19/04/2020 às 14h47min - Atualizada em 19/04/2020 às 14h47min

Crônicas de Clarice Lispector: escritora flertou com o jornalismo

Fiamma Lira - Fiamma Lira
Divulgação/Rocco
A escritora Clarice Lispector produziu uma boa quantidade de crônicas na sua carreira. A ucraniana naturalizada brasileira foi cronista do Jornal do Brasil entre 1967 a 1973, no qual criou dezenas de escritos semanais com suas impressões sobre o mundo e a vida.

Clarice já era uma escritora consagrada na literatura brasileira quando iniciou no gênero no dia 19 de agosto de 1967, data de sua estreia como cronista no Jornal do Brasil, aos 46 anos de idade. A nova atividade de Lispector surgiu diante do convite feito pelo editor-chefe do veículo, Albert Dinnes, para escrever crônicas aos sábados. O convite foi feito em meio à separação com o diplomata Maury Gurgel Valente e ao seu retorno ao Rio de Janeiro junto com os seus dois filhos: Pedro e Paulo.

As crônicas escritas por ela eram de dar inveja aos cronistas mais dedicados ao ofício. As obras são uma prova viva da vasta contribuição da autora não só na literatura, mas também, no jornalismo. Seus textos contribuíram de forma excepcional ao trabalho da imprensa do Brasil.  

A convite de Rubem Braga, escreveu no jornal Comício, a coluna “Entre mulheres”, sob um pseudônimo.      No Diário da Noite, levada novamente por Dines, foi ghost writer da atriz e manequin Ilka Soares na seção “Só para mulheres”.  

O trabalho de Clarice nos veículos de comunicação começou muito antes do seu reconhecimento como escritora. Em 1940, ela realizou uma entrevista com o poeta Tasso da Silveira. Ao longo da sua carreira, ela escreveu mais de 5 mil textos entre colunas femininas, fragmentos de ficção, crônicas, além de realizar mais de 100 entrevistas em diversos jornais e entrevistas. Todo esse material está reunido na coletânea Clarice na Cabeceira – Jornalismo, organizado pela professora universitária Maria Aparecida Nunes e lançado pela editora Rocco.

Clarice tinha um estilo único na produção textual, no entanto, ela aprendia e se adaptava aos gêneros jornalísticos na exexução do seu trabalho, porém, sem perder sua originalidade e identidade. Era uma profissional dedicada e, como tal, incansável na busca de detalhes das fontes das suas pesquisas, a fim de cumprir com suas demandas e traçar um perfil verdadeiro e fiel dos seus entrevistados.


Fonte: Reprodução da Internet

Seguem abaixo alguns trechos de crônicas da autora:

A PERFEIÇÃO
 
O que me tranquiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo o que existe é de uma grande exatidão. Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível. Apesar da verdade ser exata e clara em si própria, quando chega até nós se torna vaga pois é tecnicamente invisível. O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição.
 
INSÔNIA INFELIZ E FELIZ

De repente os olhos bem abertos. E a escuridão toda escura. Deve ser noite alta. Acendo a luz da cabeceira e para o meu desespero são duas horas da noite. E a cabeça clara e lúcida. Ainda arranjarei alguém igual a quem eu possa telefonar às duas da noite e que não me maldiga. Quem? Quem sofre de insônia? E as horas não passam. Saio da cama, tomo café. E ainda por cima com um desses horríveis substitutos do açúcar porque Dr. José Carlos Cabral de Almeida, dietista, acha que preciso perder os quatro quilos que aumentei com a superalimentação depois do incêndio. E o que se passa na luz acesa da sala? Pensa-se uma escuridão clara. Não, não se pensa. Sente-se. Sente-se uma coisa que só tem um nome: solidão. Ler? Jamais. Escrever? Jamais. Passa-se um tempo, olha-se o relógio, quem sabe são cinco horas. Nem quatro chegaram. Quem estará acordado agora? E nem posso pedir que me telefonem no meio da noite pois posso estar dormindo e não perdoar. Tomar uma pílula para dormir? Mas e o vício que nos espreita? Ninguém me perdoaria o vício. Então fico sentada na sala, sentindo. Sentindo o quê? O nada. E o telefone à mão.

Mas quantas vezes a insônia é um dom. De repente acordar no meio da noite e ter essa coisa rara: solidão. Quase nenhum ruído. Só o das ondas do mar batendo na praia. E tomo café com gosto, toda sozinha no mundo. Ninguém me interrompe o nada. É um nada a um tempo vazio e rico. E o telefone mudo, sem aquele toque súbito que sobressalta. Depois vai amanhecendo. As nuvens se clareando sob um sol às vezes pálido como uma lua, às vezes de fogo puro. Vou ao terraço e sou talvez a primeira do dia a ver a espuma branca do mar. O mar é meu, o sol é meu, a terra é minha. E sinto-me feliz por nada, por tudo. Até que, como o sol subindo, a casa vai acordando e há o reencontro com meus filhos sonolentos.

SIM

Eu disse a uma amiga:
– A vida sempre superexigiu de mim.
Ela disse:
– Mas lembre-se de que você também superexige da vida.
Sim.

O VESTIDO BRANCO

O vestido branco Acordei de madrugada desejando ter um vestido branco. E seria de gaze. Era um desejo intenso e lúcido. Acho que era a minha inocência que nunca parou. Alguns, bem sei, já até me disseram, me acham perigosa. Mas também sou inocente. A vontade de me vestir de branco foi o que sempre me salvou. Sei, e talvez só eu e alguns saibam, que se tenho perigo tenho também uma pureza. E ela só é perigosa para quem tem perigo dentro de si. A pureza de quem falo é límpida: até as coisas ruins a gente aceita. E têm um gosto de vestido branco de gaze. Talvez eu nunca venha a tê-lo, mas é como se tivesse, de tal modo se aprende a viver com o que tanto falta.

Também quero um vestido preto porque me deixa mais clara e faz a minha pureza sobressair. É mesmo pureza? O que é primitivo é pureza. O que é espontâneo é pureza. O que é ruim é pureza? Não sei, sei que às vezes a raiz do que é ruim é uma pureza que não pôde ser.

Acordei de madrugada com tanta intensidade por um vestido branco de gaze, que abri meu guarda-roupa. Tinha um branco, de pano grosso e decote arredondado. Grossura é pureza? Uma coisa sei: amor, por mais violento, é.

E eis que de repente agora mesmo vi que não sou pura.

MAS HÁ A VIDA

Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata.

UM ADOLESCENTE: C.J.

Ele é grande, tem ombros de ossos largos, anda um pouco curvo: isto passa, é o peso da adolescência. Ele é lento, ele é profundo, ele semeia devagar. Na cara de camponês grosso a profundeza calada de camponês. Ele dormirá bem com uma mulher. Se não se enrolar demais nos largos e fundos meandros de suas pesadas hesitações. Ele é calado, não sabe ainda falar o que se costuma falar, e então não diz. Também não sabe que tem pernas retas, pesadas e bonitas. Uma vez falou: quero qualquer profissão que me baste para viver; pois enquanto isso teria tempo de fazer alguma coisa “concreta, muito objetiva”. Ele é desastrado, quebra coisas sem querer, pede desculpas com um meio-sorriso assustado. É preciso ter paciência com ele. É preciso ter paciência com os que são grandes como ele. Tanta paciência. Porque ele pode vir a ser esse silencioso desastrado a vida toda, e não passar disso. É um dos tipos de adolescência mais perigosos: aquele em que muito cedo já se é um homem um pouco curvo, e também nele se sente a grandeza sem palavras.
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