06/07/2020 às 12h47min - Atualizada em 06/07/2020 às 11h25min

Marlon Brando: 16 anos sem um dos maiores astros do cinema

Conheça mais sobre a infância, carreira, vida pessoal e das críticas ao cinema Hollywoodiano

Gustavo Domingos - labdicasjornalismo.com
Documentário: Listen to me Marlon
Crédito: Listen to me Marlon/Stevan Riley
Na última quarta feira (1), completaram-se 16 anos da morte de Marlon Brando Jr., ou simplesmente, Marlon Brando. O ator revolucionou a forma de atuar e de se fazer cinema com seu method acting, criando performances memoráveis e sendo um ponto de referência para outros artistas. Foi indicado oito vezes ao Oscar, vencendo dois como melhor ator.
 
Infância e adolescência
 
Marlon Brando, nasceu em 3 de abril de 1924, na cidade de Omaha. Sua infância foi bastante conturbada. Sua mãe era alcoólatra e pouco presente, Brando conta no documentário "Listen to me Marlon", as lembrança de ter que tirá-la várias vezes da cadeia. Na época, moravam em uma cidade pequena, sua mãe tinha a fama de “bêbada”. Pelo lado paterno, as coisas não eram melhores. Seu pai era um vendedor ambulante, um homem “durão” que o batia sem motivo. Não ficava em casa, bebia e se envolvia com prostituas.
 
Quando criança, Brando vendia garrafas e cortava gramados. Ganhava 0,10 centavos por esses trabalhos. Mesmo a quantia sendo pouca, com esse dinheiro podia ir ao cinema, e assim, escapava de tudo que o incomodava. O astro descreve esses momentos como mágicos! Estar numa sala escura era como fugir da realidade triste que vivia.

                                                         
 
Já na adolescência, Marlon foi obrigado por seu pai a estudar em uma escola militar, que o mesmo tinha frequentado. Sobre o exército, o ator a lembra da ideologia de ter que “ser o mais mecânico possível”. Ele odiava aquilo e foi expulso algumas vezes por seu comportamento. No colégio, passava a maior parte do tempo na biblioteca e foi nesse período que descobriu o Taiti. Ficara tão encantado com a beleza do país que passou a amá-lo e tempos depois chegou a morar.
 
Após a escola militar, mudou para New York. Mas, tornou-se ator por acaso, já que ganhou um bolsa na “New School”. Foi lá que conheceu a professora e atriz, Stella Adler. Utilizando o movimento realista nas interpretações, baseando-se no dramaturgo russo Constantin Stanislavski, Stella apresentou ao jovem ator o method acting, o qual descaracterizava as atuações mecânicas ou automáticas das décadas de 1930 e 1940 no cinema de Hollywood.
 
Por um bom tempo, Brando morou na casa de Stella. De certo modo, ela sempre acreditou em seu aluno – mesmo quando o próprio não acreditava em si. Brando lembrava-se de uma frase importante que Adler lhe falara uma vez: “Não se preocupe meu garoto! O que eu vi em você, o mundo vai ouvir sobre você”.

                                                     


Carreira e o método de atuação
 
Marlon Brando chamou atenção ainda no teatro. Ele atuava na peça de Tennesse Williams chamada “Streetcar Named Desire” (Um Bonde Chamado Desejo) – que posteriormente foi filmada para o cinema e recebendo o título no Brasil de “Uma rua chamado pecado”, sendo lançada em 1951. No longa, o jovem ator interpretava Stanley Kowalski, papel que lhe rendeu a primeira indicação ao Oscar. No entanto, devido a atrasos, seu primeiro filme no cinema foi “The Man” (Espíritos Indômitos), lançado em 1950, em que interpretou um ex-soldado paraplégico. Ao longo desses trabalhos, Brando sempre estudava sobre os personagens. Para "The Man", passou semanas convivendo com ex-combatentes paraplégicos para entender de perto como se sentiam, suas frustrações, comportamentos e visões de vida.
 
