27/06/2020 às 02h41min - Atualizada em 27/06/2020 às 02h41min

Opinião: Cada vez mais as torcidas levantam pautas políticas

Antes vistos como alienados, os torcedores se engajam na luta contra os preconceitos da sociedade

Jeovana Oliveira - Editado por Paulo Octávio
Torcedora da Fúria Alvinegra Feminina. Foto: Jeovana Oliveira
A política está relacionada a toda a nossa sociedade não apenas nas eleições ou na administração de nações e Estados. Ela atua junto com o futebol e está ligada aos direitos sociais. E as arquibancadas possuem voz como direitos sociais e culturais refletidos diretamente na sociedade. As torcidas sempre atuaram em pautas políticas. A Gaviões da Fiel, maior torcida organizada do Corinthians, foi fundada no meio da Ditadura Militar. E junto com Sócrates defendeu a democracia no país na campanha das diretas-já em 1984.


 Sócrates na época da democracia corinthiana Foto: J.B.Scalco

Thiago Carlos, historiador, professor e doutorando em Estudos do Lazer (UFMG), acredita que no passado não houve influencia das ditaduras com o desenvolvimento do futebol. Mas os militares estimulavam a construção de estádios e de campeonatos. E influenciaram no regulamento do Brasileirão de 1979. Naquele ano ficou famoso o slogan “onde a Arena (partido do governo) vai mal, um time no nacional. Onde vai bem, outro também”. Ou seja, os militares incentivaram a presença de clubes no torneio para ganhar popularidade.

Atualmente, é mais fácil perceber a união do futebol e da política principalmente nas arquibancadas. A relação entre os dois sempre foi de aproveitamento em cima da popularidade do outro, sendo utilizada como forma de “palanque” para a garantia de votos. Carlos exemplifica isso com o momento de Belo Horizonte. A capital mineira e o senador do estado são ex-presidentes de Cruzeiro e Atlético Mineiro. Alexandre Kalil foi eleito prefeito em 2016; e Zezé Perrella, senador, em 2018.

Mas também as torcidas mostram as suas forças com seu protesto contra o futebol moderno e a elitização do esporte. Ano passado, a Jovem, do Santos, e Sangue Jovem protestaram contra a presença de Jair Bolsonaro no clássico entre o Peixe e o São Paulo. Porque eles tem os posicionamentos e a ideologia diferentes da do presidente.

Por outro lado houve uma extensa lista de atletas e ex-atletas que incentivaram a eleição do Bolsonaro. Porém muitos ainda preferem se omitir quando o assunto é política. E após as eleições e a postura militarista do bolsonarismo, as declarações de apoio se tornaram habituais. Como a comemoração do gol do Diego Souza com o gesto de continência no jogo entre São Paulo e Flamengo.

Para Ana Clara Costa, integrante da Resistência Azul Popular, o movimento nasceu a partir da percepção de que a política e o futebol se comunicam. Principalmente  quando afeta na perseguição às torcidas organizadas, que não está  desassociada aos movimentos populares e ao racismo e elitismo existentes na sociedade brasileira como um todo. Já para Vitor Canto, diretor-geral da torcida Pavilhão Independente, a instituição está presente nas mais diversas associações comunitárias, diretórios estudantis, além de exercer o protagonismo em lutas trabalhistas e pela democracia.  
 
 Dizer que a política não se envolve com o futebol é uma falácia. Nos últimos anos, aumentou o número de movimentos que mostram suas ideologias. E que pautam a luta contra as opressões, inclusão social e contra a elitização no esporte. As torcidas são o reflexo da nossa sociedade patriarcal com todas as opressões às minorias, que se organizam em grupos dentro do estádio de acordo com seus ideais. As torcidas mineiras possuem em seu quadro movimentos majoritariamente de esquerda, que se concentram na busca por melhores condições nos estádios e arenas,fim dos preconceitos e da estrutura de racismo, machismo e lgbtfobia.

 No Cruzeiro, a Resistência Azul Popular; e no Atlético, a GRUPA, tem como maior objetivo foi combater os preconceitos e tornar o futebol mais incluso. Carolina Leandro, integrante da GRUPA, relata que “o coletivo feminista sempre possuiu como maior objetivo ocupar espaços e nos posicionar. Somos contra os preconceitos e defendemos o espaço das minorias, toda vez que a política as envolve, afeta nossas atividades”.

Não foi possível encontrar alguma torcida que diga ter em sua ideologia questões relacionadas à direita. Em sua maioria eles relatam não possuir qualquer envolvimento com grupos políticos. Apenas apoiam com o que lhe convém no momento das eleições (no caso algum candidato que queira oferecer dinheiro em troca de votos e publicidade). Em 2018, nas eleições para o senado de Minas Gerais, a torcida Máfia Azul declarou apoio ao candidato Aécio Neves, que possui relações diretas com o ex-presidente do CruzeiroPerrella.

No Rio Grande do Sul, a torcida Guarda Popular, a maior torcida do Internacional, foi fundado com o viés esquerdista. Para Marx Leo, torcedor e integrante da barra brava, a Popular do Inter é uma torcida apartidária. Porém com uma ideologia de esquerda que defende a causa das minorias e combate fortemente qualquer tipo de opressão ou o ato que possa afetas a causa das classes menos favorecidas.  Mas o principal foco sempre será o Colorado, e qualquer coisa diferente disso tratada de forma secundária. No próprio clube existe o movimento Inter Antifa, onde se reúnem torcedores de diferentes torcidas organizadas -- e sem ser de organizada -- em prol da afinidade política em torno do antifascimo e pela paixão pelo clube.

A relação da política e o futebol não são exclusivas às torcidas do Brasil. Na Liga Europa, antes do jogo entre Celtic e Lazio, torcedores do clube escocês manifestaram repudio aos atos fascistas por parte de torcedores do time italiano. Nas arquibancadas foram exibidas faixas com a imagem do ex-governante Mussolini morto. Também houve episódios no Chile. As principais torcidas não concordaram com a volta do futebol em meio aos protestos no país. Por isso, o jogo entre Universidad de Chile e Internacional, pela Libertadores, foi antecipado. Mesmo assim, houve atos de violência durante a partida.  

O principal papel dos movimentos dentro do futebol é abrir a mente de cidadãos que não possuem proximidade e uma boa relação com a política e seus governantes. O entendimento básico sobre a sua relação é primordial para o avanço de um futebol mais democrático, menos elitista e sem preconceitos. 
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