25/06/2020 às 19h33min - Atualizada em 25/06/2020 às 19h07min

Como "A Bruxa de Blair" reinventou a maneira de fazer marketing no cinema.

O que fizeram as mentes por trás do clássico do terror para torná-lo um exemplo de estratégia de marketing

Antônio Henrique Gois - Editado por Letícia Agata
Créditos: Haxan Films e Artisan Entertainment
Em 1993, dois estudantes de cinema da Florida, Daniel Myrick e Eduardo Sanchez, escreveram o primeiro esboço do que viria se tornar um dos filmes mais influentes da história. O projeto começou com um orçamento de menos de 35 mil dólares e alcançou a marca de, aproximadamente, 248 milhões de dólares de bilheteria no mundo inteiro, marca essa que, de acordo com o site britânico ‘Know Your Money’, faz do filme o mais rentável da história. Mesmo aqueles que consideram no páreo filmes de outros períodos, ajustando o valor do dólar da época para hoje, concordam que Blair foi um dos melhores investimentos da história do cinema.
 

Lista de filmes mais rentáveis na história. Proporção estimada de orçamento/bilheteria. (Créditos: Know Your Money, Forbes e statista)
 
Mas o que esses dois jovens diretores e sua equipe fizeram para alcançar esse estrondoso sucesso? Isso é o que vamos discutir abaixo.

“A Bruxa de Blair” ganhou seu lugar na história do cinema por ter sido o primeiro filme a usar a internet como a principal ferramenta do que seria conhecido, meses mais tarde, como um fenômeno de marketing. A obra firmou um método mais em conta para compartilhar e vender produções, que foi explorado ao longo dos anos 90 por vários produtores de filmes, principalmente no cenário independente.

Quando a ideia do filme amadureceu, os diretores começaram a procurar seu elenco principal, encontrando Heather Donahue, Joshua Leonard e Michael Williams. Já que o filme seria gravado no estilo found footage (tradução literal para “filmagem encontrada”), os diretores pagaram 3 aulas de produção de filmes para o elenco, enquanto os 3 iam estudando e se acostumando com as câmeras. Além disso, alguns atores que também fazem aparições no filme, como a senhora Patricia DeCou, que faz Mary Brown, fazem parte da equipe técnica da produção (DeCou era técnica de arte).

A equipe do filme, inclusive os diretores, passaram oito dias filmando na floresta densa, o que resultou em dezenove horas de filmagem bruta, editadas pelos próprios Myrick e Sanchez, num processo que levou oito meses. Essa primeira versão teve, no total, duas horas e meia de duração, sendo feita exclusivamente para o Festival de Sundance. Lá, o filme obteve um grande sucesso, despertando o interesse da Artisan Enterteinment, que o comprou e aumentou ainda mais seu potencial.

Anos antes do filme ser vendido, Sanchez criou um site para a produção, no qual ele mesmo postava informações sobre a história. A estratégia agradou a Artisan, que investiu e pediu para o co-diretor continuar trabalhando no site, que agora contava com várias produções falsas como “velhas” histórias sobre a “antiga” cidade de Blair, relatórios policiais, diários e gravações.
 
Homepage do site oficial do filme. (Créditos: reprodução)

Em abril de 1999, um trailer do filme apareceu no site ‘aint-it-cool-news’, um dos maiores do ramo de entretenimeto nos EUA, e vários sites menores e fóruns da internet discutiam se o que se passava no filme era real ou não, fazendo dele um grande fenômeno, mesmo antes de sua estreia. Na época que o filme finalmente estreou, no dia 16 de junho de 99, o www.blairwitch.com já contava com mais de 22 milhões de acessos, provando o sucesso da sua estratégia de marketing.

Outra jogada curiosa é que, durante esse período de estreia, os 3 atores principais foram impedidos de aparecer em público ou dar entrevistas, aumentando ainda mais a curiosidade sobre a veracidade da obra, fomentando ainda mais o buzz ao redor dela, já que os próprios diretores confirmavam que tudo em tela era real e davam os atores como desaparecidos até mesmo na página do IMDb. Nesse período, devido a crença de que tudo aquilo era realidade, a mãe de Heather recebeu cartões de condolências pela “morte” da filha.

A versão do filme para cinemas, a que vemos hoje em dia, tem uma hora e vinte minutos, sendo formada por found footage. Acontece que na primeira versão, aquela que passou em Sundance, continham entrevistas, outras gravações e explicava a lenda da bruxa mais detalhadamente. Essas gravações não foram descartadas e acabaram sendo utilizadas como material para o “Curse of the Blair Witch” (ou “A Maldição da Bruxa de Blair”), um programa de 45 minutos que foi ao ar no dia 11 de julho no canal Syfy. O programa mantinha a pegada de “falso documentário” da obra, o que chamou a atenção de várias pessoas para o filme, alavancando sua estreia.
 

Imagem: reprodução/ internet 
 
“A Bruxa de Blair” e sua estratégia de cross-media reinventaram a maneira de fazer marketing no cinema, trazendo a nova geração e o mundo da internet como alvos principais na venda e compartilhamento de filmes, incluindo os jovens (de 16 a 24 anos) como uma parte integral, não só de consumidores de obras (como eles já eram) mas também como vetores dela, e mais tarde, produtores de seus próprios filmes.

Depois, consequentemente, o estilo de estratégia de marketing envolvendo o cross-media ganhou bastante atenção, principalmente por causa do seu baixo custo e resultados satisfatórios, trazendo muito mais engajamento e chegando às pessoas por dentro de sua própria casa, sendo utilizado em grandes filmes, como Harry Potter e a Pedra Filosofal, pouco tempo depois de Blair.

 


 
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