Como o ritmo das produções foi aumentando
, rapidamente Brando foi sendo reconhecido nas premiações, tendo maior quantidade de indicações ao Oscar. Foram três indicações para Melhor Ator, sendo elas em: Viva Zapata! em 1952, Julius Caesar (Júlio César), 1953 e  On the Waterfront (Sindicato de Ladrões), em 1954. Foi apenas com o último que Brando  ganhou a estatueta, tornando-se na época, o ator mais jovem a conquistar essa premiação. Vale ressaltar, que em 1954, o ator fez The Wild One (O Selvagem), um sucesso para a juventude da época.


                                                      

A década de 1950, trouxe ao cinema a inovação – que Marlon aprendera com sua professora, Stella Adler. O astro diz  “nunca deixe o público saber o que vai ser. Surpreenda-os no seu tempo”. Sua intenção é “parar o movimento da pipoca para boca”, referindo a reação do público com a grande surpresa que aconteceu em cena, deixando de lado a cultura do óbvio marcada pelas décadas anteriores.
 
De certo modo, todo astro de cinema tem sua “montanha-russa”. Nos anos 60, a personalidade de Marlon fez com que trabalhar com ele fosse um desafio. Em 1961, dirigiu o western "One-Eyed Jacks" (A Face Oculta), substituindo o diretor Stanley Kubrick – que desistiu do filme pelas atitudes de Brando. No ano seguinte, essa fama de difícil só aumentou. Nas filmagens de “Mutiny on the Bounty (O Grande Motim), a produção culpou Brando pelos atrasos, mudança na direção e orçamento acima do previsto. As dificuldades em trabalhar com o astro eram referentes a sua personalidade e temperamento forte, sempre dando opinões no roteiro e direção.
 
Após vários filmes sem grande sucesso, Brando estava cada vez mais desanimado com a atuação. Apenas quando Francis Ford Coppola o chama para seu filme, é que Marlon volta a ter vontade de atuar. Embora o estúdio não o quisesse, durante o teste ele colocou algodões na boca e começou o que viria a ser seu papel de maior sucesso e que o imortalizou como Don Vito Corleone, na franquia "O Poderoso Chefão".


                                                      
 
Em 1972, além de “The Godfather”, Marlon gravou o polêmico “Last Tango in Paris” (O último tango em Paris). Ambos os filmes são sucessos de bilheteria: o primeiro rende o segundo Oscar de Melhor Ator; o segundo a sétima indicação. Depois destas produções, Brando volta a ser o mais brilhante e rentável astro de Hollywood. Ao mesmo tempo, é a partir daí ele vê o dinheiro falando mais alto. Ele desejava trabalhar para obter lucro e só voltar a fazer filmes quando fosse necessário.
 
Os anos de sucesso em Hollywood fizeram com que Brando acreditasse que atuar é mentir. E para ele, as pessoas mentiam não apenas durante a atuação. As pessoas estariam sempre mentindo para seu benefício próprio.

Em 1978, participou de Superman como Jor-El e recebeu 14 milhões de dólares por 12 dias de trabalhos. Brando já não queria decorar diálogos. Ele os colocava nas testas dos membros da produção. Posteriormente, usava um transmissor de áudio, que hoje conhecemos como ponto, para receber sugestões de falas e daí ele improvisava. 

 
No entanto, em 1979, gravara “Apocalypse Now” e não só entrega uma grande atuação, como se empenhara para o papel. Mas isso só aconteceu pois ele mudou o roteiro do filme. O ator contestava que o roteiro era horrível e estúpido, e que Francis estaria comentando um grande erro. Assim, ele reescreveu todo o roteiro de seu personagem. Todas as cenas a meia luz e meia sombra que sugeria o tom misterioso do Coronel Kurtz, fora sua ideia. O filme se tornou um sucesso e é lembrado como um marco no cinema.

                                                       
 
Nos anos 80, se afastou do cinema retornando apenas no final da década por problemas financeiros. Foi indicado ao Oscar como melhor ator coadjuvante por "A Dry White Season" (Assassinato sob Custódia). Nos próximos anos não fez nenhum grande filme, estava novamente no modo automático: apenas pelo dinheiro. Seu último filme foi em 2001, “The Score” (A cartada Final).

