25/06/2020 às 20h11min - Atualizada em 25/06/2020 às 20h08min

Sem eles nada anda

Entregadores do apocalipse pedem o básico

Junio Silva - Editado por Bruna Araújo
Imagem: Nelson Almeida/AFP
Os com fé mais forte acham que é um sinal do fim. Cientistas tentam encontrar respostas em laboratórios. Já outros, acreditam que tudo que está acontecendo é um plano de dominação comunista.

Independente da opinião, nos últimos meses, a vida de todo mundo – ou quase – mudou.

Enquanto uns estão trancados dentro de casa, o ronco dos escapamentos e as buzinas de motos ganharam mais espaço nas ruas de cidades onde a maioria do comércio ainda continua fechado.

Sem barzinho com amigos, jantar romântico ou a pizza que salva todo mundo depois do rolé. Hoje, os que podem comer alguma coisa diferente em dias de preguiça precisam esperar o entregador chegar, e não o garçom. Uma ligação ou alguns cliques é o que separa o conforto do lar a pratos de diversos cantos do mundo. Árabe, japonesa, italiana, saudável, gourmet.

O ritmo desacelerou na vida de uns. Mas na deles, aumentou.

Vida de entregador, profissão perigo. Sol, chuva, frio, calor. Dúvida se voltará bem pra casa depois de mais um dia de trabalho carregando comida em suas bolsas coloridas nas costas. Trânsito, assalto, acidente. Além de tentar não se infectar com o novo vírus que assusta o mundo, os que entregam nossos pedidos em casa ainda tem essas preocupações extras.

Tem que dançar conforme a música. Em um dos países mais desiguais do mundo, muitas vezes a chance de conseguir levar um trocado pra casa, é agarrada com unhas e dentes. Ainda que as condições de trabalho não sejam boas.

Entregas a domicílio aumentaram nesse período de isolamento. Mas sem eles, ali na linha de frente, não seria possível. Os donos de negócios que precisam desse trabalho bruto não iam ver o dinheiro caindo na conta.

Por aqui, até mesmo os que têm um carimbo na carteira de trabalho ainda sofrem pra garantir seus direitos. Imagina como é a situação daqueles que não têm essa segurança.

Há quem diga que ter um emprego no meio dessa crise é digno de levantar as mãos para o céu e agradecer. E foi justamente nesse desespero de muitos desempregados que a uberização do trabalho fez sucesso. Mesmo sem oferecer muitos direitos e segurança no trabalho.

Sem o estado intervindo, sobra para empregadores e plataformas definirem suas próprias leis. Aí, o lucro fala mais alto.

Mas uma hora, a desigualdade e falta de reconhecimento pesa. É o que vem acontecendo com entregadores de todo o Brasil. Irônico. Mesmo com o aumento de entregas a domicílio, o ganho de muitos entregadores diminuiu.

Revolta, estado natural do ser humano.

Quem recebe sua comida no conforto do lar ou os que ganham a maior parte do dinheiro das vendes, talvez não entendam os motivos. Mas quem tá na linha de frente, se preocupando em ser mais um número da lista de infectados e com os perigos da cidade, sem deixar a entrega demorar, sente na pele.

Muitas vezes, só quando dói no próprio calo que os olhos se abrem. Se não tiver alguém que faça as entregas. Quando o lanche estiver demorando, ou até mesmo não chegar.

Talvez na próxima quarta, dia previsto para a paralisação nacional de entregadores de aplicativos, os que não conseguem enxergar o rosto por trás do capacete, sintam. Motores prometem roncar e as buzinas tocar em forma de protesto. É o alerta de que sem eles, a coisa não anda. E se não mudar, vai parar.
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