02/05/2020 às 18h31min - Atualizada em 02/05/2020 às 18h31min

O que gera o "cancelamento"?

Especialistas buscam a origem dessa cultura e as principais características

Ana Beatriz Motta - Editado por Letícia Agata
Site Pixabay- Por Markus Spiske
O verbo “cancelar” ganhou mais um sentido além de anular e eliminar algo: boicotar pessoas que se envolveram em polêmicas ou tiveram comportamentos inadequados. Eleita como termo de 2019 pelo Dicionário Mcquarie, a cultura do cancelamento está ganhando cada vez mais dimensão e força nos meios digitais, ultrapassando até mesmo os fenômenos de hate e cyberbullying, os quais costumavam ser predominantes na internet.

A lista de “cancelados” por dia chega a ser incalculável e geralmente essa exclusão é caracterizada pelo linchamento. Os motivos mais comuns estão diretamente ligados às falas ou condutas preconceituosas e antiéticas. Engana-se quem acredita que apenas celebridades e políticos são atingidos e que pessoas comuns são impunes nesse fenômeno.

A nova edição do Big Brother Brasil foi prova disso. Praticamente todos os participantes do reality show, inscritos ou não, foram alvos de cancelamento por algum ato dentro ou fora da casa. Suas torcidas não ficaram fora disso.

Gabriela Ramos, 18, foi uma das vítimas dessa cultura. Ao declarar sua preferência pela eliminação do modelo Guilherme Napolitano, ela foi acusada em seu círculo de amizade de minimizar o assédio cometido por Pyong Lee no programa. Após perder seguidores e receber julgamentos pelo ocorrido, a estudante de jornalismo alega que atualmente sente medo de se posicionar.

“Tem muita gente que quer militar em cima de coisa que não tem tanta necessidade. Precisa saber dosar para não afetar a saúde mental de ninguém. Eles lidam como se fossem superiores como ‘eu sou o dono da verdade e você está errado’. Na minha percepção, eu não estava ofendendo ninguém”.

Por outro lado, Gabriela enxerga o cancelamento como uma forma de fazer com que as pessoas reflitam sobre seus erros, sobretudo, as figuras públicas que possuem influência sobre seus seguidores. O caso mais recente envolveu a blogueira fitness, Gabriela Puglise, que perdeu 150 mil seguidores e cerca de 3 milhões de reais em publicidade por fazer uma festa em sua casa durante o isolamento social.

Para o professor de psicologia da PUC de São Paulo, Helio Deliberador, a cultura do cancelamento está fundamentada na polarização e intolerância incentivada pela cultura política do país. “Isso é mecanismo de que se não gosto de algo elimino, nego, excluo. Para as pessoas excluídas fica a resposta à eliminação, incentivando ainda mais essa cultura da intolerância”, declara. Como solução para o problema dessa geração, o psicólogo ainda diz que é preciso treinar a tolerância com o diferente, o que é um desafio.

Há alguns anos, era comum a criação de perfis fakes para propagar ódio a alguém. Atualmente, os famigerados “canceladores” não escondem suas identidades e manifestam sua indignação por meio de comentários e unfollows nos perfis dos “cancelados”.

Segundo a pesquisadora em comunicação digital da USP, Issaaf Karhawi, a dinâmica do cancelamento é uma versão potencializada do cyberbullying, devido à repercussão gerada. “Se tem um assunto que está sendo muito discutido numa velocidade muito alta, naturalmente o algoritmo vai entender que aquilo deve ser reverberado ainda mais”, afirma.

Além disso, ela acredita que os algoritmos são os principais responsáveis pela proporção que o linchamento pode causar. “É uma lógica da supersegmentação. Se você já consome sobre um assunto, o algoritmo continua te oferecendo esse assunto e sem que a gente perceba ou queira, a gente acaba caindo dentro de bolhas informativas. Quando a gente sai da lógica da nossa bolha, tudo o que é estranho a isso acaba sendo um motivo de aversão, de linchamento”.

Outro fator que implica tanto a proporção do boicote quanto o tempo da duração do “cancelamento”, é a rapidez das redes sociais. Por esse motivo, depende dos motivos que levaram ao cancelamento de alguém para saber se as consequências serão de longo prazo ou não, mas ainda é difícil determinar seus efeitos.

“Se uma pessoa sofre um cancelamento que tem importância só para um grupo social específico, pode ser que esse cancelamento seja apagado em alguns meses, dias ou semanas. Mas agora se esse cancelamento consegue uma visibilidade para além do grupo social que o conjeturou, pode ser que essa pauta tocou em assuntos mais delicados socialmente e pode ser que esse cancelamento perdure por mais tempo”, informa Issaaf.
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