Vida Pessoal: personalidade, polêmicas, lutas civis e sexualidade
 
Em sua juventude, Marlon Brando foi denominado com maluco. Era um jovem cheio de energia e várias garotas surgiam em sua vida. Dessa maneira, seu primeiro casamento durou poucos meses e foi quando teve seu primeiro filho, Christian. O astro menciona, no documentário "Listen to me Marlon", que “o aspecto animal de minha personalidade dominou e ultrapassou tudo que era razoável, racional, moral ou decente”. O ator não tinha relações só com mulheres, nunca teve problema de admitir seus casos homossexuais. Brando, inclusive, foi o primeiro astro de Hollywood a interpretar um homossexual, em “Reflections in a Golden Eye (Os Pecados de Todos Nós).
 
Ao longo da vida, criticou o cinema de Hollywood alegando que não há arte, apenas “dinheiro, dinheiro, dinheiro... se você acha que é sobre outra coisa, acabará ferido”. Começou a lutar contra a injustiça social e racial, defendendo os direitos civis, especialmente dos negros. Participou, inclusive, de palestras com os 'Pantera Negras' e com Martin Lunter King. Por sua militância, foi ofendido com cartazes que diziam “Marlon Brando é um aberração que ama os negros”. Brando também lutou pelos direitos indígenas recusando seu Oscar de melhor ator, em 1973. Como protesto, enviou a estatueta a atriz e ativista Sacheen Littlefeather, em resposta ao tratamento dos índios americanos pela indústria cinematográfica.

                                                     
 
Porém, o caso mais polêmico do ator, sem dúvida, foi em “Last Tango in Paris”. Bernardo Bertolucci e Brando, fizeram uma cena na qual o ator estupra a atriz Maria Schneider. O caso sempre recebeu comentários mas só repercutiu em 2007, após uma entrevista da atriz ao jornal britânico Daily Mail. Maria conta lembrar de Marlon dizer “Maria, não se preocupe, é só um filme". Entretanto, durante a cena, embora não houvesse o contato sexual "eu chorava de verdade. Senti-me humilhada e, para ser honesta, um pouco violentada por Marlon e Bertolucci. Pelo menos foi só uma tomada”. Anos depois, em 2013, Bertolucci confirmaria o caso afirmando que, na época, queria uma reação real, com humilhação e toda emoção possível na tela.
 
Outras polêmicas em que o astro esteve envolvido eram relacionadas aos seus filhos. Em 1972, seu filho Christian foi sequestrado. De antemão suspeitaram da máfia, em resposta a seu papel em “The Godfather”. Mas o garoto foi encontrado no México com Hippies e o motivo de terem o raptado foi por Anna, a mãe do garoto, ter prometido dez mil dólares para esconderem o filho de Brando.
 
Marlon não era um pai presente, tornando a infância de Christian conturbada. Anos depois, em 16 de maio de 1990, Christian matou o namorado de sua meia-irmã, Cheyenne Brando. Segundo o mesmo, estava com raiva pois seu cunhado havia batido em sua irmã, porém não atirou com intenção, foi um acidente. No tribunal Brando lamenta dizendo “acho que falhei como pai”. Christian pegou 10 anos de prisão e em 1995 sua filha cometeu suicídio.

                                                     

Últimos anos e legado
 
Perturbado, sozinho, cercado de memórias, trabalhando sem amor e apenas pela sobrevivência. Os problemas com os filhos e o estado de confusão e tristeza, fez com que Brando gastasse milhões em psicanalistas. O tratamento não adiantou, já que permaneceu em seu isolamento cheio de transtornos. Em 1 de julho de 2004, Brando morreu de insuficiência respiratória, na cidade de Los Angeles.
 
Até hoje, Marlon Brando é considerado como um dos maiores atores de todos os tempos. Para muitos, o melhor. Todos os amantes de cinema do século XX, sabem que o ator está presente na história da sétima arte e é um ponto de referência. Ele influenciou diversos artistas. Verdadeiramente, uma lenda.

Referências: 
Documentário: Listen To Me Marlon

httpswww.dailymail.co.uktvshowbizarticle-469646I-felt-raped-Brando.html
https://www.notablebiographies.com/Br-Ca/Brando-Marlon.html

 
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