22/06/2020 às 15h22min - Atualizada em 22/06/2020 às 15h22min

Análise: El Presidente mostra os bastidores do futebol como antro de imoralidades

Série da Amazon relata o escândalo do Fifagate sob olhar de Julio Grondona , que narra desventuras de seu afilhado fictício

Paulo Octávio
O trio de picaretas: Á esquerda de pé, Rosário, a policial; Nené, a esposa; e Sérgio, o presidente. Foto: Divulgação/Amazon
Os jogadores brasileiros podem desfrutar de prestígio internacional, mas os dirigentes não. A série da Amazon, El Presidente, critica de forma velada João Havelange, Ricardo Teixeira e José Maria Marín, ex-homens fortes do futebol nacional. Os três são citados como corruptos, que “não gostam de trabalhar”, e Havelange até aparece com uma arma. Já J. Hawilla, ex-dono da Traffic, é abordado como homem ganancioso, rancoroso e dedo duro. Na série, Hawilla, após perder exclusividade das transmissões para um novato, abriu a boca e delatou os colegas, que posteriormente foram investigados no Fifagate.


O escândalo é narrado por Julio Grondona, ex-presidente da Federação Argentina, morto em 2014. Ao estilo do Memorias Póstumas de Brás Cubas, ele aparece do além e conta porque sua morte desestruturou parte do esquema de corrupção. E como Sérgio Jadue saiu do nada para se tornar uma marionete dessas negociatas.
 
Jadue era o presidente do La Calera, que ascendeu para serie A chilena. Vaidoso, dias depois da conquista, ele vai até a eleição do novo presidente da confederação nacional, marcada por uma disputa política. A oposição deseja tirar o popular Bielsa do cargo devido o esquema do técnico com uma faculdade. Mas como não era possível, eles escolheram um “presidente iogurte” -- com data de validade --- para fazer serviço sujo de tirar o treinador enquanto o oficial tomava as decisões. Mas o eleito foi pego no esquema da faculdade e teve que renunciar. Assim, Sérgio assumiu o poder de vez.
 
A partir daí, Jadue e sua esposa, Nené, (que se autointitulou primeira dama), com sede de poder, enrolaram-se em um esquema de corrupção e mentiras. Ingénuo, Sérgio virou informante e capacho de Rosário, uma oficial do FBI, que fez papel de garçonete para receber informações privilegiadas. O presidente tenta se safar até o final da série. Já na vida real, o presidente chileno não foi preso nem investigado.
 
Apesar de ser ficção, a série não tem vergonha de citar o nome real dos presidentes e dos investigados. A obra é boa, mas é difícil de maratonar pois episódios são longos e há muitos detalhes que merecem atenção para entendimento do enredo. Problema é que em muitos momentos há uso da estratégia “Juan Kleber” de entretenimento. Principalmente em três pontos negativos. 1) o episódio da visita ao Papa é uma enrolação terrível. 2) Uma jornalista investiga a vida de Sérgio para produção de um perfil,  tem o carro atacado, mas  some da história sem mais nem menos. 3) o excesso de abordagem das imoralidades da agente da FBI e a crise da Nené que vai quebrar carros para desestressar
 
O último capitulo é tão irreal quanto Cem anos de solidão, de Garcia Marques, mas prende com a ação tanto elogiada pelo Havelange, que promete contar seu lado da história na segunda temporada. Fica o sobreaviso para gatilho em uma cena de suicídio e menções a  bebedeira e sexo.
 
A série, que aborda o mundo do marketing e dos altos investimentos das televisões, é lançada enquanto a Amazon é cotada como uma das futuras retransmissoras de jogos do Brasileirão -- caso a MP da TV seja aprovada. A plataforma também deseja patrocinar o Flamengo.  Será que após uma popularização da série ela terá segunda temporada? Qual será a reação dos atuais dirigentes a obra? O logo da série vai estampar a camisa do Mengão? Só as cenas dos próximos capítulos vão responder essas perguntas.



Não é o De Férias com ex, nem 50 Tons, muito menos clipe do Maluma: é o trailer de El Presidente. Canal: Amazon Prime Video Brasil

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