30/04/2020 às 11h29min - Atualizada em 30/04/2020 às 11h29min

Ainda é tempo de amar Hilda Hilst

“Tu podes ir, e ainda que se mova o trem, tu não te moves de ti”

Letícia Franck - Editado por Rafael Campos
Catraca Livre
A primeira vez que li Hilda Hilst foi em forma de entrevista. Assim como ela, também fiquei besta do quanto ela foi capaz de entender o mundo, as pessoas e tudo o mais. De um jeito muito particular, foi a voz de toda uma geração, ainda que vivendo numa espécie de exílio intelectual.

Hilda de Almeida Prado Hilst transitou com a mesma desenvoltura pela poesia, pela ficção, pela crônica e pelo teatro. Não lembro, sinceramente, de ter lido algo dessa mulher e não ter gostado tanto. Por ter em si a originalidade própria dos grandes autores e ter sido capaz de construir um legado literário tão bem posto -ou até acima- das tendências de seu tempo, decidiu, em um determinado momento, se aventurar pela literatura pornográfica, quando escreveu “O caderno rosa de Lori Lamby” (1990), “Contos d’escárnio/Textos grotescos” (1990) e “Cartas de um sedutor” (1991).

Obsceno? Ninguém sabe até hoje o que é obsceno. Obsceno para mim é a miséria, a fome, a crueldade, a nossa época é obscena”.

Se fez sucesso? Não. Segundo constam nos textos por aí, apesar do prestígio literário, Hilda muitas vezes foi publicada com baixas tiragens e, durante anos, parte de sua obra esteve fora de catálogo ou esgotada. Cria de Jaú, no interior de São Paulo, a intensa escritora era conhecida como uma mulher difícil de ser lida. Intelectual, erudita, aquém do entendimento humano.

Apesar da carreira precoce, iniciada aos 20 anos, formou-se em Direito no Largo São Francisco dois anos após, mas esperou chegar aos 36 para ir morar na Casa do Sol, em Campinas, onde viria a morrer em 2004, vítima de uma isquemia. Lá, buscou uma rotina mais reclusa e concentrada na escrita.

Hilda era livre. Muito mais livre do que qualquer permissão daquela época. Namorou quem teve vontade, se casou com quem quis e descasou pelo mesmo motivo. Não teve filhos por opção. Mas teve cachorros. Muitos, aliás. Dezenas deles. Falava e descrevia com detalhes cada um. Mas o reconhecimento, como ela mesma dizia, veio um pouco tardio. 15 anos após sua morte, nunca foi tão lida e pesquisada. Hilda Hilst foi a homenageada da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em 2018.

A falta de relação com o pai, diagnosticado com esquizofrenia quando ela tinha sete anos, também era uma constante em sua literatura, e de alguma forma, Hilda gostaria de dar orgulho ao poeta e fazendeiro, dizia em suas entrevistas que ficava se perguntando por que Freud privilegiou Édipo e não Mirra, a incestuosa, que embriagou o pai e engravidou dele, parindo Adônis. “Sempre procurei meu pai. Sempre quis ter alguma semelhança com ele”, disse ao Jornal do Brasil, em 1989.

No dia 21 de abril, -ocasionalmente ou não- Dia Mundial do Livro, Hilda completaria 90 anos. Deixando legados e textos traduzidos para o francês, alemão, inglês e italiano, a feminista nata dos anos 50 foi o espírito selvagem, revolucionário e uma mulher extremamente talentosa. Hilda só fez aquilo que quis. Não foi nada do que não pretendia ser. Não deixou se levar por críticas, abalos, comentários. Não calou sua voz: ecoou. Nunca houve uma mulher como Hilda.
 
Principais obras:
  • Fluxo Floema (ficção, 1970)
  • Cartas de um Sedutor (ficção, 1991)
  • Tu Não te Moves de Ti (ficção, 1980)
  • Alcoólicas (poesia, 1990)
  • Bufólicas (poesia, 1992)

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