, no original em inglês, que viria a ser alterada até 1831, versão publicada como definitiva. A narrativa contada através de cartas se refere ao protagonista como “criatura”, “monstro”, “demônio”, “desgraçado”. Particularmente, não acho errado que pensem que Frankenstein é o personagem assustador da história, porque de certa forma, ele é o responsável por todos os tormentos que ocorrem durante a obra. Mas isso vem depois. Por enquanto, aguarde.

Comecemos pelo capitão Robert Walton.

Walton, um jovem solitário com desejo de aventuras e conhecimento, conta por meio das correspondências que ele envia para sua irmã, seu novo empreendimento: uma viagem até os confins do Norte. Por meio delas, acompanhamos o nascimento da escolha, a conquista da embarcação e de ousados marinheiros, o começo de sua jornada e o momento em que Walton é duplamente surpreendido: primeiro, ao avistar um vulto monstruoso, depois, ao resgatar um homem de feições tristes do frio congelante. O capitão conta a sua irmã que transcrevera a história daquele pobre homem, Victor Frankenstein.

Frankenstein revela que foi um cientista ambicioso e cheio de cobiça em sua juventude, que o fez transpor fronteiras jamais vistas pelo conhecimento humano e, nesta empreitada, amaldiçoou o mundo com uma terrível criatura. Victor não tinha ideia da dimensão de sua ganância e passa a narrativa inteira tentando se livrar da culpa de ter criado tão horrenda monstruosidade. O assassinato de William, seu irmão mais novo, é apenas o início de sua tortura. Fora a sucessão de brutalidades narradas ao longo do texto, a sanidade mental do doutor acaba ficando afetada.

Lutando contra o desespero, o doutor Frankenstein resolve escalar o Monte Branco. Durante a subida, é encontrado por sua criatura. O monstro conta sua história, narrando como fugiu do laboratório para uma floresta próxima, onde aprendeu a comer frutas e vegetais, e a usar o fogo. A sensibilidade que a criatura tem em diversos pontos do livro nos faz querer sair de dentro de nós mesmos e olharmos em torno, avistarmos o que se encontra a nossa volta e o quanto somos parecidos com a criatura. Não somos assustadores por nossa aparência, somos por nossos atos. E isto se reflete nessa obra com diversas constatações a respeito de amor, solidão, incapacidade, mesquinhez, egoísmo, sentimentos bons e sentimentos ruins. É uma mescla, um misto. Uma forma de nos encararmos e pensar: que tipo de monstro eu sou? No final do livro você não deseja ser o humano, você se identifica com o horrendo. Uma obra vigorosa, atual, e que deixa claro que não é possível fugir das consequências dos nossos atos.

A proposta aqui não é fazer uma resenha cheia de spoilers, mas sim tentar te convencer a ler esta autora extremamente sensível e com doses exatas de elementos góticos. O monstro, imortalizado na figura verde com parafusos na cabeça, representa todos nós, em certos pontos. É uma obra atemporal, que levanta questões sobre o que nos faz dignos de levantarmos amanhã.

Coincidentemente ou não, também dialoga com os tempos que estamos vivendo. É preciso atentar até que ponto nosso egoísmo pode acarretar corpos empilhados. Até que altura podemos subir sem derrubar a escada do outro. Até onde vai nosso senso de empatia. Será que ele realmente existe ou só estamos cansados de ficar parados fazendo nada? E se for isso, será que é mesmo nada ou pode ser o tudo de alguém? É complicado, né? Explosivo também. Assim como nós: bombas ativas. Ainda não nos acostumados com o proibido. Ele não nos parece tão legal agora. Nada é legal agora. Veja as notícias, perceba os números. Tem milhões de pessoas doentes, tem muita gente morrendo, tem muito corpo enterrado sem despedida.

É isso. O que você quer ser depois dessa quarentena?
 
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