10/06/2020 às 00h33min - Atualizada em 10/06/2020 às 00h24min

O amor sentido em palavras

O que Bent tem a nos ensinar em meio a crise da Covid-19?

Juliana Barbosa - Editado por Bruna Araújo
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A construção histórico-social da raça humana, é permeada por diversos momentos de desordens e obscuridades, em sua grande maioria, causados pelo próprio ser humano. Mas, em algumas ocasiões, a mãe natureza resolve mostrar que o seu poder sobrepõe as vontades do ser humano. 
 
Quem poderia ter imaginado que estaríamos presos a essa situação desesperadora que circundaria o toda a população mundial. Ninguém pôde prever o caos que se instalaria no mundo após a China, em dezembro de 2019, alertar a Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre casos de pneumonia causados por um vírus desconhecido. Então? Isso é coisa do homem ou da mãe natureza?
 
Após seis meses desde o anúncio, sabemos que  o vírus é chamado de Corona Vírus Disease (Covid-19), entendemos como ocorre a contaminação, como ele tem alterado o estilo de vida de milhares de pessoas ao redor do mundo, e que, não existe uma vacina ou um remédio específico que possa curar os infectados.
 
Afim de evitar a proliferação e o número de contaminados, a OMS fez uma série de recomendações, sendo que uma das principais é o distanciamento e isolamento social.
 
A rotina de muitas pessoas foi alterada em razão da pandemia causada pelo novo coronavírus. Aulas foram suspensas, alguns passaram a trabalhar em home office e outros, infelizmente, perderam seus empregos.
 
Em meio à crise, as relações socias estão sendo afetadas pelas medidas de distanciamento social adotadas em diversos países, e Aristóteles, famoso filósofo grego, afirmava que o ser humano é um ser social. Conforme afirmava o autor de "Poética", o homem precisa de outras pessoas porque é um ser incompleto. Sendo assim, precisa de outras pessoas para se sentir pleno e feliz.
 
Neste momento, em que todos são levados a refletir sobre suas ações e comportamentos, é impossível não pensar em como serão as relações a partir de agora, considerando que o contato físico está praticamente proibido em todo o mundo. A recomendação é que as pessoas mantenham minimamente dois metros de distância umas das outras.
 
O que fazer?  Como estabelecer conexões com outras pessoas se o abraço, o beijo e o aperto de mão tão característicos das relações humanas estão agora proibidos?
 
E tem mais. Como estabelecer uma relação amorosa se não posso nem ao menos tocar o outro? Parece impossível, não é mesmo?!
 
Não segundo Bent.
 
Bent é uma peça teatral criada por Martin Sherman, que em 1996 foi adaptada para o cinema pelo diretor Sean Mathias, e teve como objetivo mostrar a relação proibida entre dois homens no campo de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial. O detalhe desta relação é que eles jamais poderiam se tocar.
 
Sim, em Bent, no campo de concentração nazista, dois homens se amaram sem ao menos se tocar.
 
O filme conta a história de Max, membro de um grupo teatral que vive sua vida apenas em busca de prazer e satisfação pessoal. Sua vida de aventuras o faz esquecer que ele é um judeu homossexual em meio a uma guerra, na qual uma nação luta pela supremacia de uma raça pura.
 
Na produção cinematográfica de Bent, a maneira como os homossexuais foram representados no primeiro ato, foi muito criticada por mostrar os homossexuais como exagerados e afeminados, e um exemplo disso, foi a representação de Mick Jagger, vocalista dos Rolling Stones, no papel da travesti Greta.
 
Apesar das duras críticas que recebeu, Bent retrata a história de Max e Horst, dois homossexuais que se conheceram no trem a caminho do campo de concentração. Durante o percurso, Horst explica que o triângulo rosa era a pior classificação a se receber e esta era dada aos homossexuais. Os judeus recebiam o triângulo amarelo. 
 
Max, afim de evitar receber essa classificação, se submete aos testes dos soldados nazistas para provar ser hétero e recebe o triângulo amarelo. Apesar de ser duramente criticado por Horst, Max não volta atrás por temer os castigos que poderia receber.
 
No campo de concentração, os personagens são colocados em locais de trabalho diferentes. Enquanto Max tinha que somente mudar as pedras de um lado para o outro, Horst tinha um trabalho mais pesado por ter recebido o triângulo rosa.
 
Afim de ter alguém próximo para poder conversar, Max suborna um soldado para que Horst, possa ser colocado para trabalhar junto a ele. Contudo, o outro não gosta da mudança, e tenta ignorar o seu quase amigo.
 
Enquanto os dias se passavam, ambos se tornaram mais próximos e conversavam sem chamar a atenção dos soldados. Durante uma das pausas, na qual ambos tinham que ficar em pé sem se mover, com palavras, Horst estimulou Max, como se estivesse o tocando, despertando no outro, desejos e vontades que haviam sido enterrados desde que fora capturado. E Max, para não ficar para trás, fez o mesmo com o amigo. Apenas com palavras, procuravam sentir o prazer, que de forma covarde, lhes foi tirado. E após um momento de entrega de ambas as partes, Max e Horst riram de seus inimigos, que acreditavam ter lhes roubado seu direito de amar.
 
Bent não é um filme com um final feliz, mas ensina que mesmo em meio a pior adversidade, é possível encontrar novas formas de amar e de estabelecer contato com outras pessoas. O sentimento desenvolvido entre Marx e Horst, estava além do prazer sexual. Ambos aprenderam a importância de se ter alguém para amar em meio ao caos. 
 
Histórias são lições que possibilitam a evolução do comportamento das pessoas. Bent é baseado na traumática história vivenciada por milhares de pessoas em todo o mundo, durante a perseguição nazista aos judeus, homossexuais e todos que se colocavam contra o regime.
 
Não é difícil estabelecer uma conexão de Bent com a atual situação do mundo modificada pela pandemia do novo coronavírus. Famílias, amigos, casais e colegas de trabalho, estão sendo submetidos a novas formas de relacionamento em razão do distanciamento e isolamento social.
 
No filme, Max e Horst jamais puderam se tocar, mas encontraram uma nova forma de amar, despertada através do entendimento da importância de estar com outra pessoa. Eles foram privilegiados, pois tiveram um ao outro.
 
Em virtude do isolamento social, as pessoas estão perdendo a preciosa conexão que tem uns com os outros. Mas não precisa ser assim. As redes sociais que antes eram consideradas inimigas das relações sociais até certo ponto, agora auxilia a manter essas relações.
 
As emoções estão mais intensas, a necessidade de contato com outros seres humanos nunca foi tão desejada quanto neste momento.
 
Apesar disso, é preciso acreditar que dias melhores virão. Não importa se será por chamada de voz, vídeo chamadas ou mensagens de texto, diga ao seu próximo que isso tudo vai passar, e que mesmo que as coisas não voltem a ser como antes, o importante é que saiba que sua vida é importante.
 
Permita que alguém se sinta abraçado por suas palavras. #fiqueemcasa